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Chocolate suíço
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2017 às 12:14

Contra toda a expectativa possível no início deste Australian Open, a primeira semifinal masculina será totalmente suíça. Se Stan Wawrinka manteve seu favoritismo, Roger Federer jogou mais do que o previsto e ainda viu a chave se abrir com a queda de Andy Murray. Está mesmo dando tudo certo para ele, porque talvez poucos jogadores tops respeitem tanto Federer como Wawrinka.

Este será o 22º duelo em que a contagem é incrivelmente favorável a Roger. Suas únicas três derrotas foram sobre o saibro. Em seis confrontos de nível Grand Slam, ganhou cinco. É a terceira vez que chegam juntos à semi de Slam. A primeira foi na Austrália de 2014, em que Wawrinka foi campeão e Federer parou na semi para Rafa Nadal, e a outra no US Open de 2015, mas aí foi um jogo direto e Federer estava voando.

Wawrinka faz um grande torneio até aqui. Começou como sempre mais lento e levou sufoco de Martin Klizan na estreia, mas daí em diante se adaptou muito bem ao piso mais veloz que geralmente lhe traz problemas com o backhand e a devolução bloqueada. Eu não esperava uma vitória em sets diretos em cima de Jo-Wilfried Tsonga, que a rigor só teve chance no segundo set, quando obteve uma quebra e não segurou a vantagem.

Mesmo com as condições tão favoráveis ao francês – jogaram em pleno sol da tarde e ainda com um pouco de vento -, foi duro romper a solidez de Wawrinka nos golpes de base a ponto de Tsonga ter evidente dificuldade para controlar muitos dos voleios que tentou. Esperto, o suíço começou os pontos de devolução bem atrás da linha e explorou o backhand inconstante do adversário com ótima transição para a rede.

Federer por sua vez justificou seu amplo favoritismo diante do canhoto Mischa Zverev e, embora tenha perdido um game de serviço e ficado atrás 1/3 no segundo set, jamais correu qualquer risco. Zverev entrou um tanto assustado, sem potência no saque e duro de pernas nos voleios, e só foi se soltar no segundo set, quando mudou tudo e passou a sacar no corpo do suíço, o que facilitou a chegada à rede.

Obviamente que todo o empenho e habilidade de Zverev eram pouco para Federer, que mostrou grande capacidade de colocar as devoluções baixas e enorme destreza nas passadas por todos os cantos imagináveis, incluindo dois lobs num único ponto. Vindo de cinco sets exigentes contra Kei Nishikori, uma vitória de 1h32 e mínimo desgaste não poderia ser mais perfeita para Roger.

Semi americana
Enquanto o mundo do tênis já projeta um possível ‘revival’ numa decisão entre Federer e Nadal, a chance de as irmãs Williams voltarem a decidir um Grand Slam também cresce. A última vez que as duas irmãs foram a uma final desse porte foi em 2009, só que em Wimbledon.

Venus é mais uma que se beneficia claramente das novas condições do Australian Open, já que adora um jogo veloz. Nem fez uma grande exibição, mas contou com um dia de extrema irregularidade da russa Anastasia Pavlyuchenkova, que liderou os dois sets por duas vezes e não conseguiu segurar os nervos. Assim, aos 36 anos, Venus volta a disputar a semi na Austrália depois de 14 edições. Sua única final foi em 2003.

Para isso, terá de passar pela embaladíssima CoCo Vandeweghe, autêntico duelo de gerações. Onze anos mais jovem e com 1,85m, a menina de Nova York tem um saque genuinamente masculino em toda sua movimentação e essa é uma arma que explora com competência. Ganhou 88% desses pontos diante de Garbiñe Muguruza. Foi o segundo massacre em cima de uma tenista de ponta, já que cedeu apenas cinco games à líder Angelique Kerber.

Será portanto um duelo a ser decidido entre quem sacar ou devolver melhor. As duas só duelaram uma vez, mas se conhecem muito bem. Na entrevista em quadra, CoCo lembrou que Venus foi uma inspiração da adolescência e contou que tem até um autógrafo.

