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Nadal contra o backhand de uma mão
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2017 às 11:13

Promessa cumprida, o Rafael Nadal 2017 é mesmo outro. Saque afiado que permite o ataque constante logo na segunda bola e devolução mais perto da linha que tira o tempo do sacador se juntam à costumeira habilidade de contraatacar e ao conhecido preparo físico excepcional que o permite jamais desistir dos pontos. Toda essa receita funcionou muito bem diante de Milos Raonic e recoloca Nadal na semi de um Grand Slam depois de duas temporadas frustrantes.

Apenas os backhands de uma mão o separam agora do 15º troféu de Slam e da façanha única de ter dois títulos em cada um dos grandes torneios. Primeiro, vem o búlgaro Grigor Dimitrov, que encerrou a freguesia em Pequim do ano passado depois de perder sete vezes seguidas. Se passar, pega então os experientes: Stan Wawrinka ou Roger Federer. Nos dois casos, também tem largo histórico favorável.

Na sua luta para voltar à melhor forma, Nadal vem quebrando jejuns incômodos e isso certamente vai influenciando na confiança crescente. Venceu enfim um quinto set após três derrotas seguidas contra Zverev, bateu um top 10 após quatro frustrações e retornou às quartas, o que não acontecia desde Roland Garros de 2014, frente a Monfils.

Com tudo isso, usou um plano tático perfeito diante de Raonic. Fez o saque voltar sempre, muitas vezes com devoluções arriscadas e um backhand muito seguro, e o canadense foi colecionando erros. Raonic deveria ter levado o segundo set, mas não mereceu porque faltou o elemento essencial dos gigantes: a coragem. Falhou no 4/5 com um forehand no meio da quadra que preferiu só jogar do outro lado, entregou o mais terrível deles com dupla falta no tiebreak. Estatística essencial mostrou que Nadal ganhou 83% dos pontos em que acertou o primeiro saque diante de 68% do adversário. Não deveria ser o contrário?

Nadal é assim o terceiro ‘trintão’ nestas semifinais, algo que só aconteceu uma vez em toda a Era Profissional, justamente no primeiro deles, em Roland Garros de 1968.

Dimitrov tem chance contra Nadal? Sim, mas terá de jogar ainda mais do que fez diante de David Goffin, onde foi muito agressivo, com bons golpes da base, ótima transição à rede e firmeza no saque. Precisará se lembrar de tudo que fez tão direitinho três meses atrás quando bateu o ‘velho Rafa’ num piso que era um pouco mais lento do que o de agora.

O búlgaro é mais consistente no fundo do que Raonic e depende menos do saque, mas também tem a instabilidade emocional como maior barreira. Vai pesar certamente o fato de fazer apenas sua segunda semifinal desse nível, mas Dimitrov também está correndo atrás da recuperação na carreira e evoluiu muito nos últimos tempos. Se vencer, volta ao top 10.

A última vez que um Grand Slam viu três semifinalistas com backhand de uma mão foi lá mesmo em Melbourne, na edição de 2007, com Federer, Fernando González e Tommy Haas.

Quanta emoção
Talvez o momento mais tocante desde Australian Open até agora tenha sido a emocionada reação de Mirjana Lucic ao se classificar para a semifinal em cima de Karolina Pliskova, marcando uma volta à glória depois de 18 anos e uma longa história de superação. Aliás, foi essa incrível vontade que mostrou nos games finais. Atendida no vestiário com 3/4 no terceiro set, voltou e ganhou 12 dos 14 pontos seguintes com um tênis agressivo e preciso.

Claro que é bem difícil imaginar que ela tenha chances diante de Serena Williams, desde que Serena jogue no padrão que a levou a tremenda vitória em cima de Johanna Konta. Sacou muito, bateu demais na bola, colocou pressão o tempo todo. Um volume de jogo sufocante. Lucic joga também em cima da linha, golpeia tudo na subida e tem notável garra. mas ela mesma confessa estar no limite da condição física.

As duas semifinais já acontecem na madrugada desta quinta-feira e a expectativa é grande. Podemos ter uma nova decisão de Slam entre as Williams depois de oito anos ou uma nova finalista se Coco Vandeweghe mantiver seu incrível embalo em cima de Venus. Em seguida, entram Serena e Lucic, a semi com maior soma de idade da Era Aberta. Note-se que três das semifinalistas estão cima dos 34 anos, a mais alta média da fase profissional.

