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Festa e lágrimas
Por José Nilton Dalcim
9 de junho de 2016 às 10:59

O tênis viveu momentos antagônicos nestas últimas 24 horas. Enquanto Roger Federer deu a alegria de volta vitoriosa ao circuito, com direito a novos feitos históricos, Maria Sharapova foi afastada das quadras até fevereiro de 2018 com uma das mais severas penas do doping no esporte das raquetes.

Vamos começar pelas boas notícias.

Federer acaba de marcar mais três façanhas. Todas notáveis. Igualou as 1.071 vitórias de Ivan Lendl na Era Profissional e amanhã, ao entrar em quadra contra Florian Mayer, também alcançará os 1.314 jogos do inesquecível tcheco. São marcas, claro, que deverão acabar superadas ao longo desta temporada, porém ainda praticamente impossíveis de chegar nos recordes de Jimmy Connors (1.256 vitórias em 1.535 partidas).

Federer ao mesmo tempo se tornou hoje o tenista com maior número de vitórias em quadras abertas da Era Profissional, com 807, superando o argentino Guillermo Vilas. Atrás vêm Connors, com 787, e Lendl, com 727. O quinto lugar é de Rafa Nadal, com 721, e assim com chance de brigar em 2017. Novak Djokovic é o sétimo, com 603. (Em quadras fechadas, Connors chegou a 469 e Federer está em sétimo, com 264).

O suíço divide com Connors e Pete Sampras todos os grandes números das quadras de grama. É o recordista de títulos (15, contra 10 de Pete) e de percentual de vitórias (87,7%, ou seja 143 em 163 possíveis). ‘Jimbo’ é quem mais ganhou, com 170. Claro que Federer tem de ser considerado o maior de todos sobre a grama porque tem sete troféus em 10 finais de Wimbledon e a incrível série de 65 partidas invictas, entre 2003 e 2008.

Vale dizer que o jogo contra Taylor Fritz foi apertadíssimo. O suíço mostrou a inevitável falta de ritmo especialmente na base, salvando-se no terceiro set com o saque. O americano de 18 anos é de um potencial assustador e pode aprontar até mesmo sobre a grama, um piso certamente desconhecido para ele. Roger pega agora Florian Mayer e é bem possível cruzar com Dominic Thiem na semi de sábado. Bem interessante.

A dor de Maria
Confesso ter me surpreendido com os dois anos de suspensão anunciados pelo Comitê de Integridade do Tênis no caso do meldonium de Sharapova. Isso significa duas coisas importantes: não houve dúvida por parte do tribunal quanto ao uso da substância para melhoria atlética e não vieram os temidos ‘panos quentes’ por se tratar de figura tão popular e influente no esporte e nos negócios.

Maria vai recorrer, é seu direto, até porque há controvérsias. O extenso julgamento admite que a jogadora não conhecia o uso contínuo do medicamento, provavelmente porque seu pai e seu empresário esconderam isso. Caso contrário a penalização subiria para quatro anos.

No entanto, e aí preciso concordar com o tribunal, não se pode admitir que uma empresa do tamanho da IMG desconheça a lista atualizada dos medicamentos proibidos, que aliás foi divulgada em 29 de setembro, três meses antes de se banir o meldonium. Sem falar que já era de conhecimento do meio esportivo há algum tempo que haveria sanções à substância por trazer benefícios artificiais.

O tênis evita assim cair na armadilha do futebol, onde a culpa do atleta sempre recai para o clube, para o departamento médico. O esporte é um todo e precisa ser penalizado como um todo. A bola passa agora para o Conselho de Arbitragem, que já reduziu pela metade as penas de Cilic e Troicki.

Mais um
Por falar em grandes marcas alcançadas, parabéns também a David Ferrer, que se tornou hoje apenas o 10º profissional a atingir a marca de 1.000 partidas disputadas. Além de Connors, Lendl e Federer, também estão lá Vilas, Agassi, Nastase, McEnroe, Edberg e Gottfried.

O novo ‘quinto Slam’ dá a largada
Por José Nilton Dalcim
10 de março de 2016 às 14:21

Ainda que as cabeças dos tenistas esteja muito mais em cima da bomba causada pelo anúncio do doping de Maria Sharapova, o quinto mais badalado torneio do circuito deu a largada ontem com a chave feminina e hoje já coloca em quadra muita gente interessante da chave masculina. Os top 35, incluindo Thomaz Bellucci, só começam a jogar no sábado.

Indian Wells tem sido eleito repetidamente como o melhor dos Masters 1000, o que derrubou aquele antigo chavão de que Miami era o ‘quinto Grand Slam’. Agora, ele pertence ao deserto californiano. A premiação em si, beirando os US$ 14 milhões no acúmulo dos sexos, já é muito superior à de Miami, além de a organização ser considerada exemplar e o público ter enorme espaço para circular e opções para se divertir. Em 2016, oito das nove quadras terão transmissão de imagens, ou seja, todos os jogos envolvendo favoritos serão mostrados.

