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Futuro garantido
Por José Nilton Dalcim
30 de março de 2017 às 23:00

Quem ainda se preocupa com o futuro do tênis masculino após o Big 4, deve ter ficado um pouco mais tranquilo após rever o duelo entre Nick Kyrgios e Alexander Zverev na última partida de quartas de final do Masters 1000 de Miami.

Uma batalha disputada game a game, cheio de tremendos pontos. Força, habilidade, empenho. Dividiram saques fulminantes, busca constante de winners, garra, reclamação, raquete para o chão. Entrega total. Um espetáculo que tanto esperamos da nova geração.

Kyrgios ganhou de novo, mas Zverev foi muito diferente de Indian Wells. Agressivo, soube jogar os pontos importantes, teve incrível frieza nos match-points, respondeu os malabarismos mágicos do australiano com lobs milimétricos e enorme agilidade. A menos que um desastre muito grande aconteça, esses dois garantirão um tênis de alta qualidade nos próximos anos.

Será que desta vez veremos o confronto entre dois dos mais talentosos tenistas da Era Profissional? Kyrgios e Roger Federer deveriam ter se cruzado em Indian Wells, mas o suíço teve adiada sua chance de revanche para a noite desta sexta-feira. Na única vez que se cruzaram, no saibro de Madri de 2015, o australiano ganhou em três tiebreaks emocionantes, o último deles com 14-12.

No sufoco
O duelo de Federer contra Tomas Berdych foi bem interessante. O suíço desfilou no primeiro set, mas depois o tcheco consertou o primeiro serviço e isso foi lhe dando confiança para despachar seus golpes muito retos e potentes da base. Me pareceu que Federer perdeu paulatinamente a força no saque, o que ajudou muito o adversário a devolver quase o tempo inteiro. Houve uma cena em que levou a mão às costas. Será?

Ainda assim, Federer teve 5/3 para fechar e depois match-point (que Berdych salvou com segundo serviço muito arriscado). Falhou novamente com o saque no primeiro e quarto pontos do tiebreak e cedeu o fatídico 6-4 mais tarde ao adversário. Aí deu alguma sorte e ganhou quatro pontos consecutivos. Berdych não soube vencer, isso é fato.

Nadal x Fognini
A outra semifinal também promete muito, principalmente se lembrarmos do magnífico duelo que Rafael Nadal e Fabio Fognini fizeram no US Open de 2015, naquele que foi o melhor jogo daquela temporada. Curioso que Miami seja um pouco mais lento, mas isso na teoria não atrapalha nenhum dos dois, que também são grandes especialistas no saibro.

Nadal leva pequena vantagem em golpes – tem mais primeiro saque e forehand, elementos essenciais no piso duro – mas é na parte mental que os dois se distanciam mais. O espanhol é uma fortaleza e faz da adversidade um incentivo, enquanto o italiano flutua demais e pode sair facilmente de jogo numa fase de frustração.

Fognini no entanto parece ter uma motivação especial ao enfrentar Rafa, talvez pelo desafio em si. Em Miami tal qual Indian Wells, ele tem dado seus showzinhos habituais porém parece determinado e já buscou partidas difíceis. Se jogar sem compromisso, pode complicar Nadal, principalmente se conseguir atacar com competência o segundo serviço do espanhol.

Melo, de novo
E Marcelo Melo embalou de vez com o polonês Lukasz Kubot. Segunda final seguida de Masters 1000 é um resultado excelente para uma parceria que acabou de se formar e estava tão instável. Os dois se encontraram no piso sintético americano e a fase ficou boa o bastante para eles ganharem vários ‘pontos decisivos’ e supertiebreaks apertados.

O salto da dupla é expressivo. No caso de título no sábado, que seria o primeiro da parceria, eles assumem o segundo lugar da temporada, menos de 500 pontos atrás dos líderes Henri Kontinen/John Peers, que dispararam porque foram os campeões na Austrália. A boa notícia para Melo foi a queda dos Bryan na outra semi, mas os adversários serão da casa: Jack Sock e Nicholas Monroe.

Melo vai em busca do sexto troféu de nível Masters em dez finais, recorde absoluto para o tênis nacional. Bruno Soares tem dois títulos e seis vices.

Como já falei demais hoje, deixo o feminino para amanhã.

Os velhos e os novos
Por José Nilton Dalcim
29 de março de 2017 às 00:36

Mais um duelo Roger Federer x Rafael Nadal? Ou Miami será capaz enfim de consagrar a nova geração? O velho e o novo se misturam nas quartas de final do segundo Masters 1000 da temporada, tipo de torneio que tem privilegiado quase o tempo inteiro a experiência em detrimento do arrojo da juventude.

