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Djokovic não tem mais limites
Por José Nilton Dalcim
5 de junho de 2016 às 19:03

Superado aquele que parecia o maior e único obstáculo para Novak Djokovic, a questão necessária é até onde poderão chegar seus números e façanhas, já tão expressivos. Se olharmos o circuito masculino de hoje, a resposta talvez seja óbvia: não há limites.

Nole atinge o auge da carreira no momento exato. Vê a decadência natural de Roger Federer, as incertezas físicas de Rafa Nadal, a evolução muito mais lenta de Andy Murray, a instabilidade de Stan Wawrinka. E só. Não há mais ninguém no top 10 com gabarito para enfrentá-lo em condições normais, qualquer que seja o piso.

Para garantir ainda mais sua soberania, a nova geração engatinha e permanece a dois ou três passos de ser uma ameaça. Essa conjuntura permite que Djokovic nem precise jogar sempre o seu melhor para vencer. Muitas vezes, bastam alguns games perfeitos, uma reação na hora certa, um adversário um pouco mais cansado ou menos confiante.

Claro que a supremacia não veio por passe de mágica. Há uma conjuntura toda jogando ao lado do sérvio, seja no apuro físico que incluiu dietas e academia pesada, seja o trabalho pesado para mudar o saque, fortalecer a perna para chegar melhor no forehand. Veio Boris Becker para enfim lhe dar um voleio convincente. Incluiu agora a deixadinha milimétrica no repertório. A procura pela perfeição não para. Está aí a explicação do sucesso e o merecimento da glória.

Não se deve jamais colocar em segundo plano a questão emocional. Djoko hoje é um homem bem casado, com um filho para criar, cercado sempre pela família e amigos. Pode parecer uma bobagem, mas significa muito num universo onde beber, usar drogas sociais, ir para as baladas, usufruir da fama e do dinheiro são tentações irresistíveis para a maciça maioria.

O jogo não foi grande coisa, é verdade. Mais erros do que acertos, uma ou outra grande jogada, geralmente baseada mais na habilidade física dos dois do que na técnica. Murray foi o menos nervoso no começo do jogo e de repente dominou. A perda do break-point na abertura do segundo set se provaria crucial.

Ao invés de manter Djokovic contra o muro, o escocês vacilou e aí o panorama mudou gradualmente. Enquanto o sérvio ganhou consistência e coragem, Murray se apequenou, cada vez mais defensivo. A distância entre eles foi ficando enorme a cada game e só teve emoção mesmo no finalzinho, quando Murray deu tudo por perdido e voltou a ser agressivo, contando com a ansiedade do número 1.

Felizmente, o resultado foi histórico e justo o suficiente para que a partida em si não fique na memória. Quem vai lembrar dos erros de forehand de um ou da tremedeira do outro quando Djokovic encantou o mundo e arrancou lágrimas com seu coração no saibro?

Muguruza gigante
Roland Garros também viu a coroação de uma nova rainha do saibro, a espanhola Garbiñe Muguruza. Que bom para o tênis feminino que uma campeã de Grand Slam e uma vice-líder do ranking seja uma tenista de postura agressiva, ótimos golpes da base, saque eficiente, inteligente no plano tático e que não se conforma em esperar o erro da adversária. Assim tem de ser uma verdadeira postulante ao trono de Serena Williams.

Muguruza está longe de ser uma novidade. Já havia chamado a atenção em Roland Garros de dois anos atrás, quando surpreendeu a própria Serena, e muito mais ainda ao atingir a final de Wimbledon de 2015. Isso mostra que seu jogo é capaz de desafiar qualquer adversária em todos os pisos. É um tanto tímida fora da quadra e isso talvez seja bom para que não caia no problema comum das que têm ascensão repentina e não seguram o peso da popularidade e compromissos de bastidores.

Aliás, as duplas também marcaram conquistas inéditas para Feliciano López e Marc López, Kristina Mladenovic e Caroline Garcia. Se não foi um primor de organização, ao menos Roland Garros mostrou uma bem vinda renovação no saibro.

