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Frustração
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2017 às 22:45

Um desarranjo intestinal impediu que Nick Kyrgios se testasse diante do ‘novo’ Roger Federer. Que frustrante. O australiano de novo não consegue embalar e suas grandes vitórias sobre Novak Djokovic acabam ficando isoladas e perdem evidentemente um pouco do impacto.

Federer não pode reclamar, porque ainda por cima ganhou um dia de descanso, um privilégio se imaginarmos que ele teria de jogar em pleno sol do meio-dia local. Melhor ainda, seu adversário não será Kei Nishikori, mas Jack Sock. O americano de 24 anos chega a sua primeira semifinal de nível Masters com vitória novamente em três sets – a terceira seguida no torneio – diante de um Nishikori de tremendos altos e baixos e um terceiro set muito mal disputado. Não parecia alguém que vai ser outra vez top 4 na segunda-feira.

Nos dois jogos que fizeram em 2015, ambos em quadra dura, Federer ganhou sem maiores dificuldades de Sock, sem dúvida um norte-americano do genuíno tênis moderno. Tem o jogo totalmente moldado para o fundo de quadra, com bom saque e incursões esporádicas à rede, além de ótimo físico. Mas é um tanto instável, comete por vezes falhas bisonhas e mentalmente flutua em momentos de muita pressão. Então é bem provável que, se jogar seu melhor tênis, o suíço dificilmente vai perder sets.

As semifinais de Indian Wells serão assim um autêntico duelo de gerações. Stan Wawrinka já passou por dois ‘novatos’, ambos com grande esforço. A partida contra Dominic Thiem foi especialmente interessante, uma pancadaria danada, boas variações e lances bem bonitos. Stan mostrou muita perna e ganhou novamente nos mínimos detalhes, como havia acontecido diante de Yoshihito Nishioka na véspera.

Por suas conhecidas oscilações, o favoritismo natural do suíço contra Pablo Carreño necessita de cuidados. O espanhol tem jogado cada vez melhor no piso duro e, se aguentar com paciência as bolas pesadas de Wawrinka, pode obter dividendos. Carreño, de 25 anos, faz de longe sua maior campanha em Masters e também na quadra sintética. Com isso será enfim top 20 na segunda-feira, marcando mais uma renovação no ranking de 2017.

Incrível vermos que Stan, com toda a qualidade que tem, chegou apenas a três finais de nível Masters, todas no saibro, com um único título em Monte Carlo.

A rodada foi completada com uma virada de respeito de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot sobre a forte parceria formada por Bruno Soares e o britânico Jamie Murray. Jogo bem parelho, mas até a metade do segundo set parecia que a coisa estava mais para Bruno. Bastou um game de ótimas devoluções para mudar tudo e Melo/Kubot jogaram um tiebreak muito confiante. Uma final de grande quilate parece ser tudo o que a dupla precisava para se firmar de vez.

Para mostrar a importância dessa campanha, o eventual título no sábado à noite em cima de Raven Klaasen/Rajeev Ram irá colocar Melo e Kubot como vice-líderes no ranking da temporada, completando um salto de 18 posições.

A casa caiu
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2017 às 12:04

Se a derrota de Novak Djokovic para Sam Querrey em Wimbledon foi um susto para o circuito, o que dizer então do fim de sua gigantesca soberania em Melbourne diante de um adversário que nem é top 100, em plena segunda rodada? Difícil até acreditar.

Djokovic não perdia tão cedo num Slam desde Wimbledon de 2008 e jamais havia sido superado por um adversário fora do top 100 em Slam. Na Austrália, a sensação de vazio é ainda maior. Nole vinha chegando pelo menos às quartas nos últimos nove anos, tendo ganhado cinco das seis edições mais recentes.

Tudo seria apenas um acidente de percurso tão natural no tênis não fosse a longa sequência de altos e baixos que Nole mostra desde Roland Garros do ano passado. Houve é certo o vice no US Open, no Finals e o título em Toronto, mas também decepções grandes. Isso custou a liderança do ranking, que agora fica bem mais distante. O recente título em Doha em cima de Andy Murray sinalizou a recuperação da confiança, mas é certo que viria pressão em Melbourne.

O que talvez mais me tenha surpreendido nessa derrota para Istomin tenha sido a queda nos dois tiebreaks, momentos em que Djokovic costuma impor sua agressividade e enorme poder mental. Ainda mais o primeiro desempate, em que o sérvio vinha de recuperação no set e chegou a ter 4-1 e depois um set-point fácil. Também é notável que tenha permitido a virada após ter 2 sets a 1. O que teria faltado? Achei que ele ficou passivo demais em alguns pontos importantes.

O uzbeque, acima de tudo, merece todos elogios. O ex-33 do ranking usou bem o saque na quadra veloz, mostrou vigor físico para aguentar as trocas e pareceu confiar o tempo todo, apesar das cinco derrotas que já havia sofrido. Assim, raramente deixou de arriscar, tentou ganhar cada ponto, mesmo sob tensão.