Federer desta vez não brilhou, ainda que tenha feito grandes lances. Cometeu 32 erros (13 de backhand) em 26 games com somente 49% de acerto do primeiro saque de média. Mostrou clara frustração. E ainda encontrou Roberto Bautista cada vez mais confiante no piso duro, jogando perto da linha, forçando paralelas. O espanhol correu muito mas também arriscou, fez 12 winners e 26 erros. Perdeu porque sempre vale a máxima: nos tiebreaks é preciso tomar iniciativa, o que um tem de sobra e o outro, não.

O suíço reencontrará na quinta-feira Tomas Berdych num jogo possivelmente sem qualquer novidade, já que o tcheco raras vezes tem alguma opção tática diferente da pancada no saque e do fundo de quadra. Tem até tentado ir à rede, é fato, mas contra Federer? Arrisca-se a levar outro vareio como foi em Melbourne. Berdych perdeu todas as seis últimas e não vence desde Dubai de 2013.

O ‘trintão’ que sobreviver jogará diante da nova geração. Nick Kyrgios e Alexander Zverev repetem a terceira rodada de Indian Wells, e como é bom vê-los em rodadas importantes com frequência cada vez maior. O alemão chega às quartas de Masters 1000 pela primeira vez e não poderia estar mais credenciado, vindo de vitórias em cima de John Isner e Stan Wawrinka.

No duelo de duas semanas atrás, Zverev foi passivo demais e deixou Kyrgios tomar conta dos pontos. Vamos ver que postura o alemão terá desta vez. Importante lembrar que ele vem de três match-points evitados diante de Isner e virou o jogo em cima de Wawrinka com muita sobra. Suportou a pancadaria que Stan tentou impor, sacou muito bem e esperou a hora certa de agredir. Foi aliás a segunda vitória em cima do adversário tão poderoso.

Exatamente um ano atrás, Kyrgios fez semi em Miami e de lá para cá foram mais três quartas de nível Masters (Indian Wells e Madri, as outras). Se levarmos em conta que Miami não tem uma superfície realmente veloz, fica claro que o australiano tem muito mais recursos do que o poderoso saque. Aliás, anda se mexendo muito bem na base, o que foi essencial para superar a regularidade de David Goffin.

Rafa Nadal fez grande aplicação de contra-ataques diante de Nicolas Mahut, mas acima de tudo trabalhou muito bem seu próprio serviço num jogo de placar 6/4 e 7/6 mas que curiosamente durou apenas 1h33. O veterano francês acertou 38% do primeiro saque no set inicial o que impossibilitou a ideia de sacar e volear. Melhorou depois, mas é muito deficiente na devolução. O canhoto espanhol volta à quadra já nesta quarta-feira para encarar Jack Sock, que não possui backhand para competir. Só tem chance mesmo se Rafa jogar mal.

E olha aí o Fabio Fognini. Incrível como um tenista de sua qualidade técnica só possua três quartas de final de Masters 1000 no currículo: uma semi no saibro de Monte Carlo em 2013 e quartas em Cincinnati em 2014. Quanto antagonismo, o que prova seu grande tênis. Passeou contra o irritadinho Donald Young e pode complicar Kei Nishikori.

Adivinhem: o japonês pediu dois atendimentos médicos, fez a tradicional massagem lombar e escapou de quebra no terceiro set frente a Federico Delbonis. Está difícil para Kei defender o vice do ano passado, ainda mais que voltará à quadra nesta quarta-feira. Pelo menos, não vai ser de novo no sol do meio-dia.

Como nos velhos tempos
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2017 às 12:32

A expressão facial de Tomas Berdych ao se dirigir para o cumprimento diz mais do que eu possa escrever neste Blog. Sobrancelha erguida e sorriso amarelo, foi um simples e objetivo ‘hoje não tinha jeito’. Exatamente isso. Roger Federer jogou como nos velhos tempos e, quando o faz com tamanha agressividade, soltura e precisão, é praticamente impossível fazer alguma coisa.

A vitória de Federer não me surpreende – havia dito que Berdych não anda jogando tanto assim -, mas admito que não esperava volume tão grande de jogo por parte do suíço, que sufocou o tcheco a maior parte do tempo. Foi cirúrgico nas quebras, extremamente eficiente com o saque a favor, alongou o forehand e novamente mostrou aquela melhoria no backhand que venho alertando desde a Copa Hopman. Foram 40 winners em 18 games, nove deles de backhand. O último game espelhou com perfeição: quatro bolas vencedoras dos mais variados tipos.