No masculino, atenções claro em cima de Novak Djokovic, que já ganhou ali quatro vezes e detém os dois mais recentes troféus. O número 1 sofreu aquele revés inesperado em Dubai, perdendo a sequência de finais e títulos, e ainda viveu um fim de semana difícil na Copa Davis, porém até o sorteio da chave reforça seu favoritismo. Philipp Kohlschreiber, Feliciano López ou Roberto Bautista dificilmente darão trabalho até as quartas. Aí pode dar Dominic Thiem, e seria bem interessante ver como se sai o melhor representante da nova geração num piso em que ainda não fica totalmente à vontade.

Kei Nishikori e John Isner ficaram nesse lado superior, onde também está a incógnita Rafael Nadal. O canhoto espanhol tem três troféus em Indian Wells, o mais recente em 2013, porém a desconfiança sobre seu jogo continua. Dois canhotos assanhados estão no caminho: Gilles Muller e Martin Klizan. Depois, Gilles Simon ou Grigor Dimitrov. A caminhada de Nishikori é bem dura e até mesmo uma estreia contra Mikhail Kukushkin é perigosa, sem falar em duelos contra Steve Johnson e John Isner.

Andy Murray pontua o outro lado da chave e fará seu primeiro torneio como pai. Na terceira rodada, pode ter Gael Monfils ou Nick Kyrgios, depois Tomas Berdych, Milos Raonic ou até Bernard Tomic. Precisará estar afiado. Curioso é que, apesar de estar na sua superfície predileta, o escocês só fez uma final em Indian Wells e isso há sete anos.

O outro concorrente à semi é Stan Wawrinka, que aparentemente pegou o setor mais frágil, onde o maior especialista no piso é Marin Cilic. O paulista Thomaz Bellucci entrou de cabeça 29 e aguarda o duelo de garotos entre Borna Coric e Lucas Pouille. Dá para vencer e aí esperar Berdych… Ou quem sabe, Juan Martin del Potro!

Mais sacudida pelo caso Sharapova, a chave femninina tem amplo favoritismo de Serena Williams e sonha com um possível duelo direto com a irmã Venus nas quartas. Seria no mínimo interessante, já que foi justamente um confronto entre eles que gerou toda a confusão e posterior boicote das Williams ao torneio, encerrado enfim por Serena no ano passado e agora por Venus.

Cabeça 2, a alemã Angelique Kerber terá boa parte dos holofotes depois do título na Austrália. Sloane Stephens e Carla Suárez são adversárias que exigem cuidado antes mesmo da semi. Vika Azarenka e Belinda Bencic estão no outro quadrante.

Teliana Pereira já estreou e se despediu rapidamente. Até agora na temporada, a número 1 nacional venceu apenas 20 games, sem ganhar ao menos um set. Tudo bem que, dos cinco torneios, quatro foram no sintético. Mas sua posição de top 50 já está seriamente ameaçada em Indian Wells. Tomara que ela reaja no saibro europeu, a partir de abril.

Doping – Enquanto isso, Maria Sharapova parece em maus lençóis. Quase tudo que se publicou desde segunda-feira foi contra a russa. O fabricante do medicamento proibido contestou o uso prolongado do Meldonium que ela diz fazer há 10 anos e reportagens atestam que a musa foi alertada pelo menos cinco vezes para interromper a ingestão da substância.

Um alto dirigente da Wada (Associação Mundial Antidoping) acredita numa punição de 12 meses, o que seria trágico para uma tenista que já está a 39 dias de completar 29 anos e que teria de recomeçar a carreira do zero absoluto.

Vacilo imperdoável
Por José Nilton Dalcim
7 de março de 2016 às 23:14

O reconhecimento do uso de substância proibida, ainda que tenha havido a melhor das intenções, dificilmente evitará que Maria Sharapova receba uma suspensão do circuito pela Federação Internacional de Tênis. A discussão é, no máximo, sobre qual a penalidade a ser aplicada. Provavelmente vão lhe dar quatro meses, o que salvaria sua chance de ao menos disputar as Olimpíadas do Rio, mas a tiraria de Roland Garros e de Wimbledon.

A situação é realmente ácida. Sharapova usava habitualmente o medicamento que tem como meta prevenir a diabetes. A substância no entanto entrou na lista proibida em janeiro deste ano – depois que se detectou seu uso para melhoria de rendimento – e isso era público e notório.

Todos os atletas, de qualquer modalidade, recebem anualmente comunicado sobre as alterações e inclusões na tão temida lista. E uma personalidade do tamanho de Sharapova tem um mar de gente para cuidar de qualquer assunto, principalmente físico e médico. Daí que não há desculpa cabível no processo. Ela própria já reconheceu isso.

Suspensa provisoriamente, Sharapova terá prazo para se defender. Na verdade, vai tentar atenuantes, como seu vasto currículo de boa moça. O Comitê da Federação Internacional então decide pela culpabilidade e eventual pena. Se for suspensa, perde todos os pontos e premiação recebidos desde o doping, ou seja, do Australian Open, o que não significa nada para a russa.

O problema não termina aí. Caso a Associação Antidopagem (Wada) discorde da Federação, pode entrar com recurso na Corte de Arbitragem. O mais comum é a Wada pedir penalização muito maior do que as federações dão.

A triste notícia tem alguns pontos positivos. Mostra que os testes antidoping são feitos com seriedade ao menos nos Grand Slam e que grandes nomes não estão acima da lei.