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Ressurreição
Por José Nilton Dalcim
12 de maio de 2017 às 19:00

Um ano depois do último duelo e num momento crucial da temporada de saibro europeu, Novak Djokovic e Rafael Nadal irão se reencontrar para um histórico confronto – o primeira do tênis profissional a atingir 50 capítulos – na semifinal de Madri na manhã deste sábado. É um jogo de ressurreição. O sérvio tenta retomar as rédeas de sua carreira e marcar sua maior campanha do ano. O espanhol quer voltar a vencer Nole depois de três temporadas e recuperar o favoritismo para Roland Garros.

Quem leva esse duelo forrado de simbolismos?

Djokovic vive seu pior momento, mas ganhou todas as últimas sete partidas contra Nadal, algumas delas com placares um tanto humilhantes. Não por acaso, as condições mais velozes de Madri proporcionaram a Nole sua primeira vitória sobre Rafa no saibro, na final de 2011. Por quê? Porque é um tenista naturalmente mais ofensivo.

Depois de grandes frustrações nos últimos dois anos, Nadal reencontrou o caminho. Jogou nesta sexta-feira seu melhor jogo sobre o saibro certamente desde o título de 2014 em Roland Garros, numa exibição contra David Goffin em que somou apenas predicados elogiáveis. Tenta a sexta final e o terceiro título seguido de 2017, um assombro.

Mas há fantasmas a espantar. Há 12 meses Rafa não vence um dos outros quatro grandes do tênis – Murray em Madri e Wawrinka em Monte Carlo do ano passado foram os últimos. Está com um backhand melhorado e disposição para ser agressivo, mas manterá esse padrão diante de um adversário sabidamente mestre no contraataque? Jogará três passos atrás da linha e permitirá o temido backhand cruzado do sérvio?

Estou louco para ver a postura tática e os nervos de cada um.

A outra semi será a batalha entre o velho e o novo backhand de uma mão. Pablo Cuevas, aquele que esteve para perder na estreia para Thomaz Bellucci, se aproveitou do jogo um tanto irregular e apressado do garoto Alexander Zverev para marcar uma virada de gala. Aos 31 anos, mostra pernas e ousadia de um garoto.

Dominic Thiem também está em sua primeira semifinal de Masters e faz uma campanha impecável, já que se adapta muito bem ao saibro veloz. Aos 23 anos e seis meses, o campeão do Rio Open pode se tornar o mais jovem finalista desse quilate desde Milos Raonic em Montréal de 2013, quando o canadense tinha 22 e oito meses. No único duelo com Cuevas, em Paris de dois anos atrás, o uruguaio venceu com placar bem duro.

Na chave feminina, uma decisão interessante. Kiki Mladenovic está em sua quarta final da temporada e, convenhamos, tem ainda 23 anos e se fixa de vez no top 20. Em caso de título, será a líder do ranking da temporada, quem diria. Melhor ainda, tem retrospecto de 3 a 1 diante da romena Simona Halep, que tenta o bicampeonato. Do jeito que o circuito anda, qualquer uma delas pode embalar em Paris.

P.S.: Segundo um tópico no Twitter, Nishikori já sofreu 15 abandonos no meio de jogo e cinco desistência sem entrar na quadra na carreira. Eu contei que, desde o US Open de 2014, foram quatro desistências e duas ausências, sem falar os torneios que pulou fora por contusão.

Nadal joga para ser o 1
Por José Nilton Dalcim
11 de maio de 2017 às 18:36

As quartas de final de Madri nesta sexta-feira diante de David Goffin são duplamente importantes para Rafael Nadal. Caso repita o resultado de Monte Carlo de três semanas atrás, o canhoto espanhol irá ultrapassar Roger Federer no ranking da temporada e assumir a liderança, consagrando-se com justiça como o tenista de melhor desempenho em 2017.

Federer estacionou em 4.045 pontos após Miami e Nadal atingirá 4.095 em caso de classificação para a semifinal. Como ainda tem Roma e Roland Garros pela frente, torneios em que é apontado como um dos grandes favoritos, Nadal pode encerrar a fase do saibro europeu perto dos 7 mil pontos acumulados desde janeiro e assim será o maior candidato à liderança do ranking ao fim da temporada. Que reviravolta, não?