Quinta-feira quente
Além das duas semifinais femininas, que acontecem a partir de 1h, a quinta-feira tem o imperdível duelo suíço entre Stan Wawrinka e Roger Federer, às 6h30. Se o número 4 do ranking está em melhor ritmo de competição e tem feito um torneio bem consistente depois da estreia tensa, Federer tem vantagem de 18-3 nos duelos diretos, com derrotas apenas no saibro. São 5-1 para Roger nos Slam e 13-0 nas quadras duras, com apenas quatro sets perdidos.

Dois multicampeões de Grand Slam, o que não faltam são feitos e números. Federer busca a 28ª final e sonha com o 18º título de Slam, enquanto Stan tenta a quarta final com a notável façanha de ter vencido todas as três.

Eles têm números parecidos em cinco sets (25-20 Federer e 25-19 Stan) e nem mesmo ganhar dois pode ser garantia, já que Roger já obteve 10 viradas e Wawrinka, 6. A estatística de tiebreaks favorece Federer: 396-216, bem superior a 186-172 do amigo.

Caso atinja a final, Federer torcerá por Dimitrov (5-0), já que tem saldo negativo contra Rafa (11-23). Wawrinka está atrás dos dois: 3-15 para o espanhol e 2-4 para o búlgaro. Federer e Nadal decidiram Melbourne em 2009, Stan e Nadal fizeram a final de 2014.

Aos 35 anos, Federer por fim pode ser o mais velho tenista a atingir uma final de Grand Slam desde Ken Rosewall, no US Open de 1974, quando tinha 39. Ao mesmo tempo, tenta vencer primeira semi na Austrália desde 2010, tendo perdido cinco em seis anos desde então. De suas 13 derrotas em semi de Slam, nada menos que sete foram em Melbourne.

Chocolate suíço
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2017 às 12:14

Contra toda a expectativa possível no início deste Australian Open, a primeira semifinal masculina será totalmente suíça. Se Stan Wawrinka manteve seu favoritismo, Roger Federer jogou mais do que o previsto e ainda viu a chave se abrir com a queda de Andy Murray. Está mesmo dando tudo certo para ele, porque talvez poucos jogadores tops respeitem tanto Federer como Wawrinka.

Este será o 22º duelo em que a contagem é incrivelmente favorável a Roger. Suas únicas três derrotas foram sobre o saibro. Em seis confrontos de nível Grand Slam, ganhou cinco. É a terceira vez que chegam juntos à semi de Slam. A primeira foi na Austrália de 2014, em que Wawrinka foi campeão e Federer parou na semi para Rafa Nadal, e a outra no US Open de 2015, mas aí foi um jogo direto e Federer estava voando.

Wawrinka faz um grande torneio até aqui. Começou como sempre mais lento e levou sufoco de Martin Klizan na estreia, mas daí em diante se adaptou muito bem ao piso mais veloz que geralmente lhe traz problemas com o backhand e a devolução bloqueada. Eu não esperava uma vitória em sets diretos em cima de Jo-Wilfried Tsonga, que a rigor só teve chance no segundo set, quando obteve uma quebra e não segurou a vantagem.

Mesmo com as condições tão favoráveis ao francês – jogaram em pleno sol da tarde e ainda com um pouco de vento -, foi duro romper a solidez de Wawrinka nos golpes de base a ponto de Tsonga ter evidente dificuldade para controlar muitos dos voleios que tentou. Esperto, o suíço começou os pontos de devolução bem atrás da linha e explorou o backhand inconstante do adversário com ótima transição para a rede.

Federer por sua vez justificou seu amplo favoritismo diante do canhoto Mischa Zverev e, embora tenha perdido um game de serviço e ficado atrás 1/3 no segundo set, jamais correu qualquer risco. Zverev entrou um tanto assustado, sem potência no saque e duro de pernas nos voleios, e só foi se soltar no segundo set, quando mudou tudo e passou a sacar no corpo do suíço, o que facilitou a chegada à rede.

Obviamente que todo o empenho e habilidade de Zverev eram pouco para Federer, que mostrou grande capacidade de colocar as devoluções baixas e enorme destreza nas passadas por todos os cantos imagináveis, incluindo dois lobs num único ponto. Vindo de cinco sets exigentes contra Kei Nishikori, uma vitória de 1h32 e mínimo desgaste não poderia ser mais perfeita para Roger.

