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28 vezes Federer
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2017 às 11:47

Num torneio de tantas surpresas e resultados imprevisíveis neste Australian Open, talvez a chegada de Roger Federer à final seja a mais incrível delas. Ele próprio colocou em dúvida sua permanência nas quadras antes do retorno na Copa Hopman, dizendo que a aposentadoria dependeria muito de como ele reagiria após os quase sete meses de ausência forçada do circuito.

E eis então Federer em sua 28ª final de Grand Slam, deixando no caminho nada menos que três top 10, dois deles batidos em exigentes cinco sets. Não sobraram apenas técnica, algo que certamente Federer jamais perderia, mas também motivação e físico. É notável que, caminhando para os 36 anos, ele volte a decidir o Australian Open sete temporadas depois de seu tetracampenato, em 2010. Embora seja muito mais glamoroso ser campeão, o fato de atingir 28 finais dessa envergadura já é de deixar qualquer um de queixo caído.

Certamente ajudou Federer reencontrar um piso e uma bola mais velozes, que se encaixam bem melhor não apenas a seu estilo sempre agressivo mas principalmente à economia de pernas. Ganham todos, porque é um espetáculo assistir à transição de Federer do fundo para a rede, a execução de seus voleios e smashes, a capacidade de improvisar jogando sempre em cima da linha.

O duelo contra Stan Wawrinka não foi tudo o que eu esperava. Os dois erraram acima do que vinha fazendo no fundo de quadra. O backhand de Federer foi bem menos preciso, o saque o forehand de Wawrinka variaram demais. Ainda assim foi uma partida muito boa, porque houve emoção e empenho. Roger foi agressivo nos dois primeiros sets e aí teve queda de intensidade, muito bem aproveitada por Stan, que passou a bater pesado de todos os pontos da quadra. O quinto set poderia ter ido para qualquer lado. Wawrinka vai ter pesadelos com os dois break-points que perdeu antes de cometer a dupla falta mortal. Elogios a Federer, que manteve a calma e o tempo todo apostou no saque e no jogo agressivo.

Fica agora a derradeira expectativa para ver se teremos uma nova decisão de Slam entre Federer e Rafael Nadal, o que já aconteceu oito vezes e não se repete desde Roland Garros de 2011. Será outro desafio para o suíço, que ganhou apenas duas dessas partidas, ambas em Wimbledon, e perdeu quatro em Paris, uma na grama e outra na Austrália, oito anos atrás. Muito provavelmente, Federer torça por seu pupilo Grigor Dimitrov, ainda mais porque nunca perdeu do búlgaro em cinco duelos.

Qualquer que seja o adversário, Federer terá a quarta chance de chegar ao 18º troféu de Grand Slam desde julho de 2012, tendo perdido duas vezes em Wimbledon e outra no US Open, sempre diante de Novak Djokovic. Se o fizer, será o único homem da história com ao menos cinco títulos em três Slam diferentes.

Festa em família
No clima de saudosismo do Australian Open, as irmãs Williams voltam a decidir um título de Grand Slam depois de oito anos. Se para Serena, é quase uma rotina ir à final na sua longa fase de domínio do circuito, para a veteraníssima Venus é um feito incalculável ter a oportunidade de ganhar o oitavo Slam da carreira aos 36 anos, principalmente quando nos lembramos de seu sério problema de saúde que por tantas vezes levaram à especulação sobre a retirada das quadras.

Com pequenas exceções aqui ou ali, Serena voltou a jogar neste Australian Open o grande tênis que a manteve quase imbatível desde 2013. Sempre mirando a linha, determinada desde o primeiro game, sufocando a adversária que mal tem tempo de raciocinar. Obviamente, é superfavorita contra Venus. Na sua conta, está a chance do 23º Slam, que a desgrudaria de Steffi Graf, e o retorno à liderança do ranking.

Será o 27º duelo entre as tão ligadas irmãs, que possuem estilo muito parecido de jogo mas raramente proporcionaram um grande espetáculo, talvez por se conhecerem demais, talvez pelo excesso de respeito. Tomara que no sábado elas se preocupem apenas em fazer o que melhor sabem: bater na bola sem piedade.