Fechando as semifinais
– Raonic venceu Nadal em dois de seus três duelos oficiais mais recentes. Duas de suas três vitórias sobre adversários top 10 em eventos de Grand Slam vieram na Austrália.
– Se Nadal vencer, o AusOpen verá três jogadores com mais de 30 na semi. Isso não acontece desde o primeiro Slam da Era Profissional, ou seja, Roland Garros de 1968.
– Tiebreaks são especialidade de Raonic, mas Nadal tem números expressivos: ganhou 200 de 332, enquanto o canadense venceu 165 de 268.
– Dimitrov vem de 9 vitórias seguidas desde o título em Brisbane e nunca perdeu para Goffin em quatro duelos (dois futures, um challenger e o US Open de 2014).
– Os dois também fazem luta direta por vaga no top 10. Goffin está em vantagem, já que Dimitrov precisa chegar à final para saltar até lá.
– Serena nunca enfrentou Konta, que tenta chegar pelo segundo ano seguido na semi da Austrália. Em 46 vezes em que atingir as quartas de um Slam, Serena só perdeu 13 vezes.
– Lucic também só tem uma semi de Slam, obtida em Wimbledon de 1999. Ela não enfrenta Pliskova desde 2015, mas o placar geral é apertado: 3 a 2 para a tcheca.
– Pliskova pode tirar o segundo lugar do ranking de Serena, caso seja campeã. A americana busca recuperar o número 1, mas precisa do título.

Big Game
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2017 às 13:04

Pode ser uma conclusão precipitada, mas já me parece que bastou o circuito acelerar um pouco mais a quadra e a bola para que o tênis virasse de cabeça para baixo. O Australian Open chega às quartas de final já sem os dois atuais campeões e os líderes do ranking, mostrando claramente que os estilos ofensivos estão se sobressaindo. Com exceção de Serena Williams – que sempre se deu muito bem em pisos mais velozes -, ficou bem mais difícil apostar em campeões.

Mischa Zverev conseguiu estarrecer o circuito masculino ainda mais do que Denis Istomin havia feito dias atrás. Não apenas porque tirou o número 1 Andy Murray, mas pela aposta num estilo semimorto. Canhoto sem golpes poderosos, fez o tradicional saque-voleio de forma impecável, aquilo que os australianos conhecem como ‘Big Game’ e que imortalizou a maioria dos seus jogadores. Atuar o tempo todo na rede significa mescla atordoante de voleios longos com toques sutis curtos, o que Mischa usou e abusou. E olha que do outro lado estava um dos mais competentes defensores da história do tênis.

Murray é claro teve sua parcela de culpa. Deixou escapar o primeiro set e sinalizou acreditar o tempo todo que poderia dominar a situação com paciência e regularidade. Mischa no entanto ganhou confiança e manteve-se fiel à tática de trocar ritmos e direções, optando muito bem pela paralela para subir à rede como manda qualquer manual decente de tênis. Foram 118 subidas, com 65 pontos de sucesso, quase a metade dos 146 que conseguiu na partida.

E agora vai realizar um outro sonho, segundo suas próprias palavras, porque terá a chance de encarar Roger Federer em plenas quartas de final de um Grand Slam. O suíço também simboliza com dignidade o tênis ofensivo, a ponto de ter disparado 83 winners em cima de Kei Nishikori, mais um representante da geração em que as pernas são o elemento essencial.

O maior elogio a Federer talvez resida na forma com que conseguiu superar o início horrível de partida. Elevou o nível, aprumou o saque e a devolução e nem mesmo a queda no tiebreak, onde Nishikori fez um grande trabalho, abateu o suíço. Ao contrário, vimos Federer crescer ao longo da partida e ser exigido em todos os campos pelo adversário, até mesmo no físico. E novamente o backhand apareceu como elemento importante. O cabeça 5 só baixou a guarda mesmo no quinto set, quando o desconforto no quadril ficou mais evidente.

Depois de quase sete meses de inatividade, Federer não deixa de ser a outra surpresa desde Australian Open. Claro que é um jogador de extraordinários recursos e experiência, porém recupera o melhor tênis a cada rodada e não dá sinais de queda física. Voltou a ser aquele Federer do saque milimétrico na hora apertada, dos voleios mágicos, do forehand rasante e mortal. Jogará as quartas de Slam pela 49ª vez ao derrotar um top 10 pela 200ª ocasião.

Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga dão promessa de grande jogo na terça-feira. O suíço tem mais currículo e adora jogar na Austrália, mas o novo piso pode ser aliado importante do francês, que tem explorado ao máximo esse fator. Não esperava que Stan tivesse tanta dificuldade contra Andreas Seppi. Não começou bem o jogo, depois reagiu e poderia ter fechado bem antes tanto o segundo como o terceiro sets. O italiano ainda teve set-point e liderou o tiebreak do terceiro set e aí se deve elogiar o sangue frio de Wawrinka.