Com o pé na história
Por José Nilton Dalcim
3 de junho de 2016 às 19:04

O conturbado Roland Garros 2016 chega a suas rodadas finais com a chance de fazer história e assim minimizar tudo que atrapalhou as duas semanas de competição. Novak Djokovic joga pela chance de ser o primeiro desde 1969 a deter simultaneamente todos os troféus de Grand Slam – algo que aconteceu apenas três vezes até hoje – e Serena Williams pode igualar os 22 títulos de Slam da alemã Steffi Graf.

São os favoritos? Sem dúvida. Os dois adversários são estreantes em finais no torneio, enquanto os líderes do ranking já somam quatro. É verdade que Djokovic perdeu todas as três, porém enfrentará um Andy Murray contra quem tem um longo histórico de supremacia. Serena ao contrário ganhou todas as decisões que disputou em Paris e vê Garbiñe Muguruza experimentar a segunda chance de tentar um Slam.

No entanto, seria temerário descartar as chances dos dois ‘novatos’. Murray acabou de derrotar Nole em Roma e deve entrar em quadra com o sensação de que não tem nada a perder. Na verdade, eu arriscaria dizer que o escocês concorre ao título mais incrível e difícil em Roland Garros desde Guga Kuerten, em 1997, porque sua chave foi notadamente exigente do começo ao fim. A forma com que dominou o campeão Stan Wawrinka nesta sexta-feira pode enchê-lo de moral. Mesmo perdendo um set, mostrou-se aplicado na tática, variando com maestria ataque e defesa. Esteve concentrado em cada ponto, lutou uma barbaridade.

Seu grande problema é que Djokovic sabe que está no ápice da carreira e confia na sua capacidade técnica e atlética. Assim como fez na véspera contra Tomas Berdych, entrou em quadra sufocando o garoto Dominic Thiem e assim permaneceu por dois sets. Só então o austríaco roubou um serviço e liderou o placar, porém foi rapidamente contido. Como eu imaginava, seu backhand ainda é frágil demais para encarar o volume assustador que Nole impõe. O que mais pesou no entanto foi a incompetência de Thiem nos chamados ‘pontos importantes’, ora apressado, ora descalibrado, o tempo todo acuado. Não fiquemos triste. Ele vai aprender e me surpreenderá se não ganhar Roland Garros alguns anos à frente.

Serena venceu seus dois últimos jogos no nome. Claramente está com dificuldade para se mexer, porém ainda é tão espetacular e cheia de recursos que consegue achar um jeito de enrolar a adversária. Ontem deu balão, hoje usou curtinha. Mas Muguruza a conhece bem. A espanhola, então uma anônima, atropelou Serena há dois anos ainda na segunda rodada de Paris, mostrando a impetuosidade que viria a ser sua marca registrada. É a receita correta para impor respeito à número 1. Resta saber como estarão seus nervos.

Roland Garros parece aliás estar talhado para feitos históricos neste ano. Nas duplas mistas, Leander Paes e Martina Hingis se tornaram a primeira parceria profissional a ganhar ao menos um título em cada Grand Slam. A suíça vai fazer 36 anos em três meses dias, o eterno indiano comemorará 43 em alguns dias.

Atualizando a lista
– Djokovic iguala Nadal e fará sua 20ª final de Slam, ficando ambos atrás das 27 de Federer.
– O sérvio também está na sexta final consecutiva, terceiro maior feito da Era Aberta, atrás de Federer, que fez 10 entre 2005-07 e mais oito de 2008-10.
– Nole no entanto pode marcar a maior série seguida de vitórias em Slam. As atuais 27 igualam duas de Federer e uma dele próprio. Laver só fez 26 na campanha invicta de 1969 porque o Australian Open tinha chave de 48 inscritos.
– O feito que Djokovic não quer repetir é o de maior número de finais perdidas em Paris, que pertence a Federer, com 4.
– Serena pode ser primeira mulher na fase profissional a ganhar um Slam com 34 anos e a mais velha a faturar Roland Garros em todos os tempos.
– Com 297 vitórias em Slam, Serena está a apenas duas de Chris Evert e a nove de Navratilova.
– O título vale 2 milhões de euros aos campeões. Se embolsar, Serena chega à casa dos US$ 80 mi e só estará atrás de Djokovic e Federer.

