Arquivo da tag: Pablo Carreno

Monte Carlo em quatro capítulos
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2017 às 19:06

Capítulo 1
Andy Murray deu mais um vexame como número 1 do mundo. Não há com certeza qualquer demérito de ser derrotado pelo especialista Albert Ramos, um bom canhoto sobre o saibro. A forma é que foi chocante. Depois de um set muito fácil, se perdeu. Aí alcançou uma vantagem absurdamente grande: 4/0 e saque. Conseguiu perder. Pior de tudo: o espanhol não fez nada de especial, além de lutar, jogar spin para cima e alimentar de erros os forehands do adversário.

Incomoda demais ver um líder do ranking com tênis tão débil. O segundo saque está sofrível. O forehand, que nunca foi uma Brastemp, caminhou tão para trás que ele passou a maior parte do tempo dando slices e deixadinhas com um golpe que deveria ser um gerador de winners. Murray não defende pontos em Mônaco – a semi de 2016 já foi retirada na semana passada -, mas irá para o vice em Madri, o título em Roma e a final em Paris com muitas interrogações. Ramos terá pela frente nas quartas Marin Cilic. Nada ruim.

Capítulo 2
Tudo ou nada. No dia que seus golpes estão afiados, Stan Wawrinka atropela qualquer um. Quando estão descalibrados, a derrota se torna quase natural. Se estiver ainda por cima diante de um oponente experiente e ousado, como o uruguaio Pablo Cuevas, não chega sequer a ser uma surpresa. Wawrinka continua jogando no lixo a oportunidade ímpar de se aproximar dos dois líderes do ranking.

O avanço do tricampeão do Brasil Open garante uma novidade para a final de domingo: não haverá um grande nome do saibro na disputa pelo título. Ele enfrenta o francês Lucas Pouille e quem ganhar terá Ramos ou Cilic. O croata, é bom lembrar, ganhou um Masters – em Cincinnati – e se tornou um daqueles poucos a quebrar a hegemonia do Big 4 nesse tipo de torneio.

Capítulo 3
Que desnível o duelo entre Rafa Nadal e Alexander Zverev. O garoto alemão havia feito dois grandes jogos na quadra dura diante do espanhol, mas no saibro foi uma piada. Seus golpes não machucaram, o saque não andou, nenhuma variação tática. Porém, há de se destacar que este Nadal de hoje lembrou o dos velhos tempos. Bolas longas e profundas, excelente jogo de pernas, rapidez e sua eterna e incomparável competência de escolher o golpe certo.

Será que Nadal se reencontrou no saibro? Bom, acho que essa resposta não será definitiva nas quartas de final desta sexta-feira diante de Diego Schwartzman, porém pode ser dada na eventual semi diante de Nole. Imperdível.

Capítulo 4
Talvez seja exagero dizer que Novak Djokovic tenha ficado perto da derrota, mas é de se pensar o que teria acontecido se Pablo Carreño houvesse aproveitado a fácil passada que teve no 15-40 do 4/4 do terceiro set. Seria injusto, na minha opinião. Porque o sérvio esteve com o comando do jogo o tempo inteiro, desperdiçando inúmeras oportunidades na partida. Carreño teve o mérito de correr muito e se defender nadalisticamente, enquanto Djoko criava muito mais em quadra.

A principal coisa a se louvar foi a atitude de Nole, radicalmente oposta ao que temos visto quando os jogos e placares ficam duros. Ao invés de mostrar frustração e raiva, Djoko brincou, sorriu, se divertiu. Ao contrário do que alguns pensam, isso não tirou dele a determinação de vencer, nem diminuiu seu espírito de luta tão conhecido. Fazia muito tempo que eu não via Djokovic jogando com prazer. Foi um alívio.

Nesta sexta-feira, a receita deve ser bem parecida: mesclar os golpes e tirar David Goffin da base. O belga adora alongar pontos e não tem maior peso de bola do que Carreño. Seu poder de contraataque não pode ser menosprezado. Dominic Thiem que o diga. O austríaco não sabe mesmo o que fazer.

Acho que estamos bem perto de assistir ao histórico 50º duelo entre Djokovic x Nadal.

Suíços no topo
Por José Nilton Dalcim
18 de março de 2017 às 21:46

Não houve mesmo qualquer novidade nas semifinais de Indian Wells. Stan Wawrinka sobrou em cima do espanhol Pablo Carreño, que não teve força para conter um excelente desempenho de Stan com o serviço a favor e falhou na tentativa de ser mais agressivo, o que foge muito de sua característica.

Roger Federer fez um excepcional primeiro set, sufocando Jack Sock em todos os aspectos, mas depois teve mais trabalho. O americano calibrou o saque e com isso conseguiu usar mais o forehand. Esteve aliás com chance de ganhar o tiebreak, quando abriu 3-1. Mas de novo ele encolheu o braço na hora do aperto.

Os suíços irão assim duelar pela 23ª vez e a desvantagem histórico é grande em favor de Roger. Ele só perdeu três duelos, todos no saibro, no entanto os dois fizeram grande partida na recente semifinal do Australian Open.

Com a evolução evidente do backhand de Federer, será curioso descobrirmos qual dos dois ousará mais com o golpe, ou seja, buscará mais paralelas para desequilibrar o adversário. Um diferencial importante pode ser a devolução, já que Wawrinka opta sempre pelo bloqueio e deverá ver Federer muitas vezes na rede.