Rafa nem precisou jogar seu melhor para despachar um desanimado Nick Kyrgios. O australiano fez jogadas espetaculares, mas se mostrou irregular o tempo todo e nem o saque funcionou. O dono do espetáculo foi mesmo o espanhol, que surpreendeu com uma tática de subir mais à rede. Além disso, pegou suas costumeiras ‘bolas impossíveis’ com extraordinária velocidade e competência.

O reencontro com Goffin é interessante. O belga também faz uma bela semana, mostrando algo que não se via com frequência: winners. Ele aliás optou por agressividade naquele notável começo de partida em Monte Carlo, encurralando Nadal até o árbitro estragar tudo. Em Madri, a bola anda mais e acredito que Nadal vai tentar também ser menos conservador. Tomara.

Aumenta ao mesmo tempo o clima para que tenhamos o 50º duelo entre Nadal e Novak Djokovic. O sérvio não poderia ter maior chance de concretizar sua volta por cima. O canhoto Feli López abusou dos slices e não foi mal, porém encontrou um Nole motivado, paciente e com ótima movimentação. Antes da semi, tem de passar por Kei Nishikori, sobre quem tem incríveis 11 a 2 e uma sequência de 10 vitórias desde a derrota no US Open de 2014. Vejam no entanto que coisa curiosa: nesse período, as duas vezes que Nishikori mais incomodou Djokovic foram no saibro de Roma e de Madri.

A parte de cima da chave indicará um finalista inédito em nível Masters e, deliciosamente, três nomes da nova geração concorrem à façanha. Alexander Zverev brilhou de novo e despachou outro nome de peso, Tomas Berdych, com muita personalidade. Terá pela frente um adversário muito mais experiente, o especialista na terra Pablo Cuevas, e tem tudo para vingar. Se o fizer, saltará para o 14º lugar do ranking, com chances portanto de ser um cabeça de chave de honra em Roland Garros.

Dominic Thiem fez o grande jogo da rodada e deu mais uma mostra de que seu tênis está amadurecendo. Grigor Dimitrov exigiu o máximo, liderou o terceiro set, chegou a cinco match points, e o que vimos? Um Thiem  concentrado, sem medo de tentar o golpe mais arriscado. No total sufoco, disparou ace a 220 km/h e acertou um forehand na paralela absolutamente incrível. É favorito contra Borna Coric, porque tem muito mais armas num piso que exige poder de decisão. Mas quem levou o duelo de Miami, poucas semanas atrás, foi o croata.

Na luta para reagir na carreira após a cirurgia no joelho direito de setembro, Coric escreveu mais um capítulo na terrível temporada de Andy Murray. Sua definição sobre a partida de duplo 6/3 merece um Oscar: ‘Tentei ser o mais chato possível, deixando para que Murray cometesse os erros’. Que jogo horrível. Que número 1 deplorável. A frase do escocês é de deixar de queixo caído: ‘As coisas podem mudar rapidamente, mas você precisa saber primeiro o que está acontecendo de errado para consertar depois’. Ou seja, ele nem sabe o que está errado!

Por falar em coisas fora do lugar, o circuito feminino está um pandemônio e Madri mostra isso com clareza. A maioria dos principais nomes do ranking está jogando mal ou reclama de contusão e problemas físicos. Simona Halep chegou na semi, mas quase ficou pelo caminho. A veterana Sveta Kuznetsova, que parecia a caminho da aposentadoria, voltou a ser uma força. Ninguém no entanto parece se firmar num momento em que Serena Williams se retirou da temporada. A maior novidade de Madri é a letã Anastasija Sevastova, que acabou de fazer 27 anos.

Sem moleza
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2017 às 12:07

Os favoritos e as estrelas que se cuidem porque o primeiro dia do Australian Open já mostrou que os adversários não estão para brincadeira. Stan Wawrinka, Kei Nishikori e Marin Cilic foram a cinco sets, Andy Murray não jogou grande coisa, Angelique Kerber teve altos e baixos, Simona Halep já se despediu e Roger Federer suou no duelo de veteranos contra Jurgen Melzer. Muitos jogos bons, emoção de sobra.

