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Murray e Serena levam a pior
Por José Nilton Dalcim
13 de janeiro de 2017 às 10:12

Ao menos no plano teórico, o Australian Open 2017 está mais difícil para os vices Andy Murray e Serena Williams do que para os atuais campeões Novak Djokovic e Angelique Kerber. Mas sempre é bom ressaltar que isso tem muito de achismo: num torneio em que o calor pode ser avassalador e afetar o físico nem sempre pronto de quem começa a temporada ou fica muito tempo em quadra, Melbourne tem por tradição apresentar surpresas.

A chave de Murray indica a possibilidade de desafios crescentes, o que é sempre interessante num Slam. Ele não parece correr riscos até pegar o experiente Sam Querrey na terceira partida, aquele que tirou Djokovic de Wimbledon mas depois não fez grande coisa. É bem possível que Murray encare outro grande sacador nas oitavas, John Isner, ou quem sabe o ascendente Lucas Pouille.

Porém, são todos adversários contra os quais o escocês tem vasto histórico positivo. Pouille por exemplo só tirou 10 games de Murray em três jogos do ano passado. Isner já virou ‘freguês’, com oito derrotas, e Querrey só ganhou um de sete duelos.

Interessante é imaginar quem poderá ser seu adversário das quartas. Kei Nishikori aparece como o cabeça maior e certamente seria um perigo. Como não lembrarmos dos três incríveis jogos que eles disputaram em 2016? Porém, vai para Melbourne com o quadril sob suspeita. Isso poderia abrir brecha para Tomas Berdych… ou Roger Federer. Os dois podem se cruzar na terceira rodada e repetir o que aconteceu nas quartas do ano passado. Federer deu sorte, pega dois qualificados como aquecimento. A partir daí, é lucro.

A provação de Murray será completa caso cruze com Stan Wawrinka na semi. O campeão de 2014 parece reservar seu melhor tênis para os Slam e o piso de Melbourne tem a velocidade que se encaixa perfeitamente com seus poderosos golpes de base. O suíço no entanto não deve ter vida das mais fáceis. Martin Klizan, Steve Johnson e Viktor Troicki é uma sequência exigente antes de eventual duelo com Nick Kyrgios, algo que poderia ser um dos pontos altos do torneio. O outro candidato às quartas sai de um grupo bem indefinido, onde Marin Cilic, Jo-Wilfried Tsonga e até Jack Sock e Bernard Tomic parecem ter chances reais.

Sobrou para Djokovic uma caminhada teoricamente mais tranquila, não fosse a ironia do destino, que colocou no seu caminho de estreia o mesmo Fernando Verdasco que teve cinco match-points dias atrás, em Doha. Em cinco sets, uma surpresa é bem mais difícil. Outro bom teste pode ser nas oitavas diante de Grigor Dimitrov. O búlgaro já ganhou de Djokovic e, no único duelo de 2016, deu trabalho em Bercy. As quartas são incógnita mas assinalam barbada, já que Dominic Thiem, David Goffin, Feliciano López e Ivo Karlovic não vêm jogando nada.

Semifinalista no ano passado, Milos Raonic tem de ficar com o favoritismo para a outra vaga na semi, ainda que tenha bons devolvedores no caminho, como Gilles Simon, Roberto Bautista ou David Ferrer. Há portanto boa chance de o canadense disputar as quartas contra Rafa Nadal, mas o espanhol terá um desafio muito interessante na terceira rodada contra o garoto Alexander Zverev, que teve vitória na mão contra o espanhol em Indian Wells do ano passado e tem um jogo absolutamente encaixado para a quadra dura. Se existe uma boa aposta de surpresa em Melbourne, eu ficaria com Zverev.

Dos brasileiros, Thiago Monteiro teve a pior sorte. Terá de rever Tsonga num lugar que é totalmente favorável ao francês. Thomaz Bellucci encara Tomic em casa, porém não é totalmente impossível: tem histórico de 2-1 a favor e o australiano pode muito bem tremer na estreia. Vai ser um jogo nervoso. Já Rogerinho Silva pegou o ascendente americano Jared Donaldson e joga com a experiência e o físico privilegiado.

A chave feminina parece mais favorável à atual campeã Angelique Kerber, ainda que ela venha de duas derrotas pré-Melbourne. Uma delas, aliás, para Daria Kasatkina, que pode ser sua adversária de oitavas. Simona Halep tem bom caminho para a semi nesse lado de cima da chave.

Serena Williams vê um quadro duro, a começar por Belinda Bencic, ainda que a suíça continue com seus problemas físicos. Também não é divertido pegar a canhota Lucie Safarova numa segunda rodada e ter como adversária de oitavas Barbora Strycova ou Caroline Garcia que costumam jogar sem responsabilidade. Mais à frente, Dominika Cibulkova e Ekaterina Makorova são sempre perigosas. Ainda assim, tudo parece mais uma questão de como está Serena de corpo e de alma.