Tsonga também sofreu no primeiro set diante do ascendente Daniel Evans, demorou para calibrar as devoluções mas daí em diante pouca chance deu ao britânico. Vem trabalhando bem com o primeiro saque ao longo do torneio e está consistente nos voleios, ainda que eu sempre ache que ele deveria tentar ir mais à rede. Cometeu apenas 29 erros nos quatro sets contra Evans, um índice expressivo para seu estilo.

A derrota precoce de Angelique Kerber também pode ser muito bem creditada às novas condições de Melbourne, que casam muito melhor com a força e o risco que CoCo Vandeweghe adota. Mas o fato é que a alemã veio tropeçando desde a primeira semana do ano sem mostrar sombra do tênis vistoso que vimos ao longo de 2016. Provavelmente, a defesa inédita do título e da liderança tenha pesado ainda mais em Melbourne.

O resultado disso são quartas de final malucas na parte de cima da chave. Coco vai enfrentar Garbine Muguruza em jogo que pode acontecer qualquer coisa e a veteraníssima Venus Williams ganha incrivelmente o direito de sonhar com uma nova final de Grand Slam, o que não acontece desde 2009, ainda que tenha a perigosa e também ofensiva Anastasia Pavlyuchenkova pela frente.

Completando as quartas
– Raonic é agora o mais alto cabeça vivo em Melbourne. Enfrenta Bautista, que só tirou um set dele em quatro duelos. O espanhol nunca passou das oitavas de um Slam em seis tentativas.
– Nadal tem o favoritismo natural contra Monfils, já que o francês só ganhou 2 dos 12 duelos e perdeu quatro seguidas desde 2014, incluindo uma derrota fulminante na Austrália desse ano em que só ganhou seis games. Além do mais, nunca bateu um top 10 em Melbourne.
– Espanhol busca 9ª presença nas quartas da Austrália e a 30º em Slam. Perdeu todos os últimos quatro duelos contra top 10 e não derrota um adversário desse nível em Grand Slam desde a final de Roland Garros de 2014.
– Istomin tenta estender seu sonho de verão contra Dimitrov e assim se tornar apenas o segundo convidado a ir tão longe no torneio desde Tomas Smid, em 1983. Só houve um duelo entre eles, com vitória de Dimitrov em 2014.
– Thiem e Goffin fazem duelo imprevisível. Goffin tem 4-3 nos duelos, mas Thiem leva 3-1 nos mais recentes. No ano passado, belga ganhou na Austrália e austríaco, em Paris. Na quadra dura, 2-1 para Goffin. Vale lembrar que Thiem já andou sentindo dores no ombro direito na última partida.
– Serena é favorita natural contra Strycova, embora as duas não se enfrentem há cinco anos. Será a primeira adversária dentro do top 50 da americana até aqui. Strycova na verdade é 16ª, tendo vitórias sobre Sharapova, Kerber e Muguruza.
– Pliskova e Gavrilova vêm de jogos duros. Australiana tem torcida e muita competência em distribuir a bola. Perdeu fácil os dois duelos já feitos contra tcheca.
– Konta ganhou as três contra Makarova e agora é esperança britânica na Austrália, onde curiosamente nasceu. Lucic e Brady fazem duelo inesperado. A americana veio do quali e é 116º. Lucic, de 34 anos, não ganhava jogo na Austrália desde 1998.

Sinal de alerta
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2017 às 12:08

Um número 1 machucado? Um supercampeão rebaixado? A campeã desgastada? O futuro jogado no lixo? A rodada desta quarta-feira do Australian Open gera uma série de alertas para agora e para o futuro.

Andy Murray fez uma apresentação irretocável, usando todos seus recursos como sempre gosta de fazer para atordoar os novatos, mas eis que um lance bobo pode tirar seu sono. Ele torceu o pé direito no começo do terceiro set, algo que não o impediu de completar a vitória sobre Andrey Rublev, mas que pode mudar de figura quando o corpo esfriar. Ainda mais que o adversário seguinte, Sam Querrey, é do tipo que exige máxima competência na defesa.

Apesar da vitória em três sets, Roger Federer não teve uma apresentação convincente diante do top 200 Noah Rubin e mostrou certa e natural dificuldade diante de um adversário de base consistente. Agora vem Tomas Berdych, cujas qualidades no saque e nos golpes de fundo são muito superiores do garoto americano. Federer vai ter de jogar melhor e não vacilar no serviço. Se perder, deixará o top 30 pela primeira vez desde outubro de 2000.

