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Faltou adversário
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2016 às 19:14

As estreias de Novak Djokovic e Rafael Nadal foram exatamente como as esperadas: tranquilas e sem graça. Não por culpa dos favoritos, mas da imensa diferença para os adversários. Ao menos vimos um Nole muito consistente na base, fazendo belas deixadinhas, e um Nadal firme nas devoluções com direito a um magnífico ‘grand willy’.

Por isso mesmo, pelo segundo dia consecutivo, a atenção ficou mesmo em cima de Andy Murray e o duelo apertado contra o mágico Radek Stepanek e seus incríveis 37 anos. O escocês marcou a nona virada de 2 sets em sua carreira – está agora a uma de igualar o recorde -, mas passou sufoco no 7/5 do quinto set. Até onde isso será um desgaste ou uma motivação teremos de aguarda para saber. Ele retorna à quadra já nesta quarta-feira para uma segunda rodada teoricamente simples diante do 164º do ranking.

Dos outros jogos, me preocupou ver Dominic Thiem de novo pedindo atendimento para dores no ombro direito. É algo que pode comprometer sua campanha, numa chave exigente. Vem agora o experiente Garcia-López, depois um eventual reencontro com Zverev e enfim Nadal nas oitavas. Só com o corpo inteiro o austríaco de 22 anos poderá sonhar com algo grande.

Também vale destacar o mau humor de Nico Almagro, que discutiu com Carlos Bernardes e até com o adversário Kohlschreiber. Os atritos entre ele e o árbitro brasileiro vêm desde o ano passado. Desta vez, o espanhol teria ficado maluco com uma advertência por palavrão e passou todo o quarto set reclamando da vida. Se colocar a cabeça no lugar, pode tirar Vesely, surpreender Goffin e encarar Tsonga lá na frente. Depende dele.

A chave feminina teve duas gigantescas más notícias. Angelique Kerber jogou insegura e Vika Azarenka passou a sentir o joelho ainda no primeiro set, chegando às lágrimas no final da partida que acabou entregando. Dê-se devido valor à italiana Karin Knapp, que bate com vontade na bola e ganhou de uma top 10 em sua 19ª tentativa.

Claro que essas ‘zebras’ beneficiam diretamente Serena Williams, que previa ter Vika nas quartas e Kerber na semi. Mas o setor ainda tem algumas meninas valentes, como Carla Suárez e Dominika Cibulkova. De qualquer forma, a norte-americana só pode ficar mais confiante.

Por falar nisso, Serena terá pela frente Teliana Pereira na quinta-feira. Favoritismo óbvio e com pouca chance de a brasileira tirar mais que dois ou três games, a menos que Williams viva seus dias de preguiça. Tecnicamente, a distância é abismal. A grande arma da pernambucana é seu notável espírito guerreiro. Não tem medo de cara feia. Tomara que seja escalada para a Philippe Chatrier e curta um momento único e merecido.

No detalhe
– Benoit Paire entrou nas três chaves, talvez sem acreditar muito que possa ir longe em simples. Enfrenta Teymuraz Gabashvili.
– Gasquet e Fratangelo fazem duelo de campeões juvenis: o francês venceu em 2002 e o americano, em 2011.
– Três lucky-loser estão na segunda rodada, algo que não acontecia no torneio há mais de 30 anos.
– Em caso de nova vitória, Ivo Karlovic será o mais velho tenista a atingir a terceira rodada de um Slam desde Connors no US Open de 1991.
– Stan Wawrinka disputará sua 150ª partida de Grand Slam.
– Os dois classificados para a segunda rodada de mais baixo ranking são Marco Trungelliti (166º) e Myrtilles Georges (202ª).
– Três britânicos venceram na estreia – Murray, Edmund e Bedene – e marcam o maior sucesso do país no torneio desde 1975.

Djokovic ainda maior
Por José Nilton Dalcim
3 de abril de 2016 às 20:50

A primeira pergunta que se fazia ao início da temporada 2016 era se a supremacia de Novak Djokovic permaneceria intacta. Os números falam por si só. Se analisarmos a soma de pontos de cada tenista desde janeiro, veremos que o sérvio tem 4.340, apenas 45 a menos do que fez em 2015, com a diferença que ele disputou um torneio a menos. Mais importante ainda: há 12 meses, o vice era Murray com 2.420; hoje, Raonic tem 1.750.

Aos números também pode se acrescentar a campanha nos três grandes torneios da temporada. O título na Austrália veio com menor esforço do que na edição anterior, Indian Wells não viu a mesma dificuldade da final de 2015 e Miami desta vez chegou sem a perda de um único set. Para chegar ao hexa no Crandon Park, tirou dois top 10 especialistas em piso duro e superou dois dos mais fortes aspirantes da nova safra.

