Arquivo da tag: David Goffin

Goffin enfim sobe um degrau
Por José Nilton Dalcim
21 de abril de 2017 às 17:25

Quando David Goffin chamou a atenção do circuito, ainda em 2014, a aposta é que ele seria um saibrista para incomodar os grandes. Nunca conseguiu. O máximo que fez foram quartas em Roma, em 2014 e 2015, tendo sucesso bem maior nas semis de Indian Wells e Miami do ano passado. Incrivelmente, jamais ganhou de um cabeça de chave sequer em Roland Garros, ainda que tenha chegado uma vez nas quartas.

A vitória sobre Novak Djokovic desta sexta-feira talvez seja a melhor coisa que aconteceu em sua carreira. Nem tanto pelo resultado, mas por sua postura em quadra. Depois do primeiro set sonolento do adversário, viu que não conseguiria mais competir com Nole nas trocas de bola. Dominado até o 0/2 do terceiro set, soltou o braço, arriscou paralelas, pegou bolas na subida, desafiou o backhand do sérvio. Virou outro tenista, compenetrado, agressivo, eficiente.

Esse terceiro set aliás foi tecnicamente um dos melhores da temporada. E isso ameniza, ainda que não conforte, a nova queda inesperada de Djokovic. Ele não jogou mal, manteve-se sereno e lutador o tempo todo, buscou alternativas. O saque salvador o abandonou nas horas mais delicadas. Claro que derrotas não ajudam na confiança, mas Monte Carlo mostrou um Djokovic bem mais leve de cabeça e pernas.

Se mantiver o espírito e a coragem, Goffin tem uma chance contra Rafa Nadal, ainda é claro que o espanhol seja o favorito natural. O eneacampeão mostrou fragilidades quando atacado por Diego Schwartzman, outro que acreditou numa tática ousada e teve momentos espetaculares, mesmo na lentidão do saibro noturno que favorece tanto as defesas do canhoto espanhol. Observe-se que houve 10 quebras em 20 games disputados e que Schwartzman ganhou 65% das trocas mais longas.

Livre de Djokovic, Rafa vislumbra outro momento histórico na carreira. Melhor ainda, pode encostar em Roger Federer no ranking da temporada e também terá direito a sonhar com uma volta ao número 1 lá no fim do calendário. Ainda mais com os dois líderes de hoje tão irregulares.

Renovando o saibro
A outra semifinal é totalmente inédita em torneios desse quilate: Lucas Pouille, 17º do ranking aos 23 anos, e o canhoto Albert Ramos, 24º da lista e seis anos mais velho. Claro que os dois aproveitam o buraco deixado por Andy Murray, Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga, porém não é nada ruim para o circuito ver rostos novos em alto nível logo na abertura da temporada de saibro.

Ramos merece especiais elogios. Sem um tênis vistoso ou golpes espetaculares, faz o feijão com arroz e se empenha ao máximo. Conseguiu duas reações seguidas, a primeira aquela incrível virada em cima de Murray saindo de 0/4 no terceiro set, a outra em cima do experiente Marin Cilic, que fez 2/0 no set decisivo desta sexta-feira.

Por muito pouco, não teríamos a repetição da final do Brasil Open em plena semi de Monte Carlo. O ‘trintão’ Pablo Cuevas teve a vitória nas mãos, mas aí parece ter duvidado de si mesmo quando teve saque e 5/4. Não ganhou mais games, desperdiçando ainda um break-point bobo no 5/5.

Tenista com grande capacidade técnica e por isso mesmo muita variação, Pouille precisa pagar uns três meses de curso intensivo com Rafa para desenvolver o que mais lhe falta: a melhor escolha de golpes. Daí tenho certeza de que dará outro salto grande na carreira.
Aliás, uma eventual presença na final o deixará a 220 pontos do top 10, que provisoriamente volta a ser ocupado pelo próprio Goffin.

P.S.: Neste momento, cinco dos 10 primeiros colocados no ranking da temporada têm no máximo 26 anos. E olha que nessa lista não estão Pouille, Nick Kyrgios e Alexander Zverev. Será que 2017 marcará uma virada no tênis masculino?

Brasil cruza os dedos
Por José Nilton Dalcim
9 de abril de 2017 às 12:50

Com a vitória deste final de semana no saibro equatoriano, o Brasil tentará retornar à elite da Copa Davis, onde esteve por duas vezes nos últimos quatro anos. Como sempre, jogar em casa será fundamental e a chance de isso acontecer é muito boa: passa dos 56%.

O regulamento da Davis determina que o país-sede de um confronto será sempre aquele que foi visitante no duelo anterior, retroagindo até 1972. Se o duelo for mais antigo ou se nunca aconteceu, um sorteio define o mando.

Assim, o Brasil jogará em casa se enfrentar Argentina, Suíça, República Tcheca e Alemanha, com chance ainda se der Japão. Como nunca encaramos os nipônicos, a definição da sede seria em outro sorteio. Esse é obviamente o quadro mais favorável porque, além de poder optar por um saibro lento tão depois do US Open, os adversários dificilmente trarão sua força máxima.

Assim, os suíços parecem uma ótima alternativa. Roger Federer está fora da Davis e Stan Wawrinka só arriscaria vir se perdesse muito cedo no US Open e tivesse um gigantesco espírito nacionalista. Neste ano, contra os EUA, escalaram Marco Chiudinelli e Henri Laaksonen e só ganharam um set. Os tchecos também são interessantes. Não devem ter Tomas Berdych, Radek Stepanek se recupera de cirurgia e o único top 150 é Jiri Vesely.

Como festa, certamente Argentina e Alemanha seriam interessantes. Também acho difícil Juan Martin del Potro vir ao saibro, mas os hermanos têm muitas opções ainda que conheçamos bem Guido Pella, Carlos Berlocq e Leo Mayer. A Alemanha poderia escalar Alexander Zverev e Philipp Kohlschreiber, que seriam grandes atrações por aqui. O Japão é sempre um convidado especial no Brasil, porém acho muito pouco provável que Kei Nishikori venha. Ainda assim, Yoshihito Nishioka e Taro Daniel podem proporcionar jogos duros.

Como visitante, o Brasil teria pouca chance porque Croácia, Canadá, Rússia e mesmo Japão certamente escolheriam pisos bem velozes e poderiam contar com suas estrelas. Mesmo sem qualquer top 20, os russos tem um grupo forte com Karen Khachanov, Daniil Medvedev, Andrey Kuznetsov e até o velho Mikhail Youzhny.

Nos jogos do Equador, Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro sentiram a dificuldade de jogar em grande altitude, já que a bola escapa demais. AInda encontraram um piso um tanto irregular. Bellucci deu um susto na sexta-feira, deixando escapar 2 a 0 e uma quebra contra Emilio Gomez, que chegou a ter 3/2 e saque no quinto set. A reação e vitória ajudou Monteiro a jogar mais tranquilo diante de um Roberto Quiroz que tirou tudo da altitude. A dupla, como se esperava, sobrou.

Além do Brasil, classificaram-se para a repescagem Portugal, Holanda e Belarus no Zonal Europeu; Índia, Cazaquistão e Nova Zelândia, no Asiático; e Colômbia na outra vaga do Zonal Americano. Desses todos, apenas Portugal e Colômbia jamais conseguiram chegar ao Grupo Mundial.

Semifinais interessantes
A França receberá a Sérvia e a Bélgica jogará em casa contra a Austrália nas semifinais do Grupo Mundial marcadas para o mesmo período da repescagem, ou seja, 15 a 17 de setembro. Duelos sem dúvida interessantes e com muito pouco favoritismo para qualquer lado.

Mesmo desfalcadíssima, a França atropelou os britânicos no saibro, o que reforça a imensa dependência que o time da Ilha tem em cima de Andy Murray. Com um grupo homogêneo, a Sérvia festejou a volta de Novak Djokovic e passou pela Espanha que não teve Rafa Nadal nem Roberto Bautista. Claro que as chances sérvias na semi dependem do tamanho do desgaste de Nole no US Open. Acredito que Yannick Noah optará por um saibro lento, já que tem mais opções.

Aliás, um saibro ainda mais lento deve ser a aposta da Bélgica em cima da Austrália, única forma de minimizar o fantástico serviço de Nick Kyrgios. Em grande momento, ele foi a sensação na vitória sobre os EUA, sem perder sets mas fazendo dois jogos bem duros, com direito a grandes reações. A cabeça do rapaz parece ter melhorado mesmo. Comandados por David Goffin, os belgas voltam à semi ao superar a Itália, que não pôde contar com Fabio Fognini.

Segundo maior campeão da Davis, a Austrália não disputa um título desde 2003, nos tempos áureos do agora capitão Lleyton Hewitt.

Ataque total
Por José Nilton Dalcim
28 de março de 2017 às 00:11

Roger Federer superou minhas expectativas. Nada conservador, mostrou mais uma habilidade na versão 2017: devoluções agressivas. Isso mesmo diante do saque pesado e profundo de Juan Martin del Potro. Foi a base essencial de uma vitória em dois sets.

A tática se mostrou especialmente inteligente, porque quando você ataca com frequência o segundo saque do adversário acaba interferindo no primeiro serviço dele, que naturalmente diminuiu o grau de risco para não ficar dependente.

O jogo foi melhor do que indica o placar, apesar de termos tido apenas sete pontos com pelo menos nove trocas. Mais ofensivo, Federer anotou quase o dobro de winners (29 a 15) e apenas um erro a mais (19 a 18), números que sustentam a diferença.

Delpo teve duas chances preciosas: quatro break-points que poderiam ter equilibrado o primeiro set no 9º game e outro que daria reação no 8º do segundo. E olha que teve segundos serviços de Federer e bola no forehand. Pena. Mas no geral, o suíço mereceu amplamente a vitória por ter sido bem mais consistente. Ganhou 11 dos 17 pontos que tentou junto à rede.

Federer reencontra agora Roberto Bautista, que perdeu todos os 12 sets já disputados em três pisos diferentes. Mas o espanhol tem se mostrado cada vez mais firme na quadra sintética, ainda mais se lenta, e fez um jogo bem divertido e elogiável contra Sam Querrey. Não pode ser menosprezado, apesar da falta de golpes contundentes. Quem passar, deve encarar Tomas Berdych, que enfrenta o incansável canhoto Adrian Mannarino.

Outra grande notícia do dia foi a vitória da nova geração em cima dos super-sacadores, jogos milimetricamente decididos em favor de Nick Kyrgios e Alexander Zverev em cima de Ivo Karlovic e John Isner. Além obviamente da parte técnica, fundamental destacar o controle emocional dos dois diante da sempre irritante frustração que é enfrentar os gigantões, que disparam saques indefensáveis e dão mínimo ritmo. Karlovic fez absurdos com o segundo serviço.

O garoto alemão tem uma tarefa mais difícil nas oitavas: pegar o embalado Stan Wawrinka, mas a seu favor está o histórico, já que derrotou o suíço no sintético coberto de St. Petersburgo em outubro, onde as condições eram mais velozes. Kyrgios pega um adversário radicalmente oposto a Karlovic, o belga David Goffin, que trabalha pouco com o saque e prefere correr lá na base. De uma forma oposta, será outro teste mental para o australiano.

A parte inferior da chave também faz nesta terça-feira seus quatro jogos de oitavas. Rafa Nadal conseguiu grande reação diante de Philipp Kohlschreiber, superando com bravura o ‘pneu’ inicial. Será amplo favorito diante do veterano Nicolas Mahut. Quem vencer pega um americano, Jack Sock ou Jared Donaldson. Difícil Nadal perder para qualquer um deles.

Kei Nishikori se desgastou muito diante de Fernando Verdasco e pega outro canhoto em sequência, o argentino Federico Delbonis, que é perigoso em dias inspirados. Fabio Fognini encara o renovado Donald Young, mais um canhoto, que parece jogar seu melhor nas quadras americanas. O japonês é o candidato natural do quadrante, mas… Alguém aposta?

O torneio feminino já atingiu as quartas de final e tem um misto de jogadoras com bom destaque temporada, como Venus Williams, Carol Wozniacki e Mirjina Lucic, e outras que estão devendo (e muito) e esperando oportunidade, como Angelique Kerber e Simona Halep.

A alemã recuperou o número 1 com uma única semi em 2017 e agora terá de encarar Venus, que de certa forma remete a Federer. A veterana de tantas batalhas está jogando um tênis primoroso, com golpes pesados mas toques sutis, muita perna e enorme coração. O duelo contra Sveta Kuznetsova empolgou.

No entanto também há espaço para surpresas. A canhota e grande duplista Lucie Safarova parece ter reencontrado seu jogo de simples. Karolina Pliskova corre por fora, sem holofotes, sempre perigosa. Tudo aberto.