Uma coisa é certa. A queda tão precoce de Djoko anima todo mundo. Principalmente quem estava do seu lado da chave, como Rafa Nadal e Milos Raonic. E também Murray, que amargou tantos dissabores em Melbourne frente a Nole. O canhoto espanhol passeou diante de Marcos Baghdatis, em jogo em que impôs as trocas de bola e mostrou forehand e pernas impecáveis, e Raonic fez o básico em cima de Gilles Muller. Agora vem o tão aguardado reencontro entre Nadal e Alexander Zverev. Aí a coisa deve pegar fogo.

A chave feminina também assistiu uma surpresa das grandes, com a queda de Aga Radwanska para a veterana Mirjana Lucic em dois rápidos sets. A croata não vencia um jogo sequer em Melbourne desde 1998, amargando sete derrotas na estreia. Mas já fez uma semi em Wimbledon, o que mostra sua boa adaptação a pisos mais velozes.

Destaque também para a atuação muito firme de Serena Williams diante da canhota e habilidosa Lucie Safarova, com direito a 15 aces, muita vibração e elogios à tcheca. Interessante está o quadrante que agora reúne Cibulkova x Makarova e Wozniacki x Konta. Em cima, Karolina Pliskova desfilou, mas pode ter sufoco contra Daria Gavrilova nas oitavas.

Para finalizar o dia cheio de surpresas, os campeões Bruno Soares e Jamie Murray se despediram na estreia para a improvável parceria de Sam Querrey e Donald Young. Como André Sá também perdeu ao lado de Leander Paes – em jogo que deveriam ter vencido -, apenas Marcelo Melo, com Lukasz Kubot, e Marcelo Demoliner, ao lado de Marcus Daniell seguem adiante.

A próxima rodada já determina os primeiros classificados para as oitavas de final e traz duas expectativas principais: Murray estará recuperado do tornozelo para encarar Querrey e correr muito atrás da bola? Roger Federer terá pernas e confiança para conter a potência de Tomas Berdych? Também merecem atenção Tsonga-Sock e Wawrinka-Troicki, com favoritismo do francês e do suíço.

No feminino, interessante ver Angelique Kerber contra a outra Pliskova, o duelo de força entre Bouchard-Vandeweghe, as veteranas Kuznetsova-Jankovic. Estou de olho em Elina Svitolina…

Os meus melhores
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2016 às 10:23

Como faz há 16 anos, TenisBrasil lançou a pesquisa entre internautas e especialistas para indicar o que de melhor aconteceu na temporada 2016 e dar uns pitacos sobre o que pode acontecer no próximo ano. Quem ainda não votou, pode ver as questões e palpitar. Clique aqui.

Vou tentar agrupar os assuntos e dar meus palpites. O feito do ano é talvez a questão mais dividida, já que existem pelo menos três ótimas respostas. Eu ficarei com o título de Novak Djokovic em Roland Garros porque ele juntou todos os Grand Slam, algo realmente espetacular. E para equilibrar, colocaria a chegada de Andy Murray ao número 1 como a surpresa. Pela carga emocional que gerou, apontaria os Jogos Olímpicos como o melhor dos torneios.

Obviamente, Roger Federer foi quem fez mais falta ao circuito, ainda que tenha sido ausência parcial. E o mistério? Ah, a saída repentina de Rafa Nadal de Roland Garros rende hipóteses até hoje. Na parte negativa, destacaria a má conduta de Nick Kyrgios, que o impediu de chegar ao top 10, e a falta de resultados de Eugénie Bouchard. Das hipóteses difíceis de acontecer, talvez Stan Wawrinka chegar ao número 1 seja a mais curiosa.

E os destaques? Bom, eu já disse em outro artigo que Lucas Pouille e Elina Svitolina me chamaram a atenção pelo progresso técnico em 2016, mas Alexander Zverev e Karolina Pliskova são ótimos candidatos. E o russo Karen Khachanov é a minha revelação.

Na parte dos jogos, muitas boas alternativas. A ‘zebra’ para mim foi Roberto Bautista ganhar de Nole na quadra dura, o melhor jogo masculino Delpo x Nadal nos Jogos do Rio e o feminino, Kerber x Serena em Melbourne.

O ‘Melhores’ sempre coloca questões para se prever 2017, o que é bem legal. O que esperar de Federer? Acho que ele recuperará o nível, mas não vencerá Slam. Acredito que Murray e Djokovic vão se alternar na ponta a partir de maio e acho que Serena ainda tem a maior chance de terminar como número 1. Na questão sobre quem poderá ser um campeão inédito de Slam, vai mais um desejo do que uma aposta: Kyrgios.

O tênis brasileiro felizmente teve vários pontos altos e tanto a ascensão de Thiago Monteiro como os dois Slam de Bruno Soares são excelentes votos. Fico com o Bruno. A queda de Teliana Pereira foi o ponto negativo. Acho que Orlandinho Luz ainda é a melhor aposta e acredito piamente que Bia Haddad vá chegar enfim ao top 100.

Por fim, sabemos que falta de tudo para o tênis brasileiro, mas defendo a tese que, sem base, o tênis jamais crescerá. Portanto, investir pesado na formação e construir quadras públicas talvez sejam a maior garantia para que possamos pensar num futuro melhor.