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Chave caprichada
Por José Nilton Dalcim
7 de março de 2017 às 23:21

Que tal 45 títulos de Grand Slam num único quadrante de chave? O Masters 1000 de Indian Wells conseguiu essa incrível proeza e muito provavelmente se tornou o setor mais forte da história de um sorteio da ATP. Sim, porque Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer e Juan Martin del Potro terão de lutar entre si por uma vaga nas semifinais do torneio californiano. Isso sem falar que Nick Kyrgios e Alexander Zverev também estão ali no meio.

O mais espetacular de tudo é que existe enorme chance de vermos notáveis duelos diretos. Nole não deve ter dificuldade contra Kyle Edmund ou Gastão Elias e assim deve pegar Delpo já na terceira rodada, uma vez que o argentino estreia diante de Federico Delbonis ou Andrey Kuznetsov. Quem passar, deve cruzar com Kyrgios e Zverev, que são os candidatos naturais a ir à terceira rodada.

Logo acima, Federer e Nadal têm tudo para reviver a recente final do Australian Open ainda nas oitavas de Indian Wells. O suíço tem Stephane Robert ou Dudi Sela na estreia e quem sabe Steve Johnson a seguir. O espanhol pega Guillermo Garcia ou Guido Pella antes de provável duelo com Fernando Verdasco. Talvez esse seja o único duelo realmente perigoso para um dos grandes nomes, já que Verdasco vem do vice em Dubai e bateu Rafa em dois dos quatro recentes confrontos. Mas tomara que ele não atrapalhe.

Portanto, abre-se a chance de termos ainda nas quartas Djoko x Federer ou Djoko x Nadal, mas também Delpo x Federer ou Delpo x Nadal. Autênticas finais de Grand Slam. Quem sobreviver a isso, faz semifinal contra um grupo bem menos forte mas também interessante. Kei Nishikori tem Sam Querrey no caminho e Marin Cilic pode cruzar com Grigor Dimitrov. Bons nomes como Jack Sock e Lucas Pouille correm por fora.

Habituado a ter sorteios ruins, Andy Murray está mesmo numa maré de sorte. Pode ter uma sequência com Yen-Hsun Lu, Feliciano López, Pablo Carreño ou Roberto Bautista antes de fazer quartas contra Jo-Wilfried Tsonga ou mais remotamente David Goffin. Num torneio tão forte, é uma chave e tanto.

O outro quadrante define o outro semifinalista e também não é dos piores para Murray, pois é liderado pelo instável Stan Wawrinka e o incansável Dominic Thiem e povoado com jogadores de  confiabilidade duvidosa como Gael Monfils, Tomas Berdych e John Isner. Ou seja, Murray pode navegar em águas calmas enquanto assiste a uma batalha apocalíptica do outro lado.

Indian Wells possui o segundo maior estádio fixo do mundo, com 16 mil assentos. Curiosamente, desde 2004, Djokovic ganhou cinco vezes, Federer outras quatro e Nadal, três. O único a quebrar essa hegemonia foi Ivan Ljubicic, em 2010, o atual treinador de Federer. Num piso que todos consideram de média velocidade, Murray só fez uma final e Stan nunca passou das quartas.

A chave feminina, que acontece simultaneamente, foi sorteada na segunda-feira e 24 horas depois já deu surpresa: Serena Williams anunciou que continua com dores no joelho esquerdo e que não irá nem a Indian Wells, nem a Miami.

Assim, qualquer que seja sua campanha na Califórnia, a alemã Angelique Kerber irá recuperar a ponta e, se tiver duas boas campanhas, poderá abrir boa distância na ponta. Karolina Pliskova subiu para a posição de Serena e assim a chave não perdeu o interesse.

E os brasileiros? Thomaz Bellucci, claro, entrou naquele terrível quadrante. Estreia contra Pierre Herbert e, se vencer, jogará contra Verdasco. Num piso duro, são tarefas difíceis. Thiago Monteiro começa contra Martin Klizan, que não é nada fácil, mas se surpreender jogará com Pablo Cuevas e aí as chances aumentam e abrem perspectiva de um terceiro duelo contra Tsonga.

Onde estamos errando
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2017 às 14:49

Aprendi muito cedo no jornalismo que fazer crítica sem apresentar alternativas de solução é quase uma leviandade. É fácil sentar na frente do teclado e disparar contra tudo e contra todos. Muito mais difícil do que dizer o que está errado, é apontar quais os possíveis caminhos para se consertar a falha.

Quando vemos um dia de tenebrosas derrotas de Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e Teliana Pereira, a tendência de reclamar é obviamente alta. E justa. Eles são jogadores profissionais, que ganham pelo que fazem, e portanto estão naturalmente sujeitos a isso. Aliás, como os jornalistas e comentaristas também.

Bellucci e Teliana sofrem antes de tudo com a pressão que colocam em si mesmos. Jogar dentro de casa não parece uma vantagem, beira mais o sacrifício. Se você ainda por cima está num momento de falta de confiança, o passo para o vexame fica ainda mais curto. São tenistas ruins? Claro que não. São jogadores espetaculares? Nem de longe. Bellucci tem como qualidade um bom arsenal de golpes, Teliana usa a determinação ferrenha. Tanto para um como para outro, não é suficiente.

Monteiro já sofre com a impaciência que é a característica da mídia e da torcida nacionais, como se passar de um estágio a outro no tênis fosse coisa simples. O cearense mal começou a lapidar seus golpes. Mexeu no saque, está tentando ser mais agressivo com o forehand, trabalha para dar consistência ao backhand. Tem um jogo de rede fraco e se perde ao correr para a frente.