Há também evidente pressão em cima de Angelique Kerber, a aniversariante do dia. Nos dois jogos em que tinha todo o favoritismo, a alemã variou demais, perdeu a paciência e precisou correr muito além do necessário. Ainda não dá para dizer que corra riscos reais de derrota, porém a confiança pode diminuir na hora dos jogos realmente importantes.

Quem está definitivamente no sinal amarelo máximo é Nick Kyrgios. Não porque tenha levado uma virada e sido eliminado, mas pelo descontrole emocional inexplicável a partir da quebra sofrida no final do terceiro set. Entrou no buraco e deveria ter perdido muito antes de ter o direito a um match-point, muito bem jogado por Andreas Seppi. Pior ainda, vai para as entrevistas armado de mau humor e respostas afiadas, provocando todo mundo. Admitiu ter feito pré-temporada desleixada e que precisa de um treinador. Cada semana que passa, cada derrota sofrida só aumentam o descrédito.

Os destaques positivos da rodada masculina foram Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga. O campeão de 2014 disparou tiro por todos os lados e tem tudo para superar um Viktor Troicki que já fez 10 sets. Ainda por cima, se livrou de Kyrgios e pode ter Seppi ou Steve Darcis nas oitavas. Tsonga mostrou um tênis exuberante, agressivo, cirúrgico. Gosta mesmo de jogar na Austrália e o piso mais veloz cai como uma luva. Precisa tomar cuidado com Jack Sock. Quem passar terá Bernard Tomic ou o surpreendente Daniel Evans, que virou em cima de Maric Cilic, o primeiro top 10 a se despedir.

No feminino, agora já são nove das 16 cabeças do lado inferior da chave eliminadas ainda na segunda rodada. Kuznetsova, Jankovic e Venus são as veteranas que concorrem a uma semi. A campeã olímpica Puig parou no vigor da qualificada Mona Barthel e Garbine Muguruza ganhou mas confessou não estar com o físico em dia.

Curtas
– Não foi apenas Kyrgios quem levou virada e perdeu match-point. John Isner viveu script idêntico contra Mischa Zverev, em jogo de três tiebreaks e 9/7 no quinto set. O irmão mais velho de Alexander não ia tão longe num Slam desde Wimbledon de 2008.
– Fato curioso, Mischa admitiu depois que nem sabia que era match-point: “Estava 5/4 mas eu pensei que era 4/3″.
– Cilic garante que não conseguiu se preparar bem para 2017 por causa da decisão da Copa Davis, no final de novembro, e assim já coloca em dúvida sua presença no torneio por equipes. Foi exatamente esse motivo que determinou a ausência de Juan Martin del Potro em Melbourne.
– Murray atingiu a 178ª vitória de Slam na carreira e igualou o fenomenal Stefan Edberg. Está em oitavo lugar e terá de remar muito para ser o 7º homem a atingir 200 triunfos na Era Profissional.
– Aos 36 anos e fora do top 100, Victor Estrella pode ter feito seu 12º e último Slam. Daí deixar a quadra em lágrimas. Do alto de seu 1,73m, foi gigante e deu trabalho enorme a Tomic. O dominicano joga com alegria e isso faz falta no circuito.
– Nesta quinta, Djokovic é superfavorito diante de Istomin, 117º do ranking. A única derrota de Nole para um adversário fora do top 100 nos últimos sete anos foi aquela para Delpo no Rio.
– Nadal só perdeu 1 de 9 duelos contra Baghdatis (em 2010).
– Três bons jogos da nova geração marcam a programação: Thiem-Thompson, Zverev-Tiafoe e Dimitrov-Chung.
– Serena ganhou todos os 9 duelos contra Safarova, a rainha das viradas, o mais recente deles na final de Roland Garros de 2015.
– Rogerinho Silva tenta dois feitos inéditos: chegar na terceira fase de um Slam e entrar para o top 80 do ranking. O adversário é o incansável Gilles Simon. Jogo previsto para 23h30.
– É consenso entre os tenistas que o piso está mais rápido e que há grande diferença entre jogar de dia ou de noite neste AusOpen. Felizmente, o calor forte foi embora – na sexta-feira a máxima será de 20 graus – e só deve voltar no domingo.