Semi americana
Enquanto o mundo do tênis já projeta um possível ‘revival’ numa decisão entre Federer e Nadal, a chance de as irmãs Williams voltarem a decidir um Grand Slam também cresce. A última vez que as duas irmãs foram a uma final desse porte foi em 2009, só que em Wimbledon.

Venus é mais uma que se beneficia claramente das novas condições do Australian Open, já que adora um jogo veloz. Nem fez uma grande exibição, mas contou com um dia de extrema irregularidade da russa Anastasia Pavlyuchenkova, que liderou os dois sets por duas vezes e não conseguiu segurar os nervos. Assim, aos 36 anos, Venus volta a disputar a semi na Austrália depois de 14 edições. Sua única final foi em 2003.

Para isso, terá de passar pela embaladíssima CoCo Vandeweghe, autêntico duelo de gerações. Onze anos mais jovem e com 1,85m, a menina de Nova York tem um saque genuinamente masculino em toda sua movimentação e essa é uma arma que explora com competência. Ganhou 88% desses pontos diante de Garbiñe Muguruza. Foi o segundo massacre em cima de uma tenista de ponta, já que cedeu apenas cinco games à líder Angelique Kerber.

Será portanto um duelo a ser decidido entre quem sacar ou devolver melhor. As duas só duelaram uma vez, mas se conhecem muito bem. Na entrevista em quadra, CoCo lembrou que Venus foi uma inspiração da adolescência e contou que tem até um autógrafo.

Fechando as semifinais
– Raonic venceu Nadal em dois de seus três duelos oficiais mais recentes. Duas de suas três vitórias sobre adversários top 10 em eventos de Grand Slam vieram na Austrália.
– Se Nadal vencer, o AusOpen verá três jogadores com mais de 30 na semi. Isso não acontece desde o primeiro Slam da Era Profissional, ou seja, Roland Garros de 1968.
– Tiebreaks são especialidade de Raonic, mas Nadal tem números expressivos: ganhou 200 de 332, enquanto o canadense venceu 165 de 268.
– Dimitrov vem de 9 vitórias seguidas desde o título em Brisbane e nunca perdeu para Goffin em quatro duelos (dois futures, um challenger e o US Open de 2014).
– Os dois também fazem luta direta por vaga no top 10. Goffin está em vantagem, já que Dimitrov precisa chegar à final para saltar até lá.
– Serena nunca enfrentou Konta, que tenta chegar pelo segundo ano seguido na semi da Austrália. Em 46 vezes em que atingir as quartas de um Slam, Serena só perdeu 13 vezes.
– Lucic também só tem uma semi de Slam, obtida em Wimbledon de 1999. Ela não enfrenta Pliskova desde 2015, mas o placar geral é apertado: 3 a 2 para a tcheca.
– Pliskova pode tirar o segundo lugar do ranking de Serena, caso seja campeã. A americana busca recuperar o número 1, mas precisa do título.

Segurem o Touro
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2017 às 15:12

Havia uma barreira emocional importante para Rafael Nadal no duelo contra Gael Monfils: voltar às quartas de final de um Grand Slam depois de seis frustrações. Talvez por isso não tenha sido seu melhor jogo deste Australian Open, inferior em tudo à exibição diante de Alexander Zverev, mas ele soube segurar a cabeça nos momentos delicados e chegou lá. Agora, segurem o Touro Miúra.

Incrível como Monfils não consegue render contra os grandes. Sempre escapa alguma coisa. Me dá a impressão que não existe um plano claro de jogo e ele aí fica ali, fazendo o que sabe de melhor: improvisar. Diante de um tenista tão experiente e regular como Rafa, é quase suicídio. O espanhol foi soberano por dois sets e tinha tudo para simplificar no terceiro. Falhou então feio no saque e por pouco não complica sua vida, uma vez que Monfils então decidiu atacar e teve quebra na frente para levar também o quarto set. Quando entrou o quesito mental em quadra, acabou a festa.

Milos Raonic será o próximo desafio de Nadal, sem favoritismos a meu ver. É bem verdade que, dos últimos três jogos oficiais, Raonic venceu dois, ambos de virada e com dificuldade em todos os sets. O motivo parece óbvio: Rafa castiga demais o backhand instável do canadense, que não tem pernas ágeis o bastante para ficar fugindo o tempo inteiro com seu ótimo forehand. Assim, sacar muito bem é o único caminho para Raonic manter o equilíbrio e buscar a vitória num momento bem oportuno.

