Arquivo da tag: Fernando Meligeni

Bendito saibro
Por José Nilton Dalcim
12 de abril de 2017 às 22:40

O circuito se muda de vez para as quadras de terra e a expectativa de que vitórias brasileiras se avolumem fica bem maior a partir de agora. Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro venceram em Houston e têm boa chance de ir às quartas. Rogerinho Silva deixou escapar no terceiro set.

Ao derrotar com ampla superioridade o também canhoto Donald Young, que nunca foi grande coisa na terra batida, Thiago conquista sua 13ª vitória em nível ATP. É interessante observar que 10 desses resultados vieram sobre top 100, sendo quatro contra top 50 e dois diante de top 30. Todos esses triunfos foram sobre o saibro. Na quadra dura, sua marca são oito derrotas.

Bellucci teve altos e baixos diante do promissor Frances Tiafoe, que também gosta mais da quadra dura e deu muito trabalho a Roger Federer em Miami. Com a vitória de hoje, Bellucci se torna o terceiro brasileiro com maior número de vitórias em primeiro nível da Era Profissional, com 192, deixando Luiz Mattar para trás. Logo à frente está Fernando Meligeni, com 202. O lider absoluto é Guga Kuerten e suas 358.

O ‘Saiba Mais’ de TenisBrasil desta semana traz dados curiosos. Do montante de vitórias dos três líderes, Guga teve 50% no saibro e 41% no sintético; Meligeni, 79% na terra e 19% no sintético; Bellucci está agora com 62% no saibro e 34% na dura.

Um item relevante são os tiebreaks. Bellucci está com 99 vencidos e 51,6% de aproveitamento, ligeiramente inferior aos 52% que Guga e Mattar tiveram na carreira. Índice que Bellucci precisa melhorar são as vitórias no terceiro set. Hoje foi a 72ª, mas tem 76 derrotas e portanto 48,6% de eficiência. Como comparativo, Guga chegou a 62%; Mattar, a 55%; e Meligeni, a 49,6%.

Challengers
Algo que passou despercebido mas que merece registro é que Rogerinho Silva, campeão no Panamá no sábado, chegou a 284 vitórias em torneios de nível challenger, o que o coloca no nono lugar em toda a história da ATP para este nível de torneio. Apenas seis tenistas superaram até agora a marca de 300 triunfos.

No ano passado, Rogerinho ganhou 50 jogos de challenger, terceira melhor marca de todos os tempos. O recordista é Carlos Berlocq, com 57.

André Sá ocupa o quarto lugar em títulos de duplas, com 34, atrás dos 37 do aposentado Rik de Voest e dos 43 dos irmãos Ratiwatana.

Acho que vale a pena conferir as estatísticas do tênis brasileiro no Saiba Mais. Clique aqui.

Um iceberg no Rio
Por José Nilton Dalcim
24 de fevereiro de 2017 às 23:08

Muito mais que a qualidade de saque e a ousadia do forehand, o que me deixou de queixo caído foi a frieza do garoto Casper Ruud. Ele deu uma de convidado trapalhão e estragou a festa brasileira no Rio Open. Não deu a menor bola para o apoio maciço da torcida e jogou como um veterano diante de Thiago Monteiro. Seu tiebreak, diga-se, foi um espetáculo para quem tem apenas 18 anos de idade, 23 futures, sete challengers e agora cinco ATPs no pequeno currículo.

Claro que muito desse desempenho teve a contribuição de outro início muito irregular do canhoto cearense, bem parecido com o que aconteceu na estreia diante de Gastão Elias. A diferença é que Ruud manteve a produtividade no saque o tempo inteiro, não permitindo sequer um 40-40 a Monteiro, mesmo jogando atrás do placar no segundo set. O brasileiro melhorou muito quando calibrou o saque, porém foi incapaz de achar um jeito de devolver o serviço. Na hora da pressão de um tiebreak, a tranquilidade de Ruud assombrou. O apressado e afoito foi Monteiro. Que coisa.

