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Big Game
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2017 às 13:04

Pode ser uma conclusão precipitada, mas já me parece que bastou o circuito acelerar um pouco mais a quadra e a bola para que o tênis virasse de cabeça para baixo. O Australian Open chega às quartas de final já sem os dois atuais campeões e os líderes do ranking, mostrando claramente que os estilos ofensivos estão se sobressaindo. Com exceção de Serena Williams – que sempre se deu muito bem em pisos mais velozes -, ficou bem mais difícil apostar em campeões.

Mischa Zverev conseguiu estarrecer o circuito masculino ainda mais do que Denis Istomin havia feito dias atrás. Não apenas porque tirou o número 1 Andy Murray, mas pela aposta num estilo semimorto. Canhoto sem golpes poderosos, fez o tradicional saque-voleio de forma impecável, aquilo que os australianos conhecem como ‘Big Game’ e que imortalizou a maioria dos seus jogadores. Atuar o tempo todo na rede significa mescla atordoante de voleios longos com toques sutis curtos, o que Mischa usou e abusou. E olha que do outro lado estava um dos mais competentes defensores da história do tênis.

Murray é claro teve sua parcela de culpa. Deixou escapar o primeiro set e sinalizou acreditar o tempo todo que poderia dominar a situação com paciência e regularidade. Mischa no entanto ganhou confiança e manteve-se fiel à tática de trocar ritmos e direções, optando muito bem pela paralela para subir à rede como manda qualquer manual decente de tênis. Foram 118 subidas, com 65 pontos de sucesso, quase a metade dos 146 que conseguiu na partida.

E agora vai realizar um outro sonho, segundo suas próprias palavras, porque terá a chance de encarar Roger Federer em plenas quartas de final de um Grand Slam. O suíço também simboliza com dignidade o tênis ofensivo, a ponto de ter disparado 83 winners em cima de Kei Nishikori, mais um representante da geração em que as pernas são o elemento essencial.

O maior elogio a Federer talvez resida na forma com que conseguiu superar o início horrível de partida. Elevou o nível, aprumou o saque e a devolução e nem mesmo a queda no tiebreak, onde Nishikori fez um grande trabalho, abateu o suíço. Ao contrário, vimos Federer crescer ao longo da partida e ser exigido em todos os campos pelo adversário, até mesmo no físico. E novamente o backhand apareceu como elemento importante. O cabeça 5 só baixou a guarda mesmo no quinto set, quando o desconforto no quadril ficou mais evidente.

Depois de quase sete meses de inatividade, Federer não deixa de ser a outra surpresa desde Australian Open. Claro que é um jogador de extraordinários recursos e experiência, porém recupera o melhor tênis a cada rodada e não dá sinais de queda física. Voltou a ser aquele Federer do saque milimétrico na hora apertada, dos voleios mágicos, do forehand rasante e mortal. Jogará as quartas de Slam pela 49ª vez ao derrotar um top 10 pela 200ª ocasião.

Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga dão promessa de grande jogo na terça-feira. O suíço tem mais currículo e adora jogar na Austrália, mas o novo piso pode ser aliado importante do francês, que tem explorado ao máximo esse fator. Não esperava que Stan tivesse tanta dificuldade contra Andreas Seppi. Não começou bem o jogo, depois reagiu e poderia ter fechado bem antes tanto o segundo como o terceiro sets. O italiano ainda teve set-point e liderou o tiebreak do terceiro set e aí se deve elogiar o sangue frio de Wawrinka.

Tsonga também sofreu no primeiro set diante do ascendente Daniel Evans, demorou para calibrar as devoluções mas daí em diante pouca chance deu ao britânico. Vem trabalhando bem com o primeiro saque ao longo do torneio e está consistente nos voleios, ainda que eu sempre ache que ele deveria tentar ir mais à rede. Cometeu apenas 29 erros nos quatro sets contra Evans, um índice expressivo para seu estilo.

A derrota precoce de Angelique Kerber também pode ser muito bem creditada às novas condições de Melbourne, que casam muito melhor com a força e o risco que CoCo Vandeweghe adota. Mas o fato é que a alemã veio tropeçando desde a primeira semana do ano sem mostrar sombra do tênis vistoso que vimos ao longo de 2016. Provavelmente, a defesa inédita do título e da liderança tenha pesado ainda mais em Melbourne.

O resultado disso são quartas de final malucas na parte de cima da chave. Coco vai enfrentar Garbine Muguruza em jogo que pode acontecer qualquer coisa e a veteraníssima Venus Williams ganha incrivelmente o direito de sonhar com uma nova final de Grand Slam, o que não acontece desde 2009, ainda que tenha a perigosa e também ofensiva Anastasia Pavlyuchenkova pela frente.