Pouco se leva em conta que ele ainda jogava challenger um ano atrás, acabou de entrar em seu primeiro Grand Slam e está de repente num patamar muito mais alto do que antes. Se vence, já se acha que ele vai ao top 20. Se perde, que é fogo de palha. Thiago poderá sim ir bem mais longe, porém terá de trabalhar muito e contar com enorme garra o tempo inteiro. O fã brasileiro no entanto não costuma ter essa complacência.

Mas afinal onde está o principal erro do tênis brasileiro? Na minha opinião, é preciso mexer muito na base. Aumentar o calendário juvenil, com regionalização, e preparar mais a garotada para jogar na quadra sintética. Se continuarmos a pensar somente no saibro, teremos jogadores de pernas e potência sem criatividade e recursos táticos. Tenistas com grande saque e forehand agressivo temos aos montes no circuito. É preciso achar algo a mais.

E aí vem para mim nossa maior falha estrutural. Nunca tivemos alguém que percorresse este imenso país atrás de talento. Um profissional gabaritado, de olho clínico, cuja missão fosse visitar centros de treinamento, torneios pequenos, quem sabe escolas e periferias. Detectar potenciais e dar oportunidade a eles. Inverter o processo cansativo e improdutivo que tivemos até hoje, quando sentamos e esperamos surgir um garoto ou menina diferenciados para aí então darmos suporte, geralmente muito atrasado, a eles. Suporte aliás que tende a virar cobrança e não motivação.

Seria capaz de listar aqui dezenas de nomes com competência para isso, geralmente ex-profissionais raramente aproveitados e que estão disponíveis no mercado. Há muita gente séria que enxerga o tênis bem mais longe. Estive em Porto Alegre há duas semanas e não precisei ver mais do que uma partida para constatar que Matheus Pucinelli é um desses talentos que precisam ser vistos imediatamente.

Onde estava o ‘olheiro’? Esta seria a verba mais bem gasta no tênis brasileiro.

Federer abre a grande semana
Por José Nilton Dalcim
27 de fevereiro de 2017 às 13:26

Não foi o melhor dos Roger Federer, com alguns erros bobos, precipitações e pernas preguiçosas. Ainda assim, o suíço passeou na quadra consideravelmente veloz de Dubai em seu retorno ao circuito, praticamente um mês depois da conquista inesperada do Australian Open. No duelo diante dos toques habilidosos e bom saque de Benoit Paire, ele sobra.

A missão de Federer em Dubai não parece fácil. As duas primeiras rodadas são tranquilas, mas ele pode pegar Lucas Pouille antes de rever Andy Murray na semi e, se passar, possivelmente Stan Wawrinka na final. Há uma expectativa extra pelas apresentações do número 1 do mundo, que por enquanto não brilhou na temporada e pode ter a confiança comprometida de vez.

A semana promete ser intensa no circuito masculino. Bem longe dali, em Acapulco, Novak Djokovic, Rafael Nadal, Marin Cilic, Dominic Thiem e Nick Kyrgios se embolam num torneio imprevisível. Sim, porque Nole só fez três jogos desde o título de Doha, o espanhol desistiu de dois torneios depois do vice em Melbourne, Thiem vai experimentar outra mudança de piso e fuso. Cilic e Kyrgios ainda estão devendo em 2017.

Para os amantes do saibro, o Brasil Open do Pinheiros é mais uma chance para Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e Rogério Silva colecionarem pontos antes de uma fase difícil em que terão torneios muito seletivos para jogar. A chave tem nomes fortes no saibro, como Pablo Carreño, Albert Ramos, Pablo Cuevas e Fabio Fognini, sem falar no festival de argentinos. Tomara que a maior altitude de São Paulo ajude os brasileiros.

A dream in Rio
O Rio Open acabou com uma de suas melhores finais. Dominic Thiem volta a mostrar que o saibro é sua autêntica praia e, se colocar juízo na cabeça, pode fazer uma grande temporada na Europa e até se candidatar seriamente para Roland Garros. Não pode exagerar no calendário como tem feito, porque isso já tem lhe custado seguidas contusões.

Leio que os promotores estão satisfeitos com os elogios rasgados dos tenistas à organização – e tem sido mesmo impecável e atenciosa – e com a presença do público, média de 6 mil pessoas por dia. Talvez seja uma estimativa exagerada, mas para um torneio no Brasil, com ingressos salgados, não foi mesmo ruim.

O sonho do Rio é virar um Masters 1000. Será uma briga dura. Acapulco está na fila, à espera de uma vaga há vários anos, disposto a comprar uma data por US$ 120 milhões, como afirmou seu diretor ao jornal Ás. Eles estão fazendo um ATP 500 caríssimo, pagando horrores de cachês. É um concorrente peso pesado.

Renovação
A entrada de Elina Svitolina no top 10 do ranking, com a excepcional conquista de Dubai, é mais um sinal da renovação do circuito feminino. Nesta segunda-feira, quatro das 10 primeiras do ranking têm menos de 25 anos e apenas duas estão acima dos 30. Se olharmos o masculino, só há um abaixo dos 25, quatro na casa dos 30 e dois caminhando rapidamente para lá.

Desde o ano passado, Svitolina chama a atenção para seu tênis vigoroso, de muita força nos golpes e nas pernas, mas também apuro tático e firmeza mental. Precisa ainda provar regularidade em outros torneios grandes. Valha a pena ficar de olho.