Nada mais justo então do que atualizarmos a crescente lista de façanhas de peso de Nole:

– Assume a liderança de percentual de vitórias na carreira, com 714 e 147 derrotas (82,92%). Supera Borg (82,7%) e Nadal (82,4%).
– Agora são 63 títulos no geral, um a menos que Borg e Sampras e a quatro de Nadal, sexto colocado da Era Profissional.
– Com 89 finais, se firma no top 10 do quesito e está apenas uma atrás de Agassi. Corre atrás das 96 de Laver e Nastase e das 99 de Nadal.
– A vitória sobre Nishikori foi a 167ª sobre um top 10. Aproxima-se cada vez mais das 198 do recordista Federer. Percentualmente, seu índice nesse quesito é de 67,6%, só atrás de Borg (70%).
– Ao encerrar a primeira fase da temporada sobre piso duro, iguala os 49 troféus de Agassi na superfície e sobe ao terceiro posto. A partir de agosto, busca o 50ª de Connors. Federer ainda está 11 à frente. Percentualmente, tem 84,3% contra 82,8% do suíço.
– Em nível Masters 1000, lidera absoluto com 28 conquistas e é terceiro em finais disputadas (40), muito perto de passar Nadal (41) e Federer (42). Aumenta também para 11 finais consecutivas em Masters que disputou.

O mesmo domínio se viu no circuito feminino, em que Victoria Azarenka fez o raro feito de levantar as taças de Indian Wells e Miami. A reação da bielorrussa era mais do que aguardada, desde que se livrasse do fantasma das contusões e recuperasse a confiança.

Ela volta ao quinto lugar de um ranking que não vê no momento um grande destaque. Serena Williams parece fora de forma; Simona Halep, Garbine Muguruza e Belinda Bencic estão sofrendo com problemas físicos, Aga Radwanska ainda não achou um padrão e Angelique Kerber ainda precisa mostrar que o salto espetacular na Austrália vá se manter.

Com Maria Sharapova afastada e Petra Kvitova em momento ruim, Vika pode sim aproveitar a brecha. E a chance é boa no saibro europeu. Ela defende somente quartas em Roma, oitavas em Madri e terceira rodada em Paris. É fato que não fez ainda um resultado espetacular na terra batida. A oportunidade não poderia chegar em melhor hora.

Degrau acima
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2016 às 00:46

Nick Kyrgios deu um passo à frente nesta semana em Miami. O australiano, que completará 21 anos dentro de 27 dias, continua mostrando seu amplo arsenal e lutando contra seus fantasmas,  já garantiu sua primeira semifinal de nível Masters 1000 e também a entrada na faixa dos 20 mais bem colocados do ranking.

Jogo ele tem de sobra e nem mesmo o entusiasmado Milos Raonic conseguiu barrar a mistura promissora de saque pesado e golpes de pesado sólidos, profundos e agressivos, a receita que parece ser indicada para o tênis moderno. Não por acaso, já venceu gente como Roger Federer, Rafael Nadal, Stan Wawrinka e Richard Gasquet, além de derrotar duas vezes Tomas Berdych.

O currículo poderia ser muito melhor não fosse o desajuste comportamental, a dose de excessiva raiva e frustração que o fazem perder o controle e os bons modos. Não é nada exagerado afirmar que Kyrgios é tecnicamente superior a Kei Nishikori, seu adversário da semi nesta sexta-feira, em todos os aspectos. Sem falar na capacidade de improvisar. A fragilidade está unicamente na força mental, esse ingrediente tão fundamental que permitiu ao japonês escapar de cinco match-points contra Gael Monfils.

Que jogo estranho, diga-se. Monfils começou muito bem porque se permitiu ser agressivo, mas pouco a pouco voltou-se ao fundo de quadra e aí parecia inevitável a derrota. Com os dois esgotados pelo clima cruel em Miami, o cabeça 6 vacilou, Gael recordou que tinha de bater na bola e teve chances de todos os tipos. Nishikori não se entregou e ganhou na marra. Correto exemplo de gente boa que deveria inspirar Kyrgios, Monfils abriu sorriso e foi à rede abraçar o nipônico, que mal tinha forças para comemorar o feito.

A primeira semifinal masculina, marcada para as 14 horas, terá o duelo entre o favoritíssimo Novak Djokovic contra a boa surpresa David Goffin. O belga chega a duas semifinais seguidas de Masters em piso duro e, tal qual Kyrgios, concretiza uma evolução essencial. Note-se que o saque melhorou e, ainda que seja ainda um tenista de trocas de bola, tem procurado mais os winners.

Djokovic está em sua 12ª semifinal consecutiva de Masters, coisa que data de agosto de 2014. A partida contra Tomas Berdych na quarta-feira foi exigente como sempre, porém o sérvio soube controlar todas as situações. A solidez no fundo de quadra levou o adversário a se desesperar e cometer erros. O backhand especialmente esteve magnífico. É sem dúvida o melhor backhand de duas mãos que já vi em meus 35 anos de tênis.

Ao mesmo tempo, as meninas decidiram suas finalistas. Vika Azarenka confirmou seu grande momento, recuperou a ampla hegemonia sobre Angelique Kerber e entrará sábado como favorita para conquistar o tri em Miami.

A adversária surpreende: a veterana Svetlana Kuznetsova, uma tenista que consegue fazer tudo direitinho e tem um histórico respeitável. Se levar um título um tanto improvável, voltará ao top 10. Duvido que ela própria acreditasse nisso.