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Onde estamos errando
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2017 às 14:49

Aprendi muito cedo no jornalismo que fazer crítica sem apresentar alternativas de solução é quase uma leviandade. É fácil sentar na frente do teclado e disparar contra tudo e contra todos. Muito mais difícil do que dizer o que está errado, é apontar quais os possíveis caminhos para se consertar a falha.

Quando vemos um dia de tenebrosas derrotas de Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e Teliana Pereira, a tendência de reclamar é obviamente alta. E justa. Eles são jogadores profissionais, que ganham pelo que fazem, e portanto estão naturalmente sujeitos a isso. Aliás, como os jornalistas e comentaristas também.

Bellucci e Teliana sofrem antes de tudo com a pressão que colocam em si mesmos. Jogar dentro de casa não parece uma vantagem, beira mais o sacrifício. Se você ainda por cima está num momento de falta de confiança, o passo para o vexame fica ainda mais curto. São tenistas ruins? Claro que não. São jogadores espetaculares? Nem de longe. Bellucci tem como qualidade um bom arsenal de golpes, Teliana usa a determinação ferrenha. Tanto para um como para outro, não é suficiente.

Monteiro já sofre com a impaciência que é a característica da mídia e da torcida nacionais, como se passar de um estágio a outro no tênis fosse coisa simples. O cearense mal começou a lapidar seus golpes. Mexeu no saque, está tentando ser mais agressivo com o forehand, trabalha para dar consistência ao backhand. Tem um jogo de rede fraco e se perde ao correr para a frente.

Pouco se leva em conta que ele ainda jogava challenger um ano atrás, acabou de entrar em seu primeiro Grand Slam e está de repente num patamar muito mais alto do que antes. Se vence, já se acha que ele vai ao top 20. Se perde, que é fogo de palha. Thiago poderá sim ir bem mais longe, porém terá de trabalhar muito e contar com enorme garra o tempo inteiro. O fã brasileiro no entanto não costuma ter essa complacência.

Mas afinal onde está o principal erro do tênis brasileiro? Na minha opinião, é preciso mexer muito na base. Aumentar o calendário juvenil, com regionalização, e preparar mais a garotada para jogar na quadra sintética. Se continuarmos a pensar somente no saibro, teremos jogadores de pernas e potência sem criatividade e recursos táticos. Tenistas com grande saque e forehand agressivo temos aos montes no circuito. É preciso achar algo a mais.

E aí vem para mim nossa maior falha estrutural. Nunca tivemos alguém que percorresse este imenso país atrás de talento. Um profissional gabaritado, de olho clínico, cuja missão fosse visitar centros de treinamento, torneios pequenos, quem sabe escolas e periferias. Detectar potenciais e dar oportunidade a eles. Inverter o processo cansativo e improdutivo que tivemos até hoje, quando sentamos e esperamos surgir um garoto ou menina diferenciados para aí então darmos suporte, geralmente muito atrasado, a eles. Suporte aliás que tende a virar cobrança e não motivação.

Seria capaz de listar aqui dezenas de nomes com competência para isso, geralmente ex-profissionais raramente aproveitados e que estão disponíveis no mercado. Há muita gente séria que enxerga o tênis bem mais longe. Estive em Porto Alegre há duas semanas e não precisei ver mais do que uma partida para constatar que Matheus Pucinelli é um desses talentos que precisam ser vistos imediatamente.

Onde estava o ‘olheiro’? Esta seria a verba mais bem gasta no tênis brasileiro.

A magia está de volta
Por José Nilton Dalcim
2 de janeiro de 2017 às 22:42

Sinceramente, pouco importaram a vitória, o placar, o adversário, o torneio. O que valeu foi rever Roger Federer executar a maestria que leva estádios superlotarem. Seu primeiro jogo desde a semifinal de Wimbledon, seis meses atrás, durou apenas 61 minutos. Mas ainda assim houve tempo de sobra para se ver o saque preciso, o forehand agressivo, voleios e smashes perfeitos, backhand variado.

Federer jogou solto desde o primeiro game contra Daniel Evans, e quando isso acontece é uma delícia admirar seu inesgotável arsenal. Ele usou muito o serviço com slice, forçou paralelas dos dois lados e foi inevitável o ‘ohhhh’ dos 13 mil torcedores quando ousou usar o ‘sabr’. O britânico até que jogou direitinho, mas a distância técnica é grande demais.

O suíço se deslocou bem, correu atrás de todas as bolas. Dois fatores importantes: não economizou esforço e não houve qualquer sinal de problema com o joelho. Em termos competitivos reais, os testes diante de Alexander Zverev e Richard Gasquet – e tomara uma final contra Nick Kyrgios – serão bem mais importantes. O alemão tem saque e golpes de base muito mais forçados, a Gasquet sobra experiência.

Já Novak Djokovic demorou a entrar em jogo diante do bom alemão Jan-Lennard Struff. Sacou de forma insegura, perdeu os dois primeiros games de serviço e se viu 4/0 e 5/1 atrás. Pouco a pouco, foi se achando. Contou com a falta de determinação do oponente na hora de fechar e a partir do tiebreak já era o Nole que conhecemos.