Wawrinka esteve contra a parede, quando viu um inspiradíssimo Martin Klizan sacar com 4/3 no quinto set. O canhoto eslovaco teve exibição notável, variando demais. Deu pancada, deixadinha, voleio, slice, ace. Exigiu ao máximo de um vibrante Stan, que também teve um começo de US Open difícil antes de chegar ao título meses atrás. Enfrenta agora Steve Johnson, contra quem não pode titubear também.

Nishikori levou um tremendo susto ao ver o russo Andrey Kuznetsov disparar tiros o tempo inteiro e ir para cima. O japonês foi caindo na eficiência com o saque ao longo da partida, mas ao mesmo tempo conseguiu alongar mais a bola. Parecia desgastado no quinto set, porém o adversário cansou antes. Fiquei com a impressão que o cabeça 5 não está inteiro e por isso não vai longe. Sorte que vai pegar Jeremy Chardy agora e depois Lukas Lacko ou Dudi Sela. Difícil perder.

Talvez pela mudança de quadra e clima, muito provavelmente por conta da natural pressão, Murray fez uma estreia protocolar como cabeça 1 de um Grand Slam. Não perdeu sets, mas encarou dois difíceis diante de Illya Marchenko, que só ganhou uma partida de challenger em seus últimos nove jogos. O maior problema foi o saque pouco contundente. O escocês justificou dizendo que a bola estava quicando mais alta do que nos dias de treino por conta do clima mais quente. Faz agora um interessante duelo com o garoto russo Andrey Roblev, que veio do quali, bate forte mas é um tanto esquentadinho.

Melzer não seria mesmo o adversário ideal para Federer porque, além de não respeitá-lo, ainda tenta encurtar todos os pontos. Então demorou para o suíço achar ritmo. Perdeu três games de serviço, dois deles num segundo set que estava dominado, Depois calibrou o saque e mostrou mais firmeza na base. Continuo a achar que o suíço trabalhou muito o backhand nessa pré-temporada, golpe aliás que era especialidade de Ivan Ljubicic. Está mais pesado, profundo e consistente. O duelo diante do garotão Noah Rubin vai ser bem interessante, porque o americano de 20 anos e 1,78m bate firme do fundo o tempo inteiro.

Para completar, Marin Cilic levou um tremendo susto do superagressivo Jerzy Janowicz, que certamente teria vencido não fossem os cinco sets, e Lucas Pouille caiu para o cazaque Alexander Bublik que nunca vi jogar. Os homens da casa viram Nick Kyrgios passear e o adolescente Alex de Minaur, de 17 anos, vencer como gente grande. Incrível a torcida que estava lá para ele.

O dia também foi de derrota para os brasileiros. Thomaz Bellucci se atrapalhou todo com a variação de velocidade e altura das bolas de Bernard Tomic, que fez o que quis. Thiago Monteiro foi o valente de sempre, tirou um set de Jo-Wilfried Tsonga num piso em que o francês é muito superior, o que já pode ser considerado um prêmio e um bom indicativo para 2017.

A chave feminina também começou quente. Lesia Tsurenko foi atrevida contra Kerber e exigiu da campeã. Shelby Rogers fez seu belo jogo agressivo, tirando Halep sem piedade. A maior surpresa para mim foi a queda tão precoce de Daria Kasatkina, a russa que havia batido Kerber na semana passada e me parecia uma promessa em Melbourne.

O complemento da primeira rodada merece atenção. Além do aguardado reencontro entre Novak Djokovic e Fernando Verdasco, previsto para as 6h de terça, poderemos ver na madrugada como estão Rafa Nadal, Milos Raonic, Grigor Dimitrov e Alexander Zverev, os outros nomes que acredito possam sonhar grande na parte de cima da chave. Há boas chances de ‘zebra’ ou jogos muito longos: Monfils-Vesely, Thiem-Struff e Goffin-Opelka. No feminino, todos os olhos estarão em Serena Williams contra Belinda Bencic. Não acredito em surpresa.