O outro finalista
Nadal entra com todo o favoritismo diante de Dimitrov às 6h30 desta sexta-feira. Tem toda a torcida australiana a seu favor e um histórico de sete vitórias em oito duelos. A esperança do búlgaro de atingir sua primeira final de Grand Slam está na recente vitória em Pequim, num piso um pouco mais lento que o de Melbourne, em que foi muito consistente no saque e firme na base para marcar 6/2 e 6/4 no canhoto espanhol.

Mas o Rafa de hoje é um tanto diferente daquele que vinha tão pressionado por resultados meses atrás. A chegada de Carlos Moyá e o longo período de preparação a que se impôs, abandonando o circuito ainda em outubro, deram resultados evidentes e seu jogo voltou a crescer. Para ter chances, Dimitrov terá de ser ofensivo e proteger seu backhand. Rafa tem mais opções. Pode tentar ficar no fundo à espera dos erros e dos nervos do adversário, ou tentar ir para cima logo de cara para abafar. É uma evidente ‘avant-premiére’ do possível reencontro com Federer no domingo.

Nadal contra o backhand de uma mão
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2017 às 11:13

Promessa cumprida, o Rafael Nadal 2017 é mesmo outro. Saque afiado que permite o ataque constante logo na segunda bola e devolução mais perto da linha que tira o tempo do sacador se juntam à costumeira habilidade de contraatacar e ao conhecido preparo físico excepcional que o permite jamais desistir dos pontos. Toda essa receita funcionou muito bem diante de Milos Raonic e recoloca Nadal na semi de um Grand Slam depois de duas temporadas frustrantes.

Apenas os backhands de uma mão o separam agora do 15º troféu de Slam e da façanha única de ter dois títulos em cada um dos grandes torneios. Primeiro, vem o búlgaro Grigor Dimitrov, que encerrou a freguesia em Pequim do ano passado depois de perder sete vezes seguidas. Se passar, pega então os experientes: Stan Wawrinka ou Roger Federer. Nos dois casos, também tem largo histórico favorável.

Na sua luta para voltar à melhor forma, Nadal vem quebrando jejuns incômodos e isso certamente vai influenciando na confiança crescente. Venceu enfim um quinto set após três derrotas seguidas contra Zverev, bateu um top 10 após quatro frustrações e retornou às quartas, o que não acontecia desde Roland Garros de 2014, frente a Monfils.

Com tudo isso, usou um plano tático perfeito diante de Raonic. Fez o saque voltar sempre, muitas vezes com devoluções arriscadas e um backhand muito seguro, e o canadense foi colecionando erros. Raonic deveria ter levado o segundo set, mas não mereceu porque faltou o elemento essencial dos gigantes: a coragem. Falhou no 4/5 com um forehand no meio da quadra que preferiu só jogar do outro lado, entregou o mais terrível deles com dupla falta no tiebreak. Estatística essencial mostrou que Nadal ganhou 83% dos pontos em que acertou o primeiro saque diante de 68% do adversário. Não deveria ser o contrário?

Nadal é assim o terceiro ‘trintão’ nestas semifinais, algo que só aconteceu uma vez em toda a Era Profissional, justamente no primeiro deles, em Roland Garros de 1968.

Dimitrov tem chance contra Nadal? Sim, mas terá de jogar ainda mais do que fez diante de David Goffin, onde foi muito agressivo, com bons golpes da base, ótima transição à rede e firmeza no saque. Precisará se lembrar de tudo que fez tão direitinho três meses atrás quando bateu o ‘velho Rafa’ num piso que era um pouco mais lento do que o de agora.

O búlgaro é mais consistente no fundo do que Raonic e depende menos do saque, mas também tem a instabilidade emocional como maior barreira. Vai pesar certamente o fato de fazer apenas sua segunda semifinal desse nível, mas Dimitrov também está correndo atrás da recuperação na carreira e evoluiu muito nos últimos tempos. Se vencer, volta ao top 10.

A última vez que um Grand Slam viu três semifinalistas com backhand de uma mão foi lá mesmo em Melbourne, na edição de 2007, com Federer, Fernando González e Tommy Haas.

