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Segurem o Touro
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2017 às 15:12

Havia uma barreira emocional importante para Rafael Nadal no duelo contra Gael Monfils: voltar às quartas de final de um Grand Slam depois de seis frustrações. Talvez por isso não tenha sido seu melhor jogo deste Australian Open, inferior em tudo à exibição diante de Alexander Zverev, mas ele soube segurar a cabeça nos momentos delicados e chegou lá. Agora, segurem o Touro Miúra.

Incrível como Monfils não consegue render contra os grandes. Sempre escapa alguma coisa. Me dá a impressão que não existe um plano claro de jogo e ele aí fica ali, fazendo o que sabe de melhor: improvisar. Diante de um tenista tão experiente e regular como Rafa, é quase suicídio. O espanhol foi soberano por dois sets e tinha tudo para simplificar no terceiro. Falhou então feio no saque e por pouco não complica sua vida, uma vez que Monfils então decidiu atacar e teve quebra na frente para levar também o quarto set. Quando entrou o quesito mental em quadra, acabou a festa.

Milos Raonic será o próximo desafio de Nadal, sem favoritismos a meu ver. É bem verdade que, dos últimos três jogos oficiais, Raonic venceu dois, ambos de virada e com dificuldade em todos os sets. O motivo parece óbvio: Rafa castiga demais o backhand instável do canadense, que não tem pernas ágeis o bastante para ficar fugindo o tempo inteiro com seu ótimo forehand. Assim, sacar muito bem é o único caminho para Raonic manter o equilíbrio e buscar a vitória num momento bem oportuno.

Como eu imaginava, Raonic faz caminhada pouco chamativa mesmo sendo número 3 do ranking. E nos seus dois últimos jogos, diante de tenistas defensivos, teve trabalho mesmo com o piso mais veloz deste Australian Open. Contra Roberto Bautista, especialmente, foi bem duro. Saiu na frente do primeiro set, permitiu reação e chegou a estar atrás 4-0 e 5-1 no tiebreak. Depois, no terceiro set, precisou de grande esforço para evitar a quebra no 4/4. Daí eu achar que a tarefa contra Nadal pode ser bem complexa.

Quem vencer, terá pela frente David Goffin ou Grigor Dimitrov. Se o búlgaro era uma possibilidade, há uma certa surpresa com o bom desempenho do belga, ainda mais com as condições mais velozes em Melbourne. Para atingir sua segunda quartas de Slam – a outra foi em Paris no ano passado -, Goffin contou com a queda física e emocional de Dominic Thiem, que começou a cair de rendimento no final do segundo set e se perdeu completamente daí para a frente. Mais uma vez, o belga está com um pé no inédito top 10.

Dimitrov, por sua vez, vive seu primeiro grande momento desde o começo de 2015. E a prova evidente de que voltou a confiar em si mesmo foi a virada em cima de Denis Istomin, construída a partir da metade do segundo set, depois de salvar dois break-points que poderiam fazer o jogo ir embora. Têm mantido um percentual muito bom de primeiros serviços – 73% nos dois últimos jogos – e principalmente de pontos com ele, acima de 80%. Não por acaso, é outro tenista que se adapta bem às condições mais velozes.

No feminino, vimos uma atuação muito instável de Serena Williams, completamente diferente do que vinha mostrando. Entrou fria, insegura, apressada, errando tudo. Fosse Barbora Strycova uma tenista mais experiente, não sei se a cabeça 2 sairia vitoriosa. Claro que se repetir os 46 erros não forçados diante de Johanna Konta, a coisa vai complicar. A britânica de 1,80m faz tudo direitinho e foi semi em Melbourne no ano passado.

O maior perigo para Serena, no entanto, pode ser o reencontro com Karolina Pliskova na semi, o que seria a reedição do US Open do ano passado em que a tcheca jogou demais. Depois do susto da rodada anterior, em que esteve a um passo da derrota, Pliskova passou fácil por Daria Gavrilova, ainda que tenha feito mais erros do que winners (30 a 27, sendo 12 aces). É favorita natural contra a veterana Mirjana Lucic, mas deve tomar cuidado com a bola reta e contraataques inteligentes da croata de 34 anos.

