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São Federer
Por José Nilton Dalcim
2 de abril de 2017 às 22:17

Roger Federer fez um pequeno milagre neste domingo em Miami. Não apenas ganhou em dois sets de Rafael Nadal como enfrentou condições extremamente difíceis para quem vinha de duas batalhas físicas e mentais quatro dias antes. Sob calor de 30 graus e umidade de 78%, era natural que o canhoto espanhol tivesse maiores oportunidades de sucesso. Piso mais lento, exigência atlética enorme. E nem assim ele parou Federer, que fechou a primeira parte da temporada com um domínio assustador.

Não foi um jogo fácil, como enganosamente indica o placar. O primeiro set viu uma incrível sucessão de break-points, mas os dois jogadores conseguiram tirar o melhor de si na hora do aperto. Nadal se salvou na maior parte do tempo com o primeiro saque muito profundo, mas bastou um game de aproveitamento inferior para ele ficar à mercê das devoluções agressivas de Federer. O suíço não sacou tão bem, porém nunca abdicou de atacar a segunda bola.

Houve sim algumas novidades táticas na partida. Foi possível ver várias vezes o suíço enchar a bola de topspin ao melhor estilo Nadal, numa delas obtendo até winner. Já o espanhol tentou um pouco de tudo. Bateu mais na bola, fez paralela de backhand, buscou a rede, deu curtinha inesperada e surpreendeu com segundo saque no forehand. Talvez as três derrotas anteriores, especialmente a de Indian Wells, tenham pesado para Rafa.

A diferença básica foi a devolução. Rafa poucas vezes colocou Federer sob pressão, favorecendo-se mais dos erros. O suíço retornou muito mais, jamais saiu de cima da linha e no final havia pegado de vez o ritmo do serviço para alcançar winners. A se observar a qualidade absurda dos voleios do suíço, alguns em momento delicado e de enorme dificuldade.

Federer saiu de quadra anunciando que irá parar a máquina até Roland Garros. Não chega a ser uma decisão surpreendente, ainda que minha expectativa é que ele jogasse Madri e Roma porque afinal suas chances no saibro de Paris não são tão pequenas assim. Ele no entanto se diz esgotado após Indian Wells e Miami, quer se preservar ao máximo porque “o objetivo é Wimbledon”. Diante disso, temos de concordar e apenas lamentar sua ausência por quase dois meses.

Nadal, claro, sai frustrado por mais um vice na temporada e em Miami, certamente não engolindo outra derrota para o arqui-rival. Porém ele faz o discurso certo. O bom primeiro trimestre – afinal, ele também volta de longa parada – e o momento duvidoso de Andy Murray e Novak Djokovic o colocam novamente como grande nome para o saibro europeu. Entra como favorito em Monte Carlo, pode embalar em Barcelona, sempre é forte em Roma e isso o deixará muito perigoso para Paris. Mesmo sem Federer, a temporada de saibro promete.

O fim de semana também coroou a parceria de Marcelo Melo e Lukazs Kubot e sacramentou a ascensão de formiguinha de Johanna Konta. O mineiro chegou ao sexto troféu de nível Masters e a dupla agora é a segunda melhor da temporada. O respeito aumenta de vez. O ponto mais positivo das campanhas nos EUA foi sem dúvida a evolução da devolução de saque dos dois, que era um ponto delicado para Melo depois que desfez o dueto com Ivan Dodig. O croata segurava muito atrás.

Konta retorna ao top 10, mas é importante ressaltar que ela sequer era top 100 duas temporadas atrás. Não é uma jogadora jovem – já vai para 27 anos -, porém continua lutando para melhorar em todos os aspectos. Gosta de ser ofensiva, mas diante de Carol Wozniacki mostrou que sua parte defensiva também ficou mais consistente. Quando precisou de paciência, fez tudo direitinho.

Pena que agora vem o saibro, um piso que não parece combinar muito nem com Melo/Kubot, nem com Konta. Eles terão de manter um bom padrão para tentar aventuras na temporada de grama. Lá, todos ficarão bem mais à vontade.

