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Sinal de alerta
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2017 às 12:08

Um número 1 machucado? Um supercampeão rebaixado? A campeã desgastada? O futuro jogado no lixo? A rodada desta quarta-feira do Australian Open gera uma série de alertas para agora e para o futuro.

Andy Murray fez uma apresentação irretocável, usando todos seus recursos como sempre gosta de fazer para atordoar os novatos, mas eis que um lance bobo pode tirar seu sono. Ele torceu o pé direito no começo do terceiro set, algo que não o impediu de completar a vitória sobre Andrey Rublev, mas que pode mudar de figura quando o corpo esfriar. Ainda mais que o adversário seguinte, Sam Querrey, é do tipo que exige máxima competência na defesa.

Apesar da vitória em três sets, Roger Federer não teve uma apresentação convincente diante do top 200 Noah Rubin e mostrou certa e natural dificuldade diante de um adversário de base consistente. Agora vem Tomas Berdych, cujas qualidades no saque e nos golpes de fundo são muito superiores do garoto americano. Federer vai ter de jogar melhor e não vacilar no serviço. Se perder, deixará o top 30 pela primeira vez desde outubro de 2000.

Há também evidente pressão em cima de Angelique Kerber, a aniversariante do dia. Nos dois jogos em que tinha todo o favoritismo, a alemã variou demais, perdeu a paciência e precisou correr muito além do necessário. Ainda não dá para dizer que corra riscos reais de derrota, porém a confiança pode diminuir na hora dos jogos realmente importantes.

Quem está definitivamente no sinal amarelo máximo é Nick Kyrgios. Não porque tenha levado uma virada e sido eliminado, mas pelo descontrole emocional inexplicável a partir da quebra sofrida no final do terceiro set. Entrou no buraco e deveria ter perdido muito antes de ter o direito a um match-point, muito bem jogado por Andreas Seppi. Pior ainda, vai para as entrevistas armado de mau humor e respostas afiadas, provocando todo mundo. Admitiu ter feito pré-temporada desleixada e que precisa de um treinador. Cada semana que passa, cada derrota sofrida só aumentam o descrédito.

Os destaques positivos da rodada masculina foram Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga. O campeão de 2014 disparou tiro por todos os lados e tem tudo para superar um Viktor Troicki que já fez 10 sets. Ainda por cima, se livrou de Kyrgios e pode ter Seppi ou Steve Darcis nas oitavas. Tsonga mostrou um tênis exuberante, agressivo, cirúrgico. Gosta mesmo de jogar na Austrália e o piso mais veloz cai como uma luva. Precisa tomar cuidado com Jack Sock. Quem passar terá Bernard Tomic ou o surpreendente Daniel Evans, que virou em cima de Maric Cilic, o primeiro top 10 a se despedir.

No feminino, agora já são nove das 16 cabeças do lado inferior da chave eliminadas ainda na segunda rodada. Kuznetsova, Jankovic e Venus são as veteranas que concorrem a uma semi. A campeã olímpica Puig parou no vigor da qualificada Mona Barthel e Garbine Muguruza ganhou mas confessou não estar com o físico em dia.

Curtas
– Não foi apenas Kyrgios quem levou virada e perdeu match-point. John Isner viveu script idêntico contra Mischa Zverev, em jogo de três tiebreaks e 9/7 no quinto set. O irmão mais velho de Alexander não ia tão longe num Slam desde Wimbledon de 2008.
– Fato curioso, Mischa admitiu depois que nem sabia que era match-point: “Estava 5/4 mas eu pensei que era 4/3″.
– Cilic garante que não conseguiu se preparar bem para 2017 por causa da decisão da Copa Davis, no final de novembro, e assim já coloca em dúvida sua presença no torneio por equipes. Foi exatamente esse motivo que determinou a ausência de Juan Martin del Potro em Melbourne.
– Murray atingiu a 178ª vitória de Slam na carreira e igualou o fenomenal Stefan Edberg. Está em oitavo lugar e terá de remar muito para ser o 7º homem a atingir 200 triunfos na Era Profissional.
– Aos 36 anos e fora do top 100, Victor Estrella pode ter feito seu 12º e último Slam. Daí deixar a quadra em lágrimas. Do alto de seu 1,73m, foi gigante e deu trabalho enorme a Tomic. O dominicano joga com alegria e isso faz falta no circuito.
– Nesta quinta, Djokovic é superfavorito diante de Istomin, 117º do ranking. A única derrota de Nole para um adversário fora do top 100 nos últimos sete anos foi aquela para Delpo no Rio.
– Nadal só perdeu 1 de 9 duelos contra Baghdatis (em 2010).
– Três bons jogos da nova geração marcam a programação: Thiem-Thompson, Zverev-Tiafoe e Dimitrov-Chung.
– Serena ganhou todos os 9 duelos contra Safarova, a rainha das viradas, o mais recente deles na final de Roland Garros de 2015.
– Rogerinho Silva tenta dois feitos inéditos: chegar na terceira fase de um Slam e entrar para o top 80 do ranking. O adversário é o incansável Gilles Simon. Jogo previsto para 23h30.
– É consenso entre os tenistas que o piso está mais rápido e que há grande diferença entre jogar de dia ou de noite neste AusOpen. Felizmente, o calor forte foi embora – na sexta-feira a máxima será de 20 graus – e só deve voltar no domingo.