Primeiros semifinalistas
– Wawrinka e Tsonga farão o quarto duelo em Slam, mas o primeiro fora de Roland Garros. Suíço lidera por 2-1 nesse quesito e por 4-3 no geral. Fato bem curioso é que apenas o primeiro confronto, em 2007, não foi no saibro. O francês fez sua última semi na Austrália em 2010.
– A última vez que Federer cruzou com Misha Zverev foi um sonoro 6/0 e 6/0 na grama de Halle, em 2013. A única vez que o suíço perdeu para um tenista fora do top 40 na Austrália foi em sua estreia, em 2000.
– Contando com as quatro deste AusOpen, Zverev tem apenas 9 vitórias em Grand Slam diante das 311 do recordista Federer. O suíço tem quase 1.000 vitórias a mais na carreira em torneios de primeira linha: 1.084 contra 86.
– Federer tenta ampliar suas marcas para 13 semis na Austrália e 41 em Grand Slam. Aos 35 anos e 174 dias, também será o mais velho a chegar na penúltima rodada de um Slam desde Connors no US Open de 91, aos 39 anos e seis dias.
– Três das quatro mulheres em quadra nesta terça-feira jogam as quartas da Austrália pela primeira vez. Venus é a a única que foi mais longe, com vice em 2003. Ela enfrenta Pavlyuchenkova, 11 anos mais jovem. A americana lidera por 3 a 2 nos duelos, mas não se cruzam desde 2014.
– Surpresa da chave, Vandeweghe ganhou 2 dos 3 jogos contra Muguruza, porém perdeu o mais recente, em Cincinnati do ano passado.

Nadal mostra credenciais
Por José Nilton Dalcim
21 de janeiro de 2017 às 13:20

Se alguém tinha dúvidas sobre a força das pernas de Rafael Nadal, a exigente vitória desta madrugada em cima do garotão Alexander Zverev deixa claro que o espanhol está na ponta dos cascos. Embora não tenha feito uma exibição perfeita, Rafa mostrou muitas qualidades e avisou aos adversários de que é sim um candidato sério para atingir mais uma final do Australian Open.

Nadal começou um pouco defensivo demais e foi sufocado por Zverev até a metade do primeiro set. Aos poucos, baixou a bola e capitalizou erros. O alemão tem um tremendo arsenal. Saca muito, bate forte dos dois lados e faz boa transição à rede, mas também sente a quebra de ritmo e por vezes mostra perda de energia. Foi especialmente interessante notar que Nadal não jogou tão afastado da linha de base, muitas vezes apenas um passo, e em várias ocasiões vimos Zverev mais longe da base do que o próprio espanhol.

O jogo acabou decidido no quinto game do set final. Após troca de quebras, Zverev encarou game longo, teve quatro chances de confirmar e foi superado no terceiro break-point, vendo Rafa buscar bolas difíceis, sobrando no físico. Com as pernas privilegiadas, continuou em condições de usar o forehand dos mais variados pontos da quadra, o que é essencial no seu plano tático. Foi apenas uma questão de tempo até concluir a tarefa  e acabar com o incômodo jejum de derrotas no quinto set que vinha tendo. Assume então o favoritismo para o duelo contra Gael Monfils, outro atleta excepcional, sobre quem tem 12 a 2 e quatro vitórias seguidas desde 2012.

Quem passar, deve encarar Milos Raonic ou Roberto Bautista. O canadense, que está com média de 20 aces por jogo até agora, teve trabalho com Gilles Simon e precisa respeitar Bautista, uma vez que o espanhol vem melhorando a olhos vistos na quadra dura. Importante observar que Raonic cometeu 34 erros contra Simon quando exigido na base.

No jogo da madrugada local, Grigor Dimitrov atropelou no duelo de backhands simples com Richard Gasquet e chega às oitavas pelo segundo Slam consecutivo. Com bônus, já que vai encarar Denis Istomin, que não deixou a peteca cair e foi ganhar em mais um quinto set. Dominic Thiem avançou mas já pediu atendimento para dores no problemático ombro direito. Repetirá duelo do ano passado contra David Goffin, que corre por fora e foi mais longe do que se esperava. Ainda me parece menos provável que alguém deste setor da chave consiga superar o grupo de Raonic e Nadal.

Exceção ao passeio de Serena Williams e à vitória incrivelmente fácil de Johanna Konta sobre Carol Wozniacki, a rodada feminina foi incrivelmente intensa. Duelo palmo a palmo na bela vitória de Ekaterina Makarova sobre Dominika Cibulkova, reação notável da veterana Mirjana Lucic e sufoco total para Karolina Pliskova, que só sobreviveu a 2/5 no terceiro set por conta da menor experiência da menina Jelena Ostapenko.

Para delírio local, Daria Gavrilova levou a bandeira australiana uma rodada mais longe. Russa de origem e criação, Daria assumiu cidadania australiana depois que passou a namorar com Luke Saville e hoje tem no time uma treinadora de cada país. Aos 22 anos, sobra simpatia e garra, e assim ninguém parece se importar muito com a naturalização.