Karolina Pliskova corre por fora e provavelmente poucos vão prestar atenção à ela nas rodadas iniciais, até porque não encara adversárias de nome até as quartas, quando então aparecem Aga Radwanska, Elena Vesnina ou quem sabe a anfitriã Sam Stosur. A chave feminina está bem mais propensa a novidades do que a masculina.

Promissor
Por José Nilton Dalcim
7 de janeiro de 2017 às 21:53

A temporada 2017 promete. A primeira semana de competições, oficiais ou não, mostrou tênis de excepcional qualidade e, acima de tudo, um direcionamento claro dos homens em direção à rede, aos voleios. Ufa!

Vimos Rafa Nadal, Andy Murray, Milos Raonic, Kei Nishikori fazendo saque-voleio, mas também a eles se somou até Tomas Berdych. Aquela tendência, que eu já havia assinalado algum tempo atrás, de que encurtar o tempo de reação do adversário seria o melhor caminho para matar pontos vai ficando mais clara e necessária.

Ao mesmo tempo, o pessoal está batendo muito forte do fundo de quadra. Tivemos até aqui três jogos que valem a pena ser revistos pela qualidade técnica: Djokovic-Murray, Nishikori-Wawrinka e Federer-Zverev. Quem não viu, pode dar uma olhada no YouTube.

Claro que a final de Doha era a partida mais aguardada. E não decepcionou. Não bastassem os lances de tirar o fôlego, sobrou emoção e alternâncias. Gostei de ver Djokovic novamente agressivo, buscando mais paralelas e automaticamente a rede.

Saque e devolução são os pontos que ainda o diferenciam positivamente de Murray. Esperava um forehand um pouco mais efetivo do escocês depois da pré-temporada, ainda que ele tenha soltado alguns ‘foguetes’ neste sábado. O título veio na hora certa para Nole, que escapou por milagre na sexta-feira de uma frustração bem grande.

Nishikori e Wawrinka deram outro espetáculo. O japonês mais perto da base, trocando muito bem a direção da bola, Stan usando a paralela para ir à rede. Nishikori seria um forte candidato ao título em Melbourne se pudéssemos acreditar no seu físico. Vai decidir o título do excelente torneio de Brisbane contra o renascido Grigor Dimitrov.

Nadal me deixou um tanto confuso. O saque foi aprimorado, o backhand pareceu mais batido e ele também explorou a rede. Mas ainda recuou demais quando o jogo contra Milos Raonic ficou duro, e isso abriu os ângulos.

O espanhol e Roger Federer parecem ter aproveitado bem a pré-temporada mais longa e antecipada. Me chamou a atenção a fluidez do backhand de Federer, bem mais profundo. O suíço também optou por um primeiro saque cheio de slice. Apesar da derrota, o jogo contra a juventude de Alexander Zverev foi delicioso, com trocas incríveis da base. O alemão tem personalidade de sobra e muitos recursos. Amadurece a passos largos.

No feminino, decepção tanto de Angelique Kerber como de Serena Williams, porém não serve para parâmetros. Quem está mesmo perigosa é Karolina Pliskova. Saque poderoso, ousadia, força. Quem quiser um palpite de risco para o Australian Open, esse é dos bons.

Rankings
- Mesmo perdendo a final em Doha, Murray aumenta a distância para Djokovic para 780 pontos, mas não pode dormir em berço esplèndido. O escocês precisa chegar na semi do AusOpen para se manter na liderança sem depender de Djokovic.
- Como não defendeu o vice em Brisbane, Federer perderá o 16º lugar para Dimitrov. Com isso, poderemos ter Wawrinka, Nadal e Federer no lado de Djokovic em Melbourne.
- No feminino, não deve ter luta pela ponta. Kerber defende o título mas entrará com quase 1.800 pontos de vantagem sobre Serena, a vice de 2016, e assim basta à alemã chegar na semi para se manter à frente.

O Stanimal reaparece
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2016 às 00:54

Stan Wawrinka é um fenômeno. Chegou a três finais de diferentes Grand Slam e, em todas elas, deixou pelo caminho Novak Djokovic e derrotou na decisão o número 1 do mundo vigente. Mas talvez também devamos dizer que Stan é um preguiçoso. Porque com a qualidade do seu tênis, demorou demais para ganhar seu primeiro grande troféu na Austrália de 2014. Aí levou 17 meses para faturar Roland Garros. E mais 14 até vencer o terceiro, neste domingo, em Nova York.

A coisa mais curiosa deste conquista no US Open nem foi o fato de ter quase perdido na terceira rodada para o modesto Daniel Evans. Porém, a aposta no seu preparo físico para derrotar seus três imponentes adversários das rodadas finais. Logo ele, que sempre sofreu para se manter no peso e cansou de perder jogos pela movimentação deficiente.

