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A prova definitiva
Por José Nilton Dalcim
14 de maio de 2017 às 21:39

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o retorno triunfal de Rafael Nadal ao saibro – e ao circuito como um todo -, Madri respondeu todas as perguntas. Ainda que seja um torneio ‘fora da curva’ dentro do calendário da terra europeia, o canhoto espanhol fez uma campanha que não pode ser contestada.

Ao contrário de adversários menos gabaritados que havia enfrentado em Monte Carlo e Barcelona, a trajetória na Caja Magica foi a mais exigente possível dentro do que se tem hoje. Lutou três horas contra Fabio Fognini, atropelou Nick Kyrgios, segurou o ímpeto de David Goffin, não tomou conhecimento de Novak Djokovic e encontrou as melhores soluções diante de Dominic Thiem.

Na verdade, se pensarmos que Madri é até mais rápido do que muita quadra asfáltica, ainda mais quando se fecha o teto, Rafa também deixa bem claro que a receita encontrada pode ser suficiente quando o piso sintético chegar no segundo semestre.

Mas o momento é pensar no saibro. Declarou na coletiva oficial que jamais cogitou desistir de Roma e se poupar para Paris. Muito pelo contrário, vai ‘jogar o máximo’ no Fóro. Provavelmente, está na sua mira uma sucessão de conquistas inédita e inigualável: faturar todos os cinco grandes torneios do saibro.

Ele já fez coisas incríveis: em 2013, Barcelona, Madri, Roma e Paris; em 2012, Monte Carlo, Barcelona, Roma e Paris; em 2010, notável, os três Masters e o Slam do saibro; em 2008, Monte Carlo, Barcelona, Hamburgo e Paris; em 2005, 06 e 07, Monte Carlo, Barcelona, Roma e Paris.

Será que veremos o melhor Nadal de todos os tempos quando ele completar 31 anos?

A final deste domingo foi um belo espetáculo, porque felizmente Thiem não decepcionou como em Barcelona. Na verdade, teve suas chances de ganhar ao menos o primeiro set, já que liderou por 3/1 antes de fazer duas grandes bobagens, e depois teve dois pontos para ganhar o tiebreak. Nesses casos, no entanto, o mérito foi todo do espanhol.

Como costuma treinar muito com Thiem, Rafa sabia bem o caminho das pedras. Martelou o backhand, mas não se descuidou das paralelas e aplicou magníficas deixadinhas. O austríaco disparou seus golpes pesadíssimos, fez um voleio de cinema e soube se defender. Inegável que o primeiro saque ajudou demais a manter o equilíbrio. Definitivamente, é um respeitável top 10.

Títulos e número 1
E o domingo reservou dois títulos importantes para o tênis brasileiro.

Bia Haddad lavou a alma no saibro francês e enfim aparecerá no top 100, um lugar que sempre me pareceu reservado para seu jogo, que mistura potência, visão tática e boa mão. Que longa e sofrida trajetória para dar esse primeiro grande passo na carreira, que já vale também vaga direta em Wimbledon.

Dois coisas são essenciais para mantermos o otimismo em cima de maior evolução da canhota. Em primeiro, fará 21 anos dentro de 16 dias já com experiência de sobra, entre elas a de angústia e de perseverança. Depois, nesta caminhada que começou em fevereiro, já vimos título na Austrália e uma exibição digna contra Venus Williams na quadra dura, além da conquista de um WTA de duplas em Bogotá. Então, ufa, não depende apenas do saibro.

Muito importante também o segundo título em três finais de Masters da parceria Marcelo Melo-Lukasz Kubot, que demorou para engrenar mas agora está dando gosto de se ver. Estão sólidos com o saque, muito firmes na rede e a devolução melhorando a cada semana.

‘Girafa’ sobe para o terceiro lugar do ranking individual. E atenção: se ganhar Roma, voltará a ser o número 1 do mundo. Seria espetacular.