Rumo às quartas
– Federer tenta atingir a 49ª quartas de Slam de sua espetacular carreira. Isso é mais do que a quantidade de Slam que Murray ou Wawrinka disputaram até hoje.
– Será o sétimo confronto com Nishikori, com 4-2 para o suíço, incluindo os três últimos. Eles não se cruzaram em 2016.
– A distância entre Murray e Mischa Zverev é abismal. Enquanto o escocês tem 179 vitórias de Slam, o alemão chegou agora a 8. No geral da carreira, são 637 contra 85. Sem falar que Mischa só venceu até hoje uma partida no quinto set.
– O duelo entre Wawrinka e Seppi já teve 11 capítulos, com apenas três vitórias do italiano, que nunca passou das oitavas em um Slam. No entanto, não dá para esquecer a notável vitória em cima de Federer em Melbourne-2015.
– Evans enfrenta Tsonga e Grã-Bretanha pode ter dois nomes nas quartas de um Slam pela primeira vez deste Henman e Rusedski em Wimbledon-97.
– A experiência joga ao lado de Kerber, Kuznetsova e Venus. A alemã precisa tomar cuidado com Vandeweghe, saque forte e embalada. Sveta faz duelo russo com Pavlyuchenkova, outra que bate muito na bola e acabou de ganhar da compatriota em Sydney. Já Venus pega a quali Barthel, em jogo que não deve ter trocas de bola. Muguruza enfrenta Cirstea pela primeira vez.

Esforço desnecessário
Por José Nilton Dalcim
15 de novembro de 2016 às 20:42

Novak Djokovic subiu alguns degraus técnicos em relação à estreia de dois dias atrás por um set e meio. Até então, não tinha sido nada fácil ter paciência e aguardar chances diante do saque devastador de Milos Raonic, mas ele estava firme e esperto. Mas aí, com o jogo na mão, falhou duas vezes no saque e foi sofrer em outro tiebreak, tendo de salvar set-point e tudo. A rigor, ganhou por quatro pontos.

Raonic fez 3-1 no primeiro tiebreak e 2-0 no segundo, mas justamente nessas horas cruciais o primeiro saque não ajudou. Será que o histórico de 7 a 0 atrapalhou? Antes disso, teve um set-point no 11º game e um forehand na rede impediu para desespero de Carlos Moyá. Do lado de Nole, muito importante ele ter mantido os nervos no lugar, mesmo com momentos ruins, como duplas faltas e bolas bobas na rede. No geral, no entanto, foi uma exibição mais animadora.

Mesmo sem ter recuperado seu melhor jogo, ele já é o primeiro classificado para as semifinais em Londres e como primeiro do grupo, ratificando a lógica esperada. É bom lembrar que desde seu primeiro título na arena O2, em 2012, ele só perdeu uma partida. É um retrospecto extraordinário num torneio que reúne a elite do esporte.

Thiem passa Nadal e sonha
A primeira vitória como estreante no Finals tem de ser duplamente comemorada pelo austríaco Dominic Thiem. Manteve a esperança de atingir a semifinal, o que seria um resultado espetacular, e ao mesmo tempo garantiu a volta ao oitavo lugar do ranking, superando Rafael Nadal. O jogo contra Gael Monfils foi de altos e baixos dos dois lados, mas o francês de novo exagerou no malabarismo e ainda pareceu sentir o problemático joelho.

Com a derrota de Raonic, ele e Thiem vão decidir a segunda vaga do grupo em confronto direto na quinta-feira. Os dois duelaram no piso rápido de Cincinnati, três meses atrás, e o canadense ganhou sem sustos. É o favorito. Se confirmar o favoritismo e for o primeiro da outra chave, Murray vai gostar, porque venceu Raonic nos sete últimos duelos desde março de 2014.

Por falar em Murray, ele tem jogo importante contra Kei Nishikori às 12 horas e assim como Djokovic pode garantir logo o primeiro lugar do grupo caso Marin Cilic vença Stan Wawrinka à noite. Se isso acontecer, aumenta exponencialmente a chance de vermos o escocês e o sérvio decidindo o título e o número 1 no domingo. É tudo que o tênis precisa.

Bruno quase lá
Com nova vitória por 2 sets a 0, e esta com sabor especial por ser em cima dos poderosos irmãos Bryan, Bruno Soares e Jamie Murray estão com um passo e meio na semi do Finals. Eles só precisam ganhar seis games no último jogo contra Marcelo Melo e Ivan Dodig, que reagiram muito bem e tiveram vitória convincente em cima de Treat Huey/Max Mirnyi, estes agora com chance retórica de classificação.

Será interessante ver qual a ordem dos jogos da quinta-feira. Se os mineiros duelarem antes dos Bryan, Melo terá de jogar pela vitória por 2 sets a 0 com placar folgado, e depois torcer contra os norte-americanos, porque levam desvantagem. No caso de ‘set average’ igual, prevalece o confronto direto. Se ainda for para o ‘game average’, os números dos Bryan já é superior ao de Melo/Dodig. Aquele ‘pneu’ na estreia custou caro.

Importante dizer que até aqui Bruno e Jamie estão distantes dos demais. Mostram-se soltos, muita eficiência no saque e aplicados nas devoluções. Com a derrota dos franceses e dos espanhóis na estreia do outro grupo, um deles pode ficar em segundo lugar e ser perigoso adversário na semifinal.