Desafio
Cleuton (não forneceu sobrenome) venceu o desafio das semifinais, tendo acertado todos os vencedores e os placares em set, além do andamento perfeito do jogo de Murray e ainda por cima cravou dois sets exatos e mais cinco fora de ordem. Leva a biografia de Djokovic da Editora Évora. O segundo lugar coube a Nathan Henrique, que ficou atrás de Cleuton porque acertou três sets exatos e um fora de ordem. Receberá a biografia de Federer. No sábado cedo, solto o desafio para a final.

O futuro chegou
Por José Nilton Dalcim
2 de junho de 2016 às 19:38

É quase impossível imaginar que o maior sonho de sua vida vá se concretizar nos próximos três dias. Ganhar Roland Garros significaria neste altura para Dominic Thiem ter de vencer dois dos quatro melhores jogadores do ranking, que juntos têm 13 troféus de Grand Slam. Não importa. O austríaco de 22 anos marca a definitiva chegada do futuro ao tênis masculino. Bem vindo.

Thiem é um digno representante do tênis moderno, capaz de disparar um primeiro serviço a 233 km/h mas ainda assim ficar no fundo da quadra, disparando potentes golpes dos dois lados, dando no máximo um punhado de voleios. Com 1,85m, consegue ser forte, veloz, resistente e ágil, requisitos mínimos para se pensar no top 10. Desde que se tornou a grande promessa do circuito masculino, já derrotou Federer, Nadal e Wawrinka no saibro. Só falta Djokovic.

Pai e mãe de ‘Dominator’ são professores de tênis e o irmão mais novo já está no circuito juvenil. Parece talhado para uma carreira de sucesso, tendo o mesmo treinador, Gunther Bresnik, desde os 10 anos. Foi ele aliás quem convenceu o garoto a mudar o backhand de duas para uma mão. Thiem admite ter sofrido para se adaptar, mas hoje agradece a sugestão: ‘Consigo jogar com menor esforço e maior variação’.

Thiem deve entrar como franco atirador na semi desta sexta-feira em Paris. A chance contra o todo poderoso número 1 é pequena e parece depender muito mais dos nervos de Djokovic do que da capacidade do austríaco de atacar e se defender. O backhand ainda é o ponto mais delicado de seu estilo e costuma falhar na hora do aperto, sem falar na falta de experiência em momentos de tamanha importância e visibilidade.

Mas Dominic é um excelente jogador sobre o saibro, tem um forehand extraordinário e consegue sair do buraco com o saque. Todo cuidado é pouco. Nesta quinta-feira contra David Goffin esteve contra o muro várias vezes e achou sempre um jeito de contornar a situação. O belga até tentou ser agressivo, mas lhe falta naturalidade nessa postura. Baixou totalmente a cabeça depois de levar a virada no terceiro set.

Djoko por seu lado fez o que quis de Tomas Berdych como era de se esperar. Se não criar alternativas táticas e trabalhar no deslocamento, o tcheco perderá mais 20 vezes de Nole porque simplesmente bater tresloucadamente na bola é uma limitação imperdoável no tênis de hoje. O importante para o sérvio foi cumprir o calendário apertado com partidas tranquilas e bem administradas. Só tem de parar com essa perigosa mania de descontar a frustração na raquete. De novo correu o risco da desclassificação. Tudo que Nole não precisa neste momento é de um lance azarado.

Na outra semi, Stan Wawrinka e Andy Murray fazem um duelo sem prognósticos. Um saibro um pouco mais veloz será importante para o estilo sempre agressivo do suíço, que saca melhor mas não defende tão bem como Murray. Depende assim mais da confiança e do controle da ansiedade. Vai ter muito de mental e a aposta mais sensata é de um quinto set. Com tempo seco, daria 60-40 para o atual campeão.

No feminino, Serena Williams viu o sonho do 22º Grand Slam bem perto do abismo. Como jogou de forma inteligente a baixinha cazaque Yulia Putintseva! Com um piso muito pesado e sem condições de competir na força, mesclou efeitos, empurrou a americana para trás, usou curtas e ficou bem perto de uma surpresa incrível e merecida.

Mas Serena é Serena. Achou um jeito de ganhar o segundo set, com um esforço enorme para segurar a cabeça, e depois dominou. Enfrenta agora Kiki Bertens, holandesa que gosta de bater mais na bola e é especialista no saibro.