Doce vingança
Por José Nilton Dalcim
13 de maio de 2017 às 19:27

Rafael Nadal não perdeu por esperar. Assim como havia sofrido derrotas acachapantes para Novak Djokovic em seus momentos de baixa, aproveitou-se neste sábado para retribuir em idêntica moeda. Não fosse uma pequena queda de intensidade no segundo set, e o espanhol teria atropelado o adversário com placar muito mais expressivo do que foram o 6/2 e 6/4.

Havia claramente uma motivação extra para Rafa. Ele entrou acelerado, distribuindo bolas para todos os lados, dedicadíssimo a ousar paralelas a qualquer oportunidade. Não custou nada abrir 4/0 diante do serviço débil de Nole. Voltou a sair com quebra à frente na outra parcial e só aí deu uma vacilada. Ficou mais conservador e vimos claramente que as paralelas diminuíram. Fechou as poucas frestas que surgiram com um empenho ferrenho, um saque inteligente e a variação de golpes que outrora era marca registrada do adversário. Um passeio tático e técnico.

Embora tenha jogado abaixo de seu nível, vale dizer que Nole tentou literalmente tudo. Recuou um passo atrás da linha, subiu mais do que deveria à rede – chegou a fazer saque-voleio -, deu deixadinhas, correu como louco. Mas esse arsenal não suprimiu sua imprecisão na hora de atacar ou a falta de regularidade para aguentar as trocas mais longas. No fundo, o que mais o deixou na mão foi um primeiro saque contundente que permitisse atacar logo na segunda bola. A explicação básica para tudo mais uma vez parece simples: não há confiança o suficiente.

Nole admitiu logo depois que Rafa é o favorito para Roland Garros, e o sérvio sabe que isso não depende mais do que acontecer em Roma. Claro que Nole ainda pode reduzir a distância caso não apenas faça um grande torneio no Fóro, mas principalmente se vingue do espanhol, já que os dois estão novamente fadados a se cruzar na semi. Caso contrário, o bi será um sonho distante. O primeiro balde de água fria já caiu.

E o que pode fazer Dominic Thiem contra Nadal? Vimos poucos dias atrás que o austríaco tem problema claro diante de quem defende em demasia. Apesar da potência incrível de seus golpes, ele acaba se desesperando quando não consegue finalizar os pontos e isso é justamente a maestria de Rafa no saibro. Então me parece que as chances do austríaco estão diretamente relacionadas à capacidade de absorver a frustração. Tomara que ele faça bem mais do que os cinco games que obteve em Barcelona.

Sábado de ouro
Carente de resultados animadores, o tênis brasileiro viveu um sábado de ouro. Bia Haddad Maia avançou para a maior final de sua curta carreira e pode cumprir o destino de chegar ao top 100 se levantar o troféu. Atrasado em relação a seu potencial, mas muito adiantado se pensarmos que começou a temporada perto do 250º posto e somente em fevereiro. De quebra, praticamente garantiu sua vaga em Wimbledon, seu primeiro Grand Slam.

Marcelo Melo foi outra alegria, embora nem tenha entrado em quadra. Ele o Lukasz Kubot se favoreceram do abandono de Nick Kyrgios – está com dor no quadril esquerdo e é dúvida em Roma – e farão assim a terceira final de Masters 1000 em 40 dias, em busca do segundo título e da liderança da temporada.

Em Roma, Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro venceram a primeira rodada do quali e terão de duelar entre si para ver quem fica com a vaga. Se por um lado é ruim, de outro garante um deles na chave. O cearense não anda dando muita sorte nesta primeira incursão no tênis de primeiríssima linha.

Por fim, Orlando Luz foi à final de um future espanhol de US$ 15 mil. Claro que é hoje o menor dos torneios do circuito, mas demonstra que sua volta após dois meses de parada não tirou o ritmo. Portanto, um domingo que vale muita torcida.