Só Nadal pode impedir outro título histórico de Federer
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2017 às 00:17

Onze anos depois de ter conquistado seu bicampeonato em Miami, o suíço Roger Federer tenta finalizar mais uma campanha surpreendente em sua mágica temporada 2017. O único que pode evitar que seu domínio se amplie ainda mais é justamente Rafael Nadal. Os dois mega-rivais decidiram o mesmo título em 2005, quanto tempo, e farão o terceiro grande duelo em apenas dois meses. Não dá para perder.

Federer aumenta seu recorde em finais de Masters para 45 e pode ganhar dois troféus desse quilate seguidamente pela primeira vez desde Cincinnati e Xangai de 2014. Sua trajetória tem sido incrivelmente difícil na umidade terrível de Key Biscayne. Salvou dois match-points nas quartas de final e precisou nesta noite de três tiebreaks emocionantes e 3h10 de enorme esforço físico para superar o arrojado Nick Kyrgios. A resistência e persistência do ‘velhinho’ são notáveis.

Nadal terá duas missões especiais no domingo. Ganhar enfim Miami em sua quinta final e encerrar o jejum de conquistas sobre piso sintético que já completou três temporadas. De quebra, joga para encostar novamente em Novak Djokovic na briga pela liderança de troféus de Masters 1000 – o que esquentaria muito a fase do saibro europeu – e acima de tudo tenta encerrar a já amarga série de três derrotas consecutivas para o suíço. Nadal interrompeu a contagem de 23 triunfos sobre Federer em janeiro de 2014 e a vantagem já diminuiu para 10.

As semifinais desta sexta-feira foram muito distintas. Logo cedo, Rafa dominou completamente um desanimado Fabio Fognini tendo como maior predicado um excelente primeiro serviço, que funcionou o tempo todo e não deu oportunidades quando o italiano resolveu jogar mais ao longo do segundo set. A vitória sem sustos serviu certamente para deixar sua confiança lá em cima. Será mesmo necessário.

Como eu esperava, Federer e Kyrgios reviveram os tiebreaks de Madri de 2015 com a mesma dramacidade e competência. Foi tudo muito apertado, mas houve espaço para pequenos domínios. Kyrgios poderia ter levado o primeiro set quando teve 5/4 e saque. O desempate foi tenso, muitos serviços quebrados e chances para os dois lados. Federer poderia também ter resolvido mais cedo. Deixou escapar dois break-points no sétimo game do segundo set e abriu 5-3 no outro tiebreak, 6-5 e saque. Kyrgios mostrou incrível frieza e ainda reagiu.

O terceiro set favoreceu os sacadores e vimos os dois irem bem mais à rede, provavelmente para economizar físico. Fizeram lances geniais, correram atrás de todas as bolas, levantaram o público. No terceiro tiebreak, Kyrgios fez 3-1 e permitiu empate. Chegou a 5-4 e dois saques, o que deveria ser o fim. Atrapalhou-se com um torcedor inoportuno, cometeu dupla falta em seguida e viu Federer sacar um ace cruzado para finalizar mais uma vitória espetacular, milimétrica. Dois jogos, seis tiebreaks e agora 1 a 1 entre eles. Show.

Feminino: inesperado
Se a final masculina é um ‘remake’, a feminina deste sábado é completamente inesperada, envolvendo duas tenistas que sequer estão no momento entre as top 10. Mas não dá para negar que Carol Wozniacki e Johanna Konta merecem demais decidir o importante Premier de Miami, um dos maiores troféus do circuito.

Wozniacki não mudou muita coisa no seu estilo, que privilegia a regularidade e a paciência, porém está jogando talvez o melhor tênis dos últimos três anos. Não por acaso, a ex-número 1 está entre as três tenistas que se saíram com maior sucesso na temporada até aqui e nunca é demais lembrar que, afinal das contas, tem ainda 26 anos.

A britânica, 11 meses mais jovem, faz a maior final da carreira e um título pode levá-la ao sétimo lugar do ranking, um posto de muito prestígio. Ao contrário da dinamarquesa, bate muito mais na bola, força o saque e mira as linhas. Em dias inspirados, como na semi diante de Venus Williams, é uma adversária terrível. Quem sabe, Miami possa ser um impulso para aventuras maiores lá na frente.

Curioso notar que a distância hoje entre a líder Angelique Kerber e a número 7 do ranking é praticamente de 3 mil pontos, algo muito distinto do que ocorre no top 10 masculino.