Arquivo da tag: David Goffin

Velhos guerreiros
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2017 às 19:22

Nem Rafael Nadal, nem Novak Djokovic. O segundo dia de Roland Garros pertenceu a velhos guerreiros. O heróico Rogerinho Silva, o incansável David Ferrer, o resiliente Victor Estrella e até mesmo o elétrico Fabio Fognini deram um show no saibro francês e mostraram por que jogos de cinco sets são tão empolgantes.

Rogerinho merece destaque mais que especial. Entrou em quadra sem saber como conseguiria encarar o tênis vigoroso e agressivo de Mikhail Youzhny, vindo de torção feia no pé dias atrás. Foi dominado, reagiu e aí voltou a pisar em falso, em lance aliás parecido com Genebra. Até o russo achou que ele iria desistir após jogar muito mal três games, mas Youzhny não conhece esse garoto de 33 anos.

Nem mesmo quando encarou uma quebra logo no começo do quarto set Rogerinho amoleceu. Continuou brigando. Vieram dois match-points no serviço do adversário, dois games muito tensos e a partir do tiebreak foi o brasileiro quem mandou na partida. Fechou após esforço de 4h11 diante de um ex-top 10 com 10 ATPs no currículo. Que espetáculo. Pelo segundo Grand Slam consecutivo, ele marcou uma vitória. Para muitos, pode parecer pouco. Quem conhece sua trajetória, aplaude.

Ferrer vive um de seus piores momentos, beirando a aposentadoria. Mas como luta. Esteve duas vezes atrás do placar contra Donald Young e foi ganhar num set de 24 games, debaixo de garoa. Estrella, 36 anos, nem sequer é jogador de saibro. Anotou virada após dois sets atrás de Teimuraz Gabashvili. E Fognini arrastou multidão para a arquibancada no duelo de gerações diante de Frances Tiafoe. O quinto set diz tudo: 6/0, mil reclamações, palavrões e caretas depois. O público foi à loucura.

E sobre os favoritos? Rafa Nadal fez um segundo set instável contra Benoit Paire e deu sorte quando o francês teve break-point para 5/3. Claro que isso nada mudaria a história final do jogo, que foi um tanto sem graça depois que o francês passou a ter dores abdominais. Como provavelmente não será diferente o duelo contra Robin Haase.

Já a maior atenção na estreia de Nole estava na plateia, um tanto tímido. Andre Agassi foi cumprimentado até por Boris Becker e conversou o tempo todo com o irmão Marko. Na quadra, o cabeça 2 segurou Marcel Granollers no fundo e isso deveria render uma vitória fulminante, mas vimos o sérvio perder cinco dos seus 14 games de serviço. Demonstrou estar irritado com os erros, pareceu reclamar até da camiseta do novo patrocinador. Talvez seja apenas a pressão da estreia. Talvez. Agora, vem João Sousa. Outro jogo que não pode ter sustos.

Longe dos holofotes, o belga David Goffin atropelou Paul-Henri Mathieu e os números chamam a atenção: 37 winners e apenas 10 erros nos três sets. Como eu previra, Fernando Verdasco está sendo um perigoso adversário para Alexander Zverev, que terá de ganhar mais dois sets na retomada desta terça-feira.

A chave feminina teve dois momentos importantes. A estreia exigente da campeã Garbiñe Muguruza, que se saiu muito bem diante de uma adversária que conhece muito bem a Philippe Chatrier. Ainda que cometesse falhas aqui ou ali, a espanhola achou os atalhos para superar Francesca Schiavone. A italiana aliás deu a entender que pode adiar a despedida das quadras para 2018.

Depois das lágrimas de Petra Kvitova, vieram as de Kiki Mladenovic. A mais tarimbada das francesas lutou até o fim apesar de sentir contusão na lombar e de ter ficado uma quebra atrás no terceiro set. Karolina Pliskova avançou contra a chinesa Saisai Zheng, em partida em que sacar valeu pouco.

E Bia Haddad? Pena que demorou a pegar o ritmo, o que deu larga vantagem para a experiente Elena Vesnina. Aos poucos, a canhota parou de ‘rifar’ as bolas, ficou mais consistente e aí deu trabalho à número 15 do ranking. Importante notar a diferença de bola dessas meninas tops: profundas, agressivas, sufocantes. Não é nada fácil jogar num nível tão alto e de tamanha intensidade. Assim, apesar da natural derrota, foi muito bom ver que Bia está bem encaminhada. Dá para acreditar que sua próxima vez em Roland Garros será bem diferente.