O número 2 do ranking diz que precisou ajustar mentalmente a situação e que os pés não se mexiam de forma ideal, mas que ele sabia que era uma questão de ter paciência para achar o ritmo certo. Assim como Federer, um jogo é muito pouco para qualquer avaliação mais profunda. O importante acima de tudo foi superar a estreia e seguir em frente.

O sorteio da chave de Doha encaminha a decisão de domingo entre Djokovic e Andy Murray. Há pouca gente no caminho que possa evitar isso, ainda mais do lado do sérvio. Murray estreia nesta quarta-feira contra o experiente mas limitado Jeremy Chardy.

Brasil 2017
O tênis brasileiro já está em quadra nesta primeira semana. Thiago Monteiro nem passou da estreia, Rogerinho Silva tenta se preparar em Chennai. Vivem momentos distintos. O canhoto cearense tem uma temporada de afirmação pela frente. Muitos pontos a defender, adversários e torneios desconhecidos, um nível totalmente novo a encarar. Tomara que consiga ganhar alguns jogos para não afetar a confiança. Rogerinho por seu lado está em clima de bônus e manter-se no top 100 é o bom desafio.

Thomaz Bellucci sempre é a maior esperança. Agora ‘trintão’ e casado, tem planos ousados para 2017. Jogador perigoso quando adquire confiança e embalo, precisará de sorte na formação das chaves até ao menos recuperar o posto entre os top 40. Deveria aproveitar Rio e São Paulo para ter grandes campanhas e arrancar.

O feminino é uma total incógnita. Teliana Pereira tem de remar tudo de novo, Paula Gonçalves começa com muito a defender e Bia Haddad deu incrível azar com acidente caseiro que adia perigosamente seu calendário. Essa menina precisa de uma benzedeira.

Brasil pode ter novos nº 1 e encerrar jejum de 5 anos
Por José Nilton Dalcim
21 de setembro de 2016 às 18:34

Esta é uma semana incrivelmente interessante para o tênis brasileiro. Mesmo jogando torneios de segundo escalão, o cearense Thiago Monteiro e a paulista Paula Gonçalves podem se tornar os jogadores nacionais mais bem classificados do ranking mundial pela primeira vez, desbancando Thomaz Bellucci e Teliana Pereira.

E não é só. O paulista Rogerinho Silva concorre seriamente a recuperar seu posto no top 100 – infelizmente, ele e Rogerinho podem ser cruzar na semi de Santos – e com isso o Brasil voltaria a ter três nomes listados nessa faixa desde 21 de agosto de 2011, quando apareciam Bellucci (36), João Souza (90) e Ricardo Mello (91).

Para superar Bellucci no ranking, Monteiro precisa ser campeão em Santos neste domingo. Bellucci no momento soma 675 pontos como número 81 do ranking. Como está 19 postos atrás com 608 pontos, o canhoto cearense só atingirá 681 se faturar os 80 pontos dedicados ao vencedor do challenger praiano.

A linha de corte para um tenista fechar a temporada no top 100 é ligeiramente acima dos 600 pontos, então também se pode garantir que Monteiro necessita da final em Santos, que dá 48 pontos, para entrar diretamente no Australian Open. Essa vaga também não está distante de Rogerinho. Ele tem um longo calendário de challengers no saibro (Santos, Medellin, Campinas e Buenos Aires pelo menos), porém defende 137 pontos até novembro e assim precisará de boas campanhas.

A luta também está aberta entre as meninas. Segundo levantamento de Mário Sérgio Cruz, Paula pode superar Teliana nesta semana, em que joga no ITF de Albuquerque. A diferença entre elas é de apenas seis pontos, mas a campineira defende 18. Estreou bem na quadra dura hoje e terá de atingir essa semi nos EUA. Ainda por cima voltaria ao top 160. De qualquer forma, a troca de número 1 parece inevitável, já que Teliana passou uma rodada em Pequim no ano passado e assim perderá 60 pontos dentro de duas semanas.

Calendário
Ao dar uma conferida geral no calendário dos tenistas e dos torneios nesta reta final de temporada, algumas coisas chamam a atenção:
– Federer ainda está inscrito em Xangai. Pode ser apenas esquecimento da ATP ou dos organizadores.
– Thiem ganhou cachê para jogar Chengdy no lugar de Tsonga e aí recebeu convite para Pequim. Até então, era o único top 40 em atividade foram da fase asiática.
– Djokovic, Murray, Nadal e Raonic serão os favoritos em Pequim. Já Tóquio terá Wawrika, Nishikori e Monfils.
– Alguns encheram a agenda e irão encarar pelo menos quatro consecutivos, casos de Goffin, Gasquet, Dimitrov, Tomic e Zverev.
– Número 39 do ranking, Pablo Carreño pode ser obrigado a disputar quali em Pequim.
– Bellucci, a princípio, vai tentar os qualis grandes. Entra direto no 250 de Shenzhen, se arrisca no 500 de Pequim e no 1000 de Xangai e depois já tem vaga no 250 de Moscou.
– Monteiro descansa na próxima semana e aí jogará os challengers de Campinas e Buenos Aires.