Como eu imaginava, Raonic faz caminhada pouco chamativa mesmo sendo número 3 do ranking. E nos seus dois últimos jogos, diante de tenistas defensivos, teve trabalho mesmo com o piso mais veloz deste Australian Open. Contra Roberto Bautista, especialmente, foi bem duro. Saiu na frente do primeiro set, permitiu reação e chegou a estar atrás 4-0 e 5-1 no tiebreak. Depois, no terceiro set, precisou de grande esforço para evitar a quebra no 4/4. Daí eu achar que a tarefa contra Nadal pode ser bem complexa.

Quem vencer, terá pela frente David Goffin ou Grigor Dimitrov. Se o búlgaro era uma possibilidade, há uma certa surpresa com o bom desempenho do belga, ainda mais com as condições mais velozes em Melbourne. Para atingir sua segunda quartas de Slam – a outra foi em Paris no ano passado -, Goffin contou com a queda física e emocional de Dominic Thiem, que começou a cair de rendimento no final do segundo set e se perdeu completamente daí para a frente. Mais uma vez, o belga está com um pé no inédito top 10.

Dimitrov, por sua vez, vive seu primeiro grande momento desde o começo de 2015. E a prova evidente de que voltou a confiar em si mesmo foi a virada em cima de Denis Istomin, construída a partir da metade do segundo set, depois de salvar dois break-points que poderiam fazer o jogo ir embora. Têm mantido um percentual muito bom de primeiros serviços – 73% nos dois últimos jogos – e principalmente de pontos com ele, acima de 80%. Não por acaso, é outro tenista que se adapta bem às condições mais velozes.

No feminino, vimos uma atuação muito instável de Serena Williams, completamente diferente do que vinha mostrando. Entrou fria, insegura, apressada, errando tudo. Fosse Barbora Strycova uma tenista mais experiente, não sei se a cabeça 2 sairia vitoriosa. Claro que se repetir os 46 erros não forçados diante de Johanna Konta, a coisa vai complicar. A britânica de 1,80m faz tudo direitinho e foi semi em Melbourne no ano passado.

O maior perigo para Serena, no entanto, pode ser o reencontro com Karolina Pliskova na semi, o que seria a reedição do US Open do ano passado em que a tcheca jogou demais. Depois do susto da rodada anterior, em que esteve a um passo da derrota, Pliskova passou fácil por Daria Gavrilova, ainda que tenha feito mais erros do que winners (30 a 27, sendo 12 aces). É favorita natural contra a veterana Mirjana Lucic, mas deve tomar cuidado com a bola reta e contraataques inteligentes da croata de 34 anos.

Primeiros semifinalistas
– Wawrinka e Tsonga farão o quarto duelo em Slam, mas o primeiro fora de Roland Garros. Suíço lidera por 2-1 nesse quesito e por 4-3 no geral. Fato bem curioso é que apenas o primeiro confronto, em 2007, não foi no saibro. O francês fez sua última semi na Austrália em 2010.
– A última vez que Federer cruzou com Misha Zverev foi um sonoro 6/0 e 6/0 na grama de Halle, em 2013. A única vez que o suíço perdeu para um tenista fora do top 40 na Austrália foi em sua estreia, em 2000.
– Contando com as quatro deste AusOpen, Zverev tem apenas 9 vitórias em Grand Slam diante das 311 do recordista Federer. O suíço tem quase 1.000 vitórias a mais na carreira em torneios de primeira linha: 1.084 contra 86.
– Federer tenta ampliar suas marcas para 13 semis na Austrália e 41 em Grand Slam. Aos 35 anos e 174 dias, também será o mais velho a chegar na penúltima rodada de um Slam desde Connors no US Open de 91, aos 39 anos e seis dias.
– Três das quatro mulheres em quadra nesta terça-feira jogam as quartas da Austrália pela primeira vez. Venus é a a única que foi mais longe, com vice em 2003. Ela enfrenta Pavlyuchenkova, 11 anos mais jovem. A americana lidera por 3 a 2 nos duelos, mas não se cruzam desde 2014.
– Surpresa da chave, Vandeweghe ganhou 2 dos 3 jogos contra Muguruza, porém perdeu o mais recente, em Cincinnati do ano passado.