Quanta emoção
Talvez o momento mais tocante desde Australian Open até agora tenha sido a emocionada reação de Mirjana Lucic ao se classificar para a semifinal em cima de Karolina Pliskova, marcando uma volta à glória depois de 18 anos e uma longa história de superação. Aliás, foi essa incrível vontade que mostrou nos games finais. Atendida no vestiário com 3/4 no terceiro set, voltou e ganhou 12 dos 14 pontos seguintes com um tênis agressivo e preciso.

Claro que é bem difícil imaginar que ela tenha chances diante de Serena Williams, desde que Serena jogue no padrão que a levou a tremenda vitória em cima de Johanna Konta. Sacou muito, bateu demais na bola, colocou pressão o tempo todo. Um volume de jogo sufocante. Lucic joga também em cima da linha, golpeia tudo na subida e tem notável garra. mas ela mesma confessa estar no limite da condição física.

As duas semifinais já acontecem na madrugada desta quinta-feira e a expectativa é grande. Podemos ter uma nova decisão de Slam entre as Williams depois de oito anos ou uma nova finalista se Coco Vandeweghe mantiver seu incrível embalo em cima de Venus. Em seguida, entram Serena e Lucic, a semi com maior soma de idade da Era Aberta. Note-se que três das semifinalistas estão cima dos 34 anos, a mais alta média da fase profissional.

Quinta-feira quente
Além das duas semifinais femininas, que acontecem a partir de 1h, a quinta-feira tem o imperdível duelo suíço entre Stan Wawrinka e Roger Federer, às 6h30. Se o número 4 do ranking está em melhor ritmo de competição e tem feito um torneio bem consistente depois da estreia tensa, Federer tem vantagem de 18-3 nos duelos diretos, com derrotas apenas no saibro. São 5-1 para Roger nos Slam e 13-0 nas quadras duras, com apenas quatro sets perdidos.

Dois multicampeões de Grand Slam, o que não faltam são feitos e números. Federer busca a 28ª final e sonha com o 18º título de Slam, enquanto Stan tenta a quarta final com a notável façanha de ter vencido todas as três.

Eles têm números parecidos em cinco sets (25-20 Federer e 25-19 Stan) e nem mesmo ganhar dois pode ser garantia, já que Roger já obteve 10 viradas e Wawrinka, 6. A estatística de tiebreaks favorece Federer: 396-216, bem superior a 186-172 do amigo.

Caso atinja a final, Federer torcerá por Dimitrov (5-0), já que tem saldo negativo contra Rafa (11-23). Wawrinka está atrás dos dois: 3-15 para o espanhol e 2-4 para o búlgaro. Federer e Nadal decidiram Melbourne em 2009, Stan e Nadal fizeram a final de 2014.

Aos 35 anos, Federer por fim pode ser o mais velho tenista a atingir uma final de Grand Slam desde Ken Rosewall, no US Open de 1974, quando tinha 39. Ao mesmo tempo, tenta vencer primeira semi na Austrália desde 2010, tendo perdido cinco em seis anos desde então. De suas 13 derrotas em semi de Slam, nada menos que sete foram em Melbourne.

Chocolate suíço
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2017 às 12:14

Contra toda a expectativa possível no início deste Australian Open, a primeira semifinal masculina será totalmente suíça. Se Stan Wawrinka manteve seu favoritismo, Roger Federer jogou mais do que o previsto e ainda viu a chave se abrir com a queda de Andy Murray. Está mesmo dando tudo certo para ele, porque talvez poucos jogadores tops respeitem tanto Federer como Wawrinka.

Este será o 22º duelo em que a contagem é incrivelmente favorável a Roger. Suas únicas três derrotas foram sobre o saibro. Em seis confrontos de nível Grand Slam, ganhou cinco. É a terceira vez que chegam juntos à semi de Slam. A primeira foi na Austrália de 2014, em que Wawrinka foi campeão e Federer parou na semi para Rafa Nadal, e a outra no US Open de 2015, mas aí foi um jogo direto e Federer estava voando.

Wawrinka faz um grande torneio até aqui. Começou como sempre mais lento e levou sufoco de Martin Klizan na estreia, mas daí em diante se adaptou muito bem ao piso mais veloz que geralmente lhe traz problemas com o backhand e a devolução bloqueada. Eu não esperava uma vitória em sets diretos em cima de Jo-Wilfried Tsonga, que a rigor só teve chance no segundo set, quando obteve uma quebra e não segurou a vantagem.