Antes de o Rio Open começar, me perguntaram quais os predicados principais de Ruud, que recebeu convite por ser contratado da agência IMG, a dona do torneio. E a resposta agora está bem clara. Ainda não tem um jogo excepcional, porque o backhand não é consistente, mas a parte mental é um elemento de primeira. Fico a imaginar se Nick Kyrgios tivesse esse mesmo juízo…

Thiago fez um torneio abaixo do que apresentou em Buenos Aires na semana passada, acredito que muito pela pressão natural de competir em casa. Ele no entanto precisa agora se focar no Brasil Open, porque está com uma enorme possibilidade diante de si. Nesta segunda-feira, aparecerá no 74º posto e, se obtiver 90 pontos de uma semi em São Paulo, irá beirar o top 60. E o que isso significa? Muito. Pode garantir por exemplo vaga direta em Monte Carlo e a condição de cabeça nos qualis de Madri e Roma. De qualquer forma, ele já tem a comemorar a vaga em Roland Garros e Wimbledon, assim como em Barcelona, Munique ou Estoril.

Monteiro subiu definitivamente de patamar e, embora isso seja um desafio muito maior do que já encarou, também é o lugar onde todo tenista sonha atingir. Nunca é demais lembrar que ele tem apenas 22 anos e nem completou ainda uma temporada inteira no primeiro nível.

Adeus, saibro?
Excelentes reportagens de Felipe Priante, publicadas hoje por TenisBrasil (clique aqui para ver), mostram que os promotores do Rio Open trabalham firme nos bastidores para trocar a quadra de saibro pelo piso sintético em 2019, quando vence o atual contrato da ATP com os torneios e algumas mudanças poderão ser realizadas. A ideia principal é atrair mais jogadores de peso, aproveitando a proximidade com Acapulco.

Como tudo na vida, há prós e contras. Até me surpreendi ao ver o apoio de Guga Kuerten e Fino Meligeni à ideia (leia aqui), imaginando que eles gostariam da preservação do circuito de saibro. Prova de que a vida é cíclica mesmo, Mas os dois acham que o provável uso do Parque Olímpico compensaria a perda. Acredito que os promotores do Rio economizarão pelo menos R$ 2 milhões em estrutura se acontecer a transferência, já que quase tudo no Jockey é montagem provisória. Lui Carvalho, diretor do torneio, não concorda comigo e acha que o gasto não diminuirá.

Respondendo – Sobre a dúvida levantada pelo Luiz Carlos de qual teria sido o brasileiro que mais enfrentou um tenista nacional em torneios de ATP, cheguei à conclusão que foi mesmo Luiz Mattar: ele fez 23 jogos contra compatriotas, tendo vencido 19 deles. Ele também protagoniza o duelo que mais se repetiu, com seis confrontos diante de Cássio Motta e placar de 4 a 2.

Momento histórico – O tênis brasileiro terá três representantes entre os 85 primeiros do ranking nesta segunda-feira, algo que não acontecia desde 23 de junho de 2003, quando Guga Kuerten era 13, Flávio Saretta apareceu no 60 e André Sá, no 84.

Federer em dúvida – Em entrevista dada ao New York Times, Roger Federer revelou que não conseguiu ainda treinar com 100% da capacidade devido à contusão que sofreu na perna em Melbourne. ‘Terei de ir com cautela’, afirmou sobre sua participação no ATP de Dubai, a partir de segunda-feira.

Pardal explica o novo Feijão
Por José Nilton Dalcim
13 de fevereiro de 2015 às 22:43

Se existe alguém nada surpreso com o sucesso de João Souza, o Feijão, é seu treinador de longa data, Ricardo Acioly, o Pardal. Os dois estão juntos há quase 10 anos, na mais antiga relação contínua do tênis profissional brasileiro desde Guga Kuerten e Larri Passos. Aliás, uma das raríssimas também de um treinador que se sujeita a pegar um juvenil, fazer a duríssima transição e depois levá-lo longe no profissional. Pardal, não devemos esquecer, ficou sete anos seguidos com Fernando Meligeni e o levou ao top 25.

