Keys pode ser a próxima a transcender o esporte
Por Mario Sérgio Cruz
abril 12, 2017 às 7:00 pm

Há duas semanas, quando Nick Kyrgios e Alexander Zverev protagonizaram um grande jogo em Miami, houve uma sensação de alívio e expectativa entre os fãs. Foi uma partida que simbolizava que o circuito masculino poderia continuar atrativo e popular, mesmo quando a brilhante geração do Big Four (e é Big Four, não Three e nem Five) pare de jogar.

A nova geração feminina também teve um momento de destaque para o duelo entre as jovens de 19 anos Daria Kasatkina e Jelena Ostapenko na final Charleston. Kasatkina esbanjou disciplina tática e firmeza do fundo de quadra para vencer por 6/3 e 6/1 aquela que foi a primeira final de WTA entre duas atletas com menos de 20 anos desde outubro de 2009, na cidade austríaca de Linz, quando Petra Kvitova venceu Yanina Wickmayer. Tcheca e belga já estão com 27 anos.

Mas o futuro do circuito feminino passa obrigatoriamente pela construção de ídolos. E hoje, há um nome claro para se firmar como estrela: Madison Keys. A jovem americana de 22 anos chegou rapidamente ao top 10. Mas grande parte desse ganho de popularidade pode vir de fora das quadras. Keys é uma jogadora que fala o que pensa e luta por aquilo que defende. A WTA e também a imprensa americana já identificaram o enorme potencial de liderança que ela tem e a repercussão de suas declarações tem sido cada vez maior.

Desde o fim do ano passado, quando recebeu ofensas de conteúdo racista por suas redes sociais (Twitter e Instagram) após uma derrota, Keys assumiu para si a luta contra as mensagens abusivas. O tema ficou recorrente nas entrevistas coletivas que ela dá a cada torneio e outras jogadoras têm demonstrado apoio a cada vez que o assunto entra em pauta. No último sábado, foi ao ar uma entrevista de Keys ao canal americano Tennis Channel falando exclusivamente sobre isso.

“Para mim, o cyberbullying acontece porque as pessoas acham que, por estarem atrás de uma tela de computador ou celular, podem dizer o que quiserem sobre você. Eles não pensam que existe outra pessoa recebendo aquilo”, comentou Keys, que também leu em voz alta alguns dos comentários ofensivos que recebe. (confira o vídeo acima)

Para a americana, não é possível traçar um perfil dos trolls, pessoas de todos os tipos assumem esse tipo de comportamento. “Muitas vezes depois dos jogos, especialmente quando eu perco, eles são mais extremos e agressivos. E quando eu clico para ver as páginas deles, alguns são adolescentes, mas outros são pais de família. Não há um tipo específico de pessoa que pratique isso”.

Embaixadora desde o ano passado da organização Fearlessly Girl, que visa desenvolver lideranças jovens entre as meninas em suas escolas e comunidades, Keys já realizou duas palestras em colégios americanos. A primeira foi no fim de dezembro, em sua cidade natal, Rock Island, no estado de Illinois, e a mais recente aconteceu no mês passado, para as alunas da sétima série da Young Women’s Preparatory Academy, em Miami.

“Eu me lembro de ter ligado para minha mãe e meus agentes e dizer ‘eu preciso fazer uma coisa positiva'”, comentou, ainda ao Tennis Channel. “Vou às escolas e converso com as adolescentes sobre o mundo delas e os problemas que elas enfrentam”, comentou a tenista que tem duas irmãs mais novas.

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“Eu adoraria ouvir das meninas sobre os temas que importam para elas e com os quais elas se preocupam para poder ajudá-las e influenciá-las a tratar desses assuntos de uma maneira positiva”, falou ao site da WTA, depois da palestra para as adolescentes em Miami.

Com engajamento e comentários pertinentes sobre um tema que faz parte do universo jovem, Keys pode trazer o tênis para um outro grupo de pessoas. Muitas dessas meninas para as quais ela discursou em escolas talvez nem se interessassem antes por tênis ou pelo esporte de um modo geral, e podem ter pensado: “Vou começar torcer por ela” ou ainda “Quero ser como ela”. É possível que estejamos vendo o crescimento uma atleta extremamente representativa para para uma comunidade, tal como as irmãs Williams foram e são até hoje para as mulheres negras americanas. Keys pode ser a próxima jogadora a transcender o esporte.

“Estou mais confortável comigo mesma e acho que parte disso vem de poder falar abertamente. Acho que se nós nos calarmos e não falarmos sobre certos assuntos, as coisas não vão melhorar. É por isso que eu tomei uma posição em que nós podemos ter opiniões diferentes enquanto pudermos falar respeitosamente e conversar sem que isso se transforme em uma disputa. Acho isso muito importante e é o que eu vou tentar fazer”, comentou após a partida contra a americana Shelby Rogers em Charleston.

Mas para que atingir um patamar de importância que supere o âmbito esportivo, ela vai precisar de conquistas. O nome de Keys ainda é desconhecido fora do tênis, por mais relevantes que sejam suas opiniões. Há jogadoras da nova geração americana bastante articuladas, como Nicole Gibbs e Grace Min, mas que estão distante das posições de destaque para chamar os holofotes para si.

Keys joga os maiores torneios do calendário, e quase sempre é escalada para atuar nas quadras principais. Ela dá entrevistas toda semana e tem a ex-número 1 do mundo Lindsay Davenport como treinadora. Acima de tudo, tem o jogo. Seu saque já é um dos mais eficientes do tênis feminino e a velocidade média* de seus golpes também é uma das altas entre as mulheres. Em um circuito cada vez mais físico, a jovem de 22 anos pode se tornar a próxima jogadora dominante e atrair um fã clube em cada torneio que disputar e ser a mais icônica de sua geração.

* Da velocidade – Um estudo publicado pelo New York Times mediu as velocidades médias do forehand e do backhand de homens e mulheres nas últimas edições do Australian Open. Keys teve destaque nas duas listas, mas isso também pode ser explicado por seu estilo de jogo. Por bater muito reto e usar poucos slices e variações, é natural que o cálculo seja feito apenas em cima de golpes muito potentes.


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