Completando as quartas
– Raonic é agora o mais alto cabeça vivo em Melbourne. Enfrenta Bautista, que só tirou um set dele em quatro duelos. O espanhol nunca passou das oitavas de um Slam em seis tentativas.
– Nadal tem o favoritismo natural contra Monfils, já que o francês só ganhou 2 dos 12 duelos e perdeu quatro seguidas desde 2014, incluindo uma derrota fulminante na Austrália desse ano em que só ganhou seis games. Além do mais, nunca bateu um top 10 em Melbourne.
– Espanhol busca 9ª presença nas quartas da Austrália e a 30º em Slam. Perdeu todos os últimos quatro duelos contra top 10 e não derrota um adversário desse nível em Grand Slam desde a final de Roland Garros de 2014.
– Istomin tenta estender seu sonho de verão contra Dimitrov e assim se tornar apenas o segundo convidado a ir tão longe no torneio desde Tomas Smid, em 1983. Só houve um duelo entre eles, com vitória de Dimitrov em 2014.
– Thiem e Goffin fazem duelo imprevisível. Goffin tem 4-3 nos duelos, mas Thiem leva 3-1 nos mais recentes. No ano passado, belga ganhou na Austrália e austríaco, em Paris. Na quadra dura, 2-1 para Goffin. Vale lembrar que Thiem já andou sentindo dores no ombro direito na última partida.
– Serena é favorita natural contra Strycova, embora as duas não se enfrentem há cinco anos. Será a primeira adversária dentro do top 50 da americana até aqui. Strycova na verdade é 16ª, tendo vitórias sobre Sharapova, Kerber e Muguruza.
– Pliskova e Gavrilova vêm de jogos duros. Australiana tem torcida e muita competência em distribuir a bola. Perdeu fácil os dois duelos já feitos contra tcheca.
– Konta ganhou as três contra Makarova e agora é esperança britânica na Austrália, onde curiosamente nasceu. Lucic e Brady fazem duelo inesperado. A americana veio do quali e é 116º. Lucic, de 34 anos, não ganhava jogo na Austrália desde 1998.

Como nos velhos tempos
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2017 às 12:32

A expressão facial de Tomas Berdych ao se dirigir para o cumprimento diz mais do que eu possa escrever neste Blog. Sobrancelha erguida e sorriso amarelo, foi um simples e objetivo ‘hoje não tinha jeito’. Exatamente isso. Roger Federer jogou como nos velhos tempos e, quando o faz com tamanha agressividade, soltura e precisão, é praticamente impossível fazer alguma coisa.

A vitória de Federer não me surpreende – havia dito que Berdych não anda jogando tanto assim -, mas admito que não esperava volume tão grande de jogo por parte do suíço, que sufocou o tcheco a maior parte do tempo. Foi cirúrgico nas quebras, extremamente eficiente com o saque a favor, alongou o forehand e novamente mostrou aquela melhoria no backhand que venho alertando desde a Copa Hopman. Foram 40 winners em 18 games, nove deles de backhand. O último game espelhou com perfeição: quatro bolas vencedoras dos mais variados tipos.

Ainda assim, Kei Nishikori é favorito para ir às quartas de final, o que não é de todo ruim para Federer. O japonês é muito mais consistente no fundo de quadra que Berdych e, se o jogo for à noite como é natural que seja, será mais difícil para o suíço atacar e evitar os contragolpes espertos de Nishikori. A maior chance parece residir no segundo saque pouco contundente do japonês.

Quem sobreviver, terá muito provavelmente Andy Murray pela frente. Sem qualquer sinal da torção sofrida no pé direito do jogo anterior, o escocês jogou como autêntico número 1 diante de Sam Querrey, mesclando excepcionais defesas com ataques fulminantes. Fez de tudo um pouco e só mesmo a quebra cedida no terceiro set prejudicou sua performance. Vai encarar agora o estilo agressivo do canhoto Mischa Zverev, que foi 66 vezes à rede contra Malek Jaziri.

Stan Wawrinka levou um susto no primeiro set, depois dominou Viktor Troicki mas voltou a ter perigosos altos e baixos no quarto set. Sacou duas vezes para o jogo e não aproveitou, um tanto ansioso. Repetiu a falha no tiebreak e aí teve de evitar set-point. Mas já nos acostumamos com essas ‘viajadas’ de Stan. Ele pega agora Andreas