São Federer
Por José Nilton Dalcim
2 de abril de 2017 às 22:17

Roger Federer fez um pequeno milagre neste domingo em Miami. Não apenas ganhou em dois sets de Rafael Nadal como enfrentou condições extremamente difíceis para quem vinha de duas batalhas físicas e mentais quatro dias antes. Sob calor de 30 graus e umidade de 78%, era natural que o canhoto espanhol tivesse maiores oportunidades de sucesso. Piso mais lento, exigência atlética enorme. E nem assim ele parou Federer, que fechou a primeira parte da temporada com um domínio assustador.

Não foi um jogo fácil, como enganosamente indica o placar. O primeiro set viu uma incrível sucessão de break-points, mas os dois jogadores conseguiram tirar o melhor de si na hora do aperto. Nadal se salvou na maior parte do tempo com o primeiro saque muito profundo, mas bastou um game de aproveitamento inferior para ele ficar à mercê das devoluções agressivas de Federer. O suíço não sacou tão bem, porém nunca abdicou de atacar a segunda bola.

Houve sim algumas novidades táticas na partida. Foi possível ver várias vezes o suíço enchar a bola de topspin ao melhor estilo Nadal, numa delas obtendo até winner. Já o espanhol tentou um pouco de tudo. Bateu mais na bola, fez paralela de backhand, buscou a rede, deu curtinha inesperada e surpreendeu com segundo saque no forehand. Talvez as três derrotas anteriores, especialmente a de Indian Wells, tenham pesado para Rafa.

A diferença básica foi a devolução. Rafa poucas vezes colocou Federer sob pressão, favorecendo-se mais dos erros. O suíço retornou muito mais, jamais saiu de cima da linha e no final havia pegado de vez o ritmo do serviço para alcançar winners. A se observar a qualidade absurda dos voleios do suíço, alguns em momento delicado e de enorme dificuldade.

Federer saiu de quadra anunciando que irá parar a máquina até Roland Garros. Não chega a ser uma decisão surpreendente, ainda que minha expectativa é que ele jogasse Madri e Roma porque afinal suas chances no saibro de Paris não são tão pequenas assim. Ele no entanto se diz esgotado após Indian Wells e Miami, quer se preservar ao máximo porque “o objetivo é Wimbledon”. Diante disso, temos de concordar e apenas lamentar sua ausência por quase dois meses.

Nadal, claro, sai frustrado por mais um vice na temporada e em Miami, certamente não engolindo outra derrota para o arqui-rival. Porém ele faz o discurso certo. O bom primeiro trimestre – afinal, ele também volta de longa parada – e o momento duvidoso de Andy Murray e Novak Djokovic o colocam novamente como grande nome para o saibro europeu. Entra como favorito em Monte Carlo, pode embalar em Barcelona, sempre é forte em Roma e isso o deixará muito perigoso para Paris. Mesmo sem Federer, a temporada de saibro promete.

O fim de semana também coroou a parceria de Marcelo Melo e Lukazs Kubot e sacramentou a ascensão de formiguinha de Johanna Konta. O mineiro chegou ao sexto troféu de nível Masters e a dupla agora é a segunda melhor da temporada. O respeito aumenta de vez. O ponto mais positivo das campanhas nos EUA foi sem dúvida a evolução da devolução de saque dos dois, que era um ponto delicado para Melo depois que desfez o dueto com Ivan Dodig. O croata segurava muito atrás.

Konta retorna ao top 10, mas é importante ressaltar que ela sequer era top 100 duas temporadas atrás. Não é uma jogadora jovem – já vai para 27 anos -, porém continua lutando para melhorar em todos os aspectos. Gosta de ser ofensiva, mas diante de Carol Wozniacki mostrou que sua parte defensiva também ficou mais consistente. Quando precisou de paciência, fez tudo direitinho.

Pena que agora vem o saibro, um piso que não parece combinar muito nem com Melo/Kubot, nem com Konta. Eles terão de manter um bom padrão para tentar aventuras na temporada de grama. Lá, todos ficarão bem mais à vontade.