Justiça tarda, mas não falha
Por José Nilton Dalcim
27 de novembro de 2016 às 19:53

Demorou, foi incrivelmente sofrido, mas a Argentina enfim levantou a Copa Davis. Se existe um país que merecia essa glória, são nossos hermanos. Não apenas pela qualidade de gerações e gerações que marca sua trajetória nas quadras, mas acima de tudo por sua paixão pelo tênis e o coração que colocam a cada bola rebatida.

Aliás, perseverança e espírito de superação foram exatamente o que tiveram nesta duríssima final contra a Croácia. Fora de casa – aliás, todos os quatro duelos foram como visitantes na campanha deste ano -, com placar desvantajoso desde o primeiro jogo, estiveram a apenas um set para engolir mais uma desilusão.

Como sempre, jamais desistiram. O gigante Juan Martin del Potro não se entregou. Ele havia estado em outras duas decisões. A dolorosa derrota em casa para a Espanha, em 2008, em Buenos Aires, quando perdeu para Feliciano López, deixou claro o atrito interno na equipe. Em 2011, mais difícil, teve de ir à Espanha e foi batido tanto por David Ferrer como por Rafa Nadal.

Delpo estava afastado do time desde 2012 por desentendimentos com a federação e rixa com o grupo, especialmente David Nalbandian. Só retornou em julho deste ano na dupla contra a Itália porque precisava cumprir o regulamento dos Jogos Olímpicos. Marcou o ponto e virou referência do time. Foi essencial na vitória sobre os britânicos, superando Andy Murray diante dos escoceses.

O desempenho em Zagreb fechou um ano incrivelmente emocionante para Delpo. Ele, que não atuava desde Estocolmo, marcou um ponto de empate duro contra Ivo Karlovic na sexta-feira, não se saiu bem na dupla de sábado e foi dominado por Marin Cilic no jogo decisivo de domingo cedo. Mas aí achou forças. Começou a jogar cada vez melhor, mexeu as pernas para disparar forehands, teve paciência para esperar as falhas de Cilic no saque e conseguiu uma virada de arrancar lágrimas.

Entregou a decisão para o canhoto Federico Delbonis, que fez um jogo impecável a partir da metade do primeiro set diante de Karlovic, que dinossauricamente praticava seu saque-voleio cada vez mais desconfortável. Nota 10 para a tranquilidade de Delbonis, que, lembremos, já havia marcado o ponto decisivo em julho contra Fabio Fognini.

A invasão da torcida argentina, onde se incluiu um empolgadíssimo Dom Diego Maradona, completou um final de semana inesquecível. Sofrido, como sempre foi para os argentinos, mas que coroa um currículo invejável, principalmente em termos de tênis latino-americano. Nada menos que 11 nomes já figuraram no top 10, desde Guillermo Vilas, o pioneiro em 1974, passando por Jose-Luis Clerc, Alberto Mancini, Martin Jaite, Guillermo Coria, Gastón Gaudio, Guillermo Cañas, David Nalbandian, Mariano Puerta, Delpo e Juan Mónaco, sem falar em Gabriela Sabatini.

Para se fazer definitivamente a justiça com eles, só falta mesmo a ATP reconhecer seu erro e dar a Vilas o número 1 do mundo ao final de 1977, temporada em que ganhou nada menos do que 16 torneios, entre eles Roland Garros e US Open.