“Se Feijão não tivesse se machucado justamente no Brasil Open do ano passado – sofreu a sempre chata contusão de abdome que o fez ficar totalmente parado por semanas -, 2014 já teria sido melhor do que foi. De fevereiro a maio, não pôde jogar”, pontua o treinador. Mas ele acha que o mal veio para o bem. “Foi nessa situação que Feijão mostrou seu amadurecimento. Mesmo com as dificuldades, começou a ter resultados legais”.

Mas o que afinal tem mudado no jogo e na cabeça de seu pupilo? Pardal me diz que muitas coisas interessantes:

Identificação do seu jogo – “Estamos no processo de resolver o quebra-cabeças que é o tênis, onde estão em interação técnica, tática, físico e mental. Estamos trabalhando nisso há algum tempo e agora Feijão está mais perto. O passo mais importante é que ele identificou o saque que tem, o forehand que possui, o backhand, a devolução. Ficou mais claro para ele entender suas maiores qualidades e minimizar as deficiências, e assim taticamente o jogo flui. Na parte física, ele também está melhor. Fez um ajuste consciente, passou a se alimentar melhor, buscar evolução em pequenos detalhes”.

Perder para si mesmo – “O mental é quem une tudo, a tática, a técnica, o físico. Quando se consegue amarrar bem tudo, você passa a perder menos para si mesmo. Tivemos muita conversa. É preciso entender que cada tenista tem seu relógio. Há um bom tempo Feijão mostrava que tinha jogo para o alto nível, faltava equilíbrio interno. Foi o que aconteceu no ano passado em nível challenger, quando ele viu que poderia jogar bem duas ou três semanas seguidas. Quando você faz 12 semis, 3 ou 4 finais, ganha um título, isso tudo não é à toa. Fez muito jogo duro, o que também mostrava estar fisicamente muito bem”.

Quem resolve é ele – “Por mais que você dê suporte, o melhor nutricionista, o melhor treinador… quem resolve é o jogador. O tênis é um processo de dentro para fora, jamais o contrário. Alguns demoram mais que os outros, é de novo a história de cada um ter seu próprio relógio. Feijão está atingindo esse autoconhecimento, então acredito que os próximos três ou quatro anos serão os seus melhores.

Dosar a força – “A diferença hoje é que Feijão está competindo muito bem. Quando voltamos da Austrália, tivemos uma conversa sobre aqueles jogos que ele fez. Perdeu duro do Seppi, do Sisjsling, teve 4/0 no segundo set contra o Dodig, venceu gente experiente como Jaziri e o Roger-Vasselin. No ano passado, eu já sabia que ele vivia um momento diferente. Só não foi bem no Challenger Finals porque havia muito expectativa, mas depois fez uma pré-temporada muito boa e incluí no planejamento para a Austrália jogar os maiores torneios que desse. Ele tinha que encarar os melhores. Nos treinos, ele ganhava de todo mundo, espanhol, americano. Um dia ele me disse ‘eles não batem nada na bola’ e eu respondi ‘você é que bate muito forte’ (rsrs)”.

Mexidas técnicas – “O backhand está mais sólido. Treinamos muito, mexendo o posicionamento. Foi o mesmo na devolução, mas isso pode melhorar ainda muito. Jogar duplas está ajudando a evolução da devolução, porém em simples é diferente e se torna necessário achar a sintonia certa de intensidade. Com tudo isso, ele se segura mais na quadra, sem passar do limite. Ele tem muita força. O pessoal fala muito do primeiro saque, mas o segundo serviço é muito bom, onde ele segura a onda muitas vezes”.

Detalhes curiosos que Felipe Priante me conta sobre o adversário deste sábado de Feijão nas semifinais do Ibirapuera: Luca Vanni, de 29 anos chegou para jogar o quali do torneio com raquetes Wilson do modelo novo, mas não estava se sentindo bem com elas e comprou duas Wilson do modelo antigo na lojinha do ginásio. Quando furou o quali, comprou mais uma. Orgulhoso por ter finalmente permitido que sua mãe o visse jogar ao vivo na TV, ele ganhará neste sábado outro presente: o site da ATP promete finalmente completar os dados de seu currículo, que até hoje não tinha mais do que data e país de nascimento.