O duelo contra Djokovic deste domingo exemplifica bem. O suíço entrou em quadra com 17h54 de esforço nas duas semanas, praticamente o dobro das 8h58 do sérvio. E ainda assim Stan acreditou que teria mais pernas e braços, assim como fizera diante de Juan Martin del Potro e Kei Nishikori. Ficou apontando repetivas vezes para a cabeça indicando para o técnico Magnus Norman que estava prosseguindo com o planejamento inicial: trabalhar os pontos e buscar a definição na hora certa, muitas vezes com seu magnífico backhand.

O jogo se caracterizou por um duelo mental mais do que técnico. O jogo foi bom mas não espetacular e basta ver a estatística: 27 break-points oferecidos pelos dois, 51 erros não forçados do campeão e 46 do outro postulante. Felizmente, os winners ajudaram a compensar, com 46 de Stan e 30 de Nole. O sérvio falhou feio três vezes com o saque (5/3 para fechar o primeiro set, 4/5 do segundo e 5/6 do terceiro para perder as séries).

O backhand de Stan machucou tanto que ele se queixou abertamente do golpe, perdeu a frieza e não parou de falar com seu time entre os pontos ao melhor estilo Murray. Mesmo sem sacar tão bem como poderia, Wawrinka mais uma vez sinalizou ao mundo do tênis que para vencer Djokovic é preciso atacar dos dois lados, variar ângulos e paralelas, abrir espaços com paciência e precisão. É uma tarefa muito difícil, porque o sérvio se mexe como ninguém em quadra e está sempre pronto para um contra-ataque mortal. Nem as bolhas no pé o seguram. E daí que a cabeça do suíço surpreendeu, porque ele superou momentos de dúvida, de erros, de pressão, de superação total do sérvio.

A temporada ainda não terminou. Vamos torcer para que, de novo, Stan não se contente e acomode. Fico no entanto com uma pulga atrás da orelha. Mesmo num Slam em que foi tão pouco exigido e com um calendário anual econômico, Nole teve os mais variados tipos de problemas: punho, cotovelo, ombro (aliás os dois) e por fim fisgada na virilha e bolha no pé. Ainda que seu estilo não seja tão pesado como o de Nadal, há um considerável preço a se pagar pela correria e esforço sempre no limite. Talvez seja hora de repensar tudo isso.

Fim de semana
Sábado especial. Primeiro, com Bruno Soares aumentando sua história e chegando ao quinto Grand Slam de uma carreira que ainda tem muito a oferecer. Encontrou um parceiro que é amigo e habilidoso, com defeitos a corrigir e muita vontade de ganhar. Os dois se entendem às maravilhas e ganhar dois Slam em apenas sete meses de entrosamento é um tremendo resultado. Como a temporada de quadras sintéticas vai longe, eles têm um cenário favorável a várias conquistas ainda em 2016.

O 33º troféu brasileiro de Grand Slam veio horas depois com o juvenil campineiro Felipe Alves, sobrinho de Fernando Meligeni. Um garoto trabalhador, que faz a família se virar como pode para manter o sonho do circuito profissional. Ainda que ele certamente mire a carreira de simples, o título no US Open é mais uma prova da habilidade inata do tenista brasileiro para a dupla, algo que deveríamos avaliar com mais seriedade. O sucesso de Bruno e Marcelo Melo também é coroado por uma premiação que já beira a casa dos US$ 4 milhões cada um. Portanto, dupla aparece menos e ganha fatia pequena do bolo, porém o caminho vale a pena.

Por fim, Angelique Kerber e Karolina Pliskova fizeram uma final com todos os ingredientes. Dentro de suas capacidades, jogaram o máximo. A tcheca, que não havia demonstrado tremedeira até então, deixou escapar o 3/1 no terceiro set e fez dois games horríveis no finalzinho da partida. Mas é desculpável diante de sua mínima experiência e da determinação incansável da nova número 1 do ranking. Para o tênis, foi ótimo. Porque não seria agradável ver Kerber assumir a liderança com um vice. O US Open coroou sua notável temporada e mostrou que a vida de uma tenista de 28 anos ainda pode ser longa.

Desafio
Apesar dos quase 200 votos, apenas quatro internautas acertaram que Wawrinha ganharia por 3 a 1 de virada e Kerber marcaria 2 a 1 perdendo o segundo set. Victor Petri foi o primeiro colocado, tendo acertado três placares do jogo masculino e dois do feminino. Em segundo, ficou Thawan Costa, com erro de seis games na soma dos sets, e em terceiro Carlos Husky, com erro de nove. Vocês devem me enviar nome e endereço completos para o envio das bolas autografadas por Caroline Wozniacki, um presente da adidas.