Há vários ingredientes bem interessantes na aguardada final entre os suíços, marcada para as 17 horas deste domingo. Vamos a elas:

– Até onde consegui apurar, esta será apenas a segunda decisão de nível Masters 1000 entre dois jogadores com mais de 30 anos, repetindo Federer x Ferrer em Cincinnati de 2014. Vamos lembrar que os Masters (então Super 9) começaram em 1990.
– Federer poderá desbancar Andre Agassi e se tornar o mais velho campeão de um Masters, aos 35 anos. O norte-americano ganhou seu último em Cincinnati, aos 34.
– Líder do ranking da temporada com 2.645 pontos no momento, Federer se garantirá no primeiro lugar até Monte Carlo a menos que Stan vença Indian Wells e também Miami.
– Wawrinka assumirá o segundo lugar na temporada, superando Rafa Nadal, caso conquiste o troféu. Ele está com 1.410 pontos e iria a 1.810.
– No ranking de 52 semanas, Federer já garantiu o 7º e ainda pode ser 6º com o eventual título, apenas 175 pontos atrás de Milos Raonic.
– Wawrinka pode atingir o máximo de 6.105 pontos, ainda longe de Novak Djokovic, mas ele nunca estaria tão perto do número 2, reduzindo a distância para 2.810 pontos.
– Federer busca seu 25º troféu de Masters 19 meses depois de conquistar o último, em Cincinnati de 2015. Também pode chegar ao 90º no geral e se aproximar ainda mais dos 94 de Ivan Lendl.
– Wawrinka faz apenas sua quarta final desse quilate, a primeira fora do saibro. Seu único troféu foi justamente sobre Federer, em Monte Carlo de 2014. Ele perdeu Roma para Djokovic e Madri para Nadal.
– Enquanto Stan disputará a 26ª final geral, Federer já soma 138, terceira melhor marca da Era Profissional (Lendl tem 146 e Jimmy Connors, 164).
– Federer tentará sua sexta vitória sobre um top 10 neste temporada, depois das quatro que obteve no Australian Open. Ele lidera o quesito na Era Profissional, com 203.

Frustração
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2017 às 22:45

Um desarranjo intestinal impediu que Nick Kyrgios se testasse diante do ‘novo’ Roger Federer. Que frustrante. O australiano de novo não consegue embalar e suas grandes vitórias sobre Novak Djokovic acabam ficando isoladas e perdem evidentemente um pouco do impacto.

Federer não pode reclamar, porque ainda por cima ganhou um dia de descanso, um privilégio se imaginarmos que ele teria de jogar em pleno sol do meio-dia local. Melhor ainda, seu adversário não será Kei Nishikori, mas Jack Sock. O americano de 24 anos chega a sua primeira semifinal de nível Masters com vitória novamente em três sets – a terceira seguida no torneio – diante de um Nishikori de tremendos altos e baixos e um terceiro set muito mal disputado. Não parecia alguém que vai ser outra vez top 4 na segunda-feira.

Nos dois jogos que fizeram em 2015, ambos em quadra dura, Federer ganhou sem maiores dificuldades de Sock, sem dúvida um norte-americano do genuíno tênis moderno. Tem o jogo totalmente moldado para o fundo de quadra, com bom saque e incursões esporádicas à rede, além de ótimo físico. Mas é um tanto instável, comete por vezes falhas bisonhas e mentalmente flutua em momentos de muita pressão. Então é bem provável que, se jogar seu melhor tênis, o suíço dificilmente vai perder sets.

As semifinais de Indian Wells serão assim um autêntico duelo de gerações. Stan Wawrinka já passou por dois ‘novatos’, ambos com grande esforço. A partida contra Dominic Thiem foi especialmente interessante, uma pancadaria danada, boas variações e lances bem bonitos. Stan mostrou muita perna e ganhou novamente nos mínimos detalhes, como havia acontecido diante de Yoshihito Nishioka na véspera.

Por suas conhecidas oscilações, o favoritismo natural do suíço contra Pablo Carreño necessita de cuidados. O espanhol tem jogado cada vez melhor no piso duro e, se aguentar com paciência as bolas pesadas de Wawrinka, pode obter dividendos. Carreño, de 25 anos, faz de longe sua maior campanha em Masters e também na quadra sintética. Com isso será enfim top 20 na segunda-feira, marcando mais uma renovação no ranking de 2017.

Incrível vermos que Stan, com toda a qualidade que tem, chegou apenas a três finais de nível Masters, todas no saibro, com um único título em Monte Carlo.

A rodada foi completada com uma virada de respeito de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot sobre a forte parceria formada por Bruno Soares e o britânico Jamie Murray. Jogo bem parelho, mas até a metade do segundo set parecia que a coisa estava mais para Bruno. Bastou um game de ótimas devoluções para mudar tudo e Melo/Kubot jogaram um tiebreak muito confiante. Uma final de grande quilate parece ser tudo o que a dupla precisava para se firmar de vez.

Para mostrar a importância dessa campanha, o eventual título no sábado à noite em cima de Raven Klaasen/Rajeev Ram irá colocar Melo e Kubot como vice-líderes no ranking da temporada, completando um salto de 18 posições.