Mesmo com as condições tão favoráveis ao francês – jogaram em pleno sol da tarde e ainda com um pouco de vento -, foi duro romper a solidez de Wawrinka nos golpes de base a ponto de Tsonga ter evidente dificuldade para controlar muitos dos voleios que tentou. Esperto, o suíço começou os pontos de devolução bem atrás da linha e explorou o backhand inconstante do adversário com ótima transição para a rede.

Federer por sua vez justificou seu amplo favoritismo diante do canhoto Mischa Zverev e, embora tenha perdido um game de serviço e ficado atrás 1/3 no segundo set, jamais correu qualquer risco. Zverev entrou um tanto assustado, sem potência no saque e duro de pernas nos voleios, e só foi se soltar no segundo set, quando mudou tudo e passou a sacar no corpo do suíço, o que facilitou a chegada à rede.

Obviamente que todo o empenho e habilidade de Zverev eram pouco para Federer, que mostrou grande capacidade de colocar as devoluções baixas e enorme destreza nas passadas por todos os cantos imagináveis, incluindo dois lobs num único ponto. Vindo de cinco sets exigentes contra Kei Nishikori, uma vitória de 1h32 e mínimo desgaste não poderia ser mais perfeita para Roger.

Semi americana
Enquanto o mundo do tênis já projeta um possível ‘revival’ numa decisão entre Federer e Nadal, a chance de as irmãs Williams voltarem a decidir um Grand Slam também cresce. A última vez que as duas irmãs foram a uma final desse porte foi em 2009, só que em Wimbledon.

Venus é mais uma que se beneficia claramente das novas condições do Australian Open, já que adora um jogo veloz. Nem fez uma grande exibição, mas contou com um dia de extrema irregularidade da russa Anastasia Pavlyuchenkova, que liderou os dois sets por duas vezes e não conseguiu segurar os nervos. Assim, aos 36 anos, Venus volta a disputar a semi na Austrália depois de 14 edições. Sua única final foi em 2003.

Para isso, terá de passar pela embaladíssima CoCo Vandeweghe, autêntico duelo de gerações. Onze anos mais jovem e com 1,85m, a menina de Nova York tem um saque genuinamente masculino em toda sua movimentação e essa é uma arma que explora com competência. Ganhou 88% desses pontos diante de Garbiñe Muguruza. Foi o segundo massacre em cima de uma tenista de ponta, já que cedeu apenas cinco games à líder Angelique Kerber.

Será portanto um duelo a ser decidido entre quem sacar ou devolver melhor. As duas só duelaram uma vez, mas se conhecem muito bem. Na entrevista em quadra, CoCo lembrou que Venus foi uma inspiração da adolescência e contou que tem até um autógrafo.

Fechando as semifinais
– Raonic venceu Nadal em dois de seus três duelos oficiais mais recentes. Duas de suas três vitórias sobre adversários top 10 em eventos de Grand Slam vieram na Austrália.
– Se Nadal vencer, o AusOpen verá três jogadores com mais de 30 na semi. Isso não acontece desde o primeiro Slam da Era Profissional, ou seja, Roland Garros de 1968.
– Tiebreaks são especialidade de Raonic, mas Nadal tem números expressivos: ganhou 200 de 332, enquanto o canadense venceu 165 de 268.
– Dimitrov vem de 9 vitórias seguidas desde o título em Brisbane e nunca perdeu para Goffin em quatro duelos (dois futures, um challenger e o US Open de 2014).
– Os dois também fazem luta direta por vaga no top 10. Goffin está em vantagem, já que Dimitrov precisa chegar à final para saltar até lá.
– Serena nunca enfrentou Konta, que tenta chegar pelo segundo ano seguido na semi da Austrália. Em 46 vezes em que atingir as quartas de um Slam, Serena só perdeu 13 vezes.
– Lucic também só tem uma semi de Slam, obtida em Wimbledon de 1999. Ela não enfrenta Pliskova desde 2015, mas o placar geral é apertado: 3 a 2 para a tcheca.
– Pliskova pode tirar o segundo lugar do ranking de Serena, caso seja campeã. A americana busca recuperar o número 1, mas precisa do título.