Ainda assim, Kei Nishikori é favorito para ir às quartas de final, o que não é de todo ruim para Federer. O japonês é muito mais consistente no fundo de quadra que Berdych e, se o jogo for à noite como é natural que seja, será mais difícil para o suíço atacar e evitar os contragolpes espertos de Nishikori. A maior chance parece residir no segundo saque pouco contundente do japonês.

Quem sobreviver, terá muito provavelmente Andy Murray pela frente. Sem qualquer sinal da torção sofrida no pé direito do jogo anterior, o escocês jogou como autêntico número 1 diante de Sam Querrey, mesclando excepcionais defesas com ataques fulminantes. Fez de tudo um pouco e só mesmo a quebra cedida no terceiro set prejudicou sua performance. Vai encarar agora o estilo agressivo do canhoto Mischa Zverev, que foi 66 vezes à rede contra Malek Jaziri.

Stan Wawrinka levou um susto no primeiro set, depois dominou Viktor Troicki mas voltou a ter perigosos altos e baixos no quarto set. Sacou duas vezes para o jogo e não aproveitou, um tanto ansioso. Repetiu a falha no tiebreak e aí teve de evitar set-point. Mas já nos acostumamos com essas ‘viajadas’ de Stan. Ele pega agora Andreas Seppi, a quem já enfrentou 15 vezes e somou 10 vitórias, porém não se cruzam há quase três anos.

A outra novidade da chave masculina é o britânico Daniel Evans, um tenista de 26 anos que só agora parece ter encontrado um padrão de jogo. Vale lembrar que ‘Evo’ teve match-point para eliminar Stan na terceira rodada do US Open. Sofreu uma contusão no pé que limitou seu fim de temporada, mas começou 2017 com vice em Sydney. Daí se entender a confiança para tirar Marin Cilic e Bernard Tomic na sequência deste AusOpen, com um tênis gostoso de se ver, em que mescla força e jeito e mostra boa mão com o backhand simples.

Se mantiver tal qualidade, deve ser bem divertido o duelo diante de Jo-Wilfried Tsonga. O francês teve mesmo um jogo duro contra Jack Sock, mas continua a se aproveitar bem da nova velocidade do piso-bola. Disparou mais 23 aces e mostrou ótimo preparo físico para aguentar três sets bem exigentes dos quatro que fez.

A rodada feminina foi acima da minha expectativa. Ótimos duelos, principalmente de Anastasia Pavlyuchenkova em cima de Elina Svitolina, mas também a batalha de 3h36 entre Sveta Kuznetsova e Jelena Jankovic. As duas russas se encaram e quem ganhar deve encarar a veteraníssima Venus Williams.

Duelo também intenso marcou a vitória de Coco Vandeweghe em cima de Eugénie Bouchard. A americana tem um ar um tanto arrogante e por isso mesmo pode dar trabalho à campeã Angelique Kerber. Quem enfim teve uma vitória tranquila foi Garbiñe Muguruza, favorita agora diante de Sorana Cirstea e um desafio para Kerber, já que ganhou os quatro últimos confrontos diretos.

Sábado quente
– Istomin tenta manter embalo e tem chances reais diante de Pablo Carreño. O uzbeque não ganha três jogos seguidos em nível ATP desde o título em Notthingham de 2015.
– Zverev busca quarta vitória seguida sobre um top 10 diante de Nadal. Além disso, será apenas a terceira vez na Era Profissional que dois irmãos chegam juntos às oitavas de um Slam (Gene e Sandy Mayer em Wimbledon-1979 e Emílio e Javier Sanchez no US Open-1991 foram os outros)
– E pode haver um terceiro alemão na quarta rodada, caso Kohlschreiber passe por Gael Monfils. Mas o francês tem 12-2 nos duelos, sendo 4 seguidos.
– Ainda com poucos holofotes sobre si, Raonic tenta quarta vitória em cinco jogos diante de Simon.
– Thiem x Paire e Gofin x Karlovic são duelos inéditos no circuito. Já Gasquet tem 5-1 em cima de Dimitrov e Ferrer, 2-0 sobre Bautista.
– Em chave agora tranquila, Serena volta a enfrentar Gibbs, 92ª do mundo, depois de cinco anos e fica de olho em Strycova, que é favorita sobre Garcia com cinco vitórias seguidas, três em 2016. No lado oposto deste setor da chave, Pliskova já deu dois ‘pneus’ e só cedeu quatro games. Enfrenta Ostapenko, de 19 anos e 38ª do ranking.