P.S.: Com as vitórias de Rogerinho e Thomaz Bellucci e o favoritismo de Thiago Monteiro sobre o convidado francês Alexandre Muller, o tênis brasileiro poderá ter três jogadores numa segunda rodada de Grand Slam pela primeira vez desde Wimbledon de 2003. E em Paris, desde 2002.

Nadal joga para ser o 1
Por José Nilton Dalcim
11 de maio de 2017 às 18:36

As quartas de final de Madri nesta sexta-feira diante de David Goffin são duplamente importantes para Rafael Nadal. Caso repita o resultado de Monte Carlo de três semanas atrás, o canhoto espanhol irá ultrapassar Roger Federer no ranking da temporada e assumir a liderança, consagrando-se com justiça como o tenista de melhor desempenho em 2017.

Federer estacionou em 4.045 pontos após Miami e Nadal atingirá 4.095 em caso de classificação para a semifinal. Como ainda tem Roma e Roland Garros pela frente, torneios em que é apontado como um dos grandes favoritos, Nadal pode encerrar a fase do saibro europeu perto dos 7 mil pontos acumulados desde janeiro e assim será o maior candidato à liderança do ranking ao fim da temporada. Que reviravolta, não?

Rafa nem precisou jogar seu melhor para despachar um desanimado Nick Kyrgios. O australiano fez jogadas espetaculares, mas se mostrou irregular o tempo todo e nem o saque funcionou. O dono do espetáculo foi mesmo o espanhol, que surpreendeu com uma tática de subir mais à rede. Além disso, pegou suas costumeiras ‘bolas impossíveis’ com extraordinária velocidade e competência.

O reencontro com Goffin é interessante. O belga também faz uma bela semana, mostrando algo que não se via com frequência: winners. Ele aliás optou por agressividade naquele notável começo de partida em Monte Carlo, encurralando Nadal até o árbitro estragar tudo. Em Madri, a bola anda mais e acredito que Nadal vai tentar também ser menos conservador. Tomara.

Aumenta ao mesmo tempo o clima para que tenhamos o 50º duelo entre Nadal e Novak Djokovic. O sérvio não poderia ter maior chance de concretizar sua volta por cima. O canhoto Feli López abusou dos slices e não foi mal, porém encontrou um Nole motivado, paciente e com ótima movimentação. Antes da semi, tem de passar por Kei Nishikori, sobre quem tem incríveis 11 a 2 e uma sequência de 10 vitórias desde a derrota no US Open de 2014. Vejam no entanto que coisa curiosa: nesse período, as duas vezes que Nishikori mais incomodou Djokovic foram no saibro de Roma e de Madri.

A parte de cima da chave indicará um finalista inédito em nível Masters e, deliciosamente, três nomes da nova geração concorrem à façanha. Alexander Zverev brilhou de novo e despachou outro nome de peso, Tomas Berdych, com muita personalidade. Terá pela frente um adversário muito mais experiente, o especialista na terra Pablo Cuevas, e tem tudo para vingar. Se o fizer, saltará para o 14º lugar do ranking, com chances portanto de ser um cabeça de chave de honra em Roland Garros.

Dominic Thiem fez o grande jogo da rodada e deu mais uma mostra de que seu tênis está amadurecendo. Grigor Dimitrov exigiu o máximo, liderou o terceiro set, chegou a cinco match points, e o que vimos? Um Thiem  concentrado, sem medo de tentar o golpe mais arriscado. No total sufoco, disparou ace a 220 km/h e acertou um forehand na paralela absolutamente incrível. É favorito contra Borna Coric, porque tem muito mais armas num piso que exige poder de decisão. Mas quem levou o duelo de Miami, poucas semanas atrás, foi o croata.

Na luta para reagir na carreira após a cirurgia no joelho direito de setembro, Coric escreveu mais um capítulo na terrível temporada de Andy Murray. Sua definição sobre a partida de duplo 6/3 merece um Oscar: ‘Tentei ser o mais chato possível, deixando para que Murray cometesse os erros’. Que jogo horrível. Que número 1 deplorável. A frase do escocês é de deixar de queixo caído: ‘As coisas podem mudar rapidamente, mas você precisa saber primeiro o que está acontecendo de errado para consertar depois’. Ou seja, ele nem sabe o que está errado!