O incansável Murray surpreende
Por José Nilton Dalcim
18 de novembro de 2016 às 20:17

A vaga na semifinal era algo merecido e previsível, mas Andy Murray surpreendeu ao manter a cabeça no lugar e as pernas em ação e derrotar Stan Wawrinka numa partida que só foi equilibrada até o escocês obter a quebra no sétimo game. Até então, o suíço fazia uma bela partida, agressivo e preciso. Depois, sentiu o baque e foi dominado, dando adeus ao Finals e ao número 3 do ranking.

O preparo físico de Murray é algo monstruoso. Vindo de uma incrível sequência de partidas desde as Olimpíadas, muitas delas duríssimas e tensas, e ainda da maratona de 3h20 frente a Nishikori na quarta-feira, ele não deu o menor sinal de cansaço diante de Wawrinka. Pelo contrário, buscou as habituais bolas difíceis. Mas teve a atitude que tanto cobro dele: postura agressiva. Foi à rede desde o primeiro game, forçou mais o backhand, atacou a devolução como não vinha fazendo. Esse Murray pode até errar mais, porque é óbvio que o fará, mas se torna um tenista muito mais agradável de assistir.

Dessa forma, as semifinais ficam confirmadas com o que vimos de melhor na fase de grupos: Murray contra Milos Raonic e Novak Djokovic frente a Kei Nishikori. De todos eles, o único que já foi à decisão do Finals – e se encheu de títulos – é Nole. Daí que não se pode tirar dele a condição de favorito ao penta na arena O2 e ao hexa no nobre torneio.

Qual a chance de não termos o duelo direto pelo número 1 do ranking entre Murray e Djokovic no domingo? Me parece muito pequena. Os dois têm retrospecto muito superior aos adversários. Raonic só ganhou três de 11 duelos com Murray, tendo perdido os sete mais recentes, embora tenha endurecido no Australian Open, quando estava embaladíssimo, e em Queen’s, onde ganhou o primeiro set. Outro fator é que Murray se desgastou pouco nesta sexta-feira e Raonic vai evitar ao máximo os ralis.

Djoko também é claramente superior a Nishikori em todos os quesitos, dos quais o saque tem um peso decisivo. O histórico é de 10 a 2, sendo nove consecutivos desde que o japonês causou aquela ‘zebra’ na semi do US Open de 2014. Para complicar ainda mais sua vida, Nishikori precisou jogar mais três sets contra Marin Cilic nesta sexta-feira, perdeu de virada e todo mundo conhece a ficha corrida de seus problemas físicos.

Bruno embolsa primeiro número 1
Não tem a mesma pompa do ranking individual de duplas, mas terminar a temporada como principal parceria é um feito para ser comemorado. Bruno Soares e o escocês Jamie Murray foram mesmo o destaque de 2016, obtendo incrível sucesso em tão pouco tempo de trabalho conjunto. O lugar ficou garantido por antecipação com a terceira derrota consecutiva de Nicolas Mahut e Pierre Herbert.

Motivação é o que não falta aos dois, que tentam coroar seus dois troféus de Grand Slam com o título do Finals. Se para Jamie isso vale a festa dentro de casa, para Bruno é a chance de repetir Marcelo Melo e também aparecer como número 1 do ranking. A semi deste sábado não assusta: embora bons duplistas, Raven Klassen/Rajeev Ram estão um degrau abaixo. A outra vaga está entre os irmãos Bryan e o ascendente dueto de Henri Kontinen/John Peers. Curioso observar que Peers era o parceiro que Jamie abandonou para jogar com Bruno.

Novo 3º do ranking
Com baixo desempenho desde o título do US Open, Wawrinka deixou escapar a chance de fechar pela primeira vez uma temporada entre os três primeiros do ranking, como já havia acontecido em 2014 e 2015, quando ficou em quarto.

Seu posto será ocupado por um inédito jogador. O posto está por enquanto com Raonic, mas Nishikori também ameaça desde que seja campeão em Londres, uma tarefa convenhamos um tanto difícil nesta altura.

Cilic, por sua vez, enfim ganhou uma no Finals – havia perdido todas as cinco – e como prêmio terá o melhor ranking da carreira, substituindo Gael Monfils no sexto lugar.