Por falar em coisas fora do lugar, o circuito feminino está um pandemônio e Madri mostra isso com clareza. A maioria dos principais nomes do ranking está jogando mal ou reclama de contusão e problemas físicos. Simona Halep chegou na semi, mas quase ficou pelo caminho. A veterana Sveta Kuznetsova, que parecia a caminho da aposentadoria, voltou a ser uma força. Ninguém no entanto parece se firmar num momento em que Serena Williams se retirou da temporada. A maior novidade de Madri é a letã Anastasija Sevastova, que acabou de fazer 27 anos.

Goffin enfim sobe um degrau
Por José Nilton Dalcim
21 de abril de 2017 às 17:25

Quando David Goffin chamou a atenção do circuito, ainda em 2014, a aposta é que ele seria um saibrista para incomodar os grandes. Nunca conseguiu. O máximo que fez foram quartas em Roma, em 2014 e 2015, tendo sucesso bem maior nas semis de Indian Wells e Miami do ano passado. Incrivelmente, jamais ganhou de um cabeça de chave sequer em Roland Garros, ainda que tenha chegado uma vez nas quartas.

A vitória sobre Novak Djokovic desta sexta-feira talvez seja a melhor coisa que aconteceu em sua carreira. Nem tanto pelo resultado, mas por sua postura em quadra. Depois do primeiro set sonolento do adversário, viu que não conseguiria mais competir com Nole nas trocas de bola. Dominado até o 0/2 do terceiro set, soltou o braço, arriscou paralelas, pegou bolas na subida, desafiou o backhand do sérvio. Virou outro tenista, compenetrado, agressivo, eficiente.

Esse terceiro set aliás foi tecnicamente um dos melhores da temporada. E isso ameniza, ainda que não conforte, a nova queda inesperada de Djokovic. Ele não jogou mal, manteve-se sereno e lutador o tempo todo, buscou alternativas. O saque salvador o abandonou nas horas mais delicadas. Claro que derrotas não ajudam na confiança, mas Monte Carlo mostrou um Djokovic bem mais leve de cabeça e pernas.

Se mantiver o espírito e a coragem, Goffin tem uma chance contra Rafa Nadal, ainda é claro que o espanhol seja o favorito natural. O eneacampeão mostrou fragilidades quando atacado por Diego Schwartzman, outro que acreditou numa tática ousada e teve momentos espetaculares, mesmo na lentidão do saibro noturno que favorece tanto as defesas do canhoto espanhol. Observe-se que houve 10 quebras em 20 games disputados e que Schwartzman ganhou 65% das trocas mais longas.

Livre de Djokovic, Rafa vislumbra outro momento histórico na carreira. Melhor ainda, pode encostar em Roger Federer no ranking da temporada e também terá direito a sonhar com uma volta ao número 1 lá no fim do calendário. Ainda mais com os dois líderes de hoje tão irregulares.

Renovando o saibro
A outra semifinal é totalmente inédita em torneios desse quilate: Lucas Pouille, 17º do ranking aos 23 anos, e o canhoto Albert Ramos, 24º da lista e seis anos mais velho. Claro que os dois aproveitam o buraco deixado por Andy Murray, Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga, porém não é nada ruim para o circuito ver rostos novos em alto nível logo na abertura da temporada de saibro.

Ramos merece especiais elogios. Sem um tênis vistoso ou golpes espetaculares, faz o feijão com arroz e se empenha ao máximo. Conseguiu duas reações seguidas, a primeira aquela incrível virada em cima de Murray saindo de 0/4 no terceiro set, a outra em cima do experiente Marin Cilic, que fez 2/0 no set decisivo desta sexta-feira.

Por muito pouco, não teríamos a repetição da final do Brasil Open em plena semi de Monte Carlo. O ‘trintão’ Pablo Cuevas teve a vitória nas mãos, mas aí parece ter duvidado de si mesmo quando teve saque e 5/4. Não ganhou mais games, desperdiçando ainda um break-point bobo no 5/5.

Tenista com grande capacidade técnica e por isso mesmo muita variação, Pouille precisa pagar uns três meses de curso intensivo com Rafa para desenvolver o que mais lhe falta: a melhor escolha de golpes. Daí tenho certeza de que dará outro salto grande na carreira.
Aliás, uma eventual presença na final o deixará a 220 pontos do top 10, que provisoriamente volta a ser ocupado pelo próprio Goffin.

P.S.: Neste momento, cinco dos 10 primeiros colocados no ranking da temporada têm no máximo 26 anos. E olha que nessa lista não estão Pouille, Nick Kyrgios e Alexander Zverev. Será que 2017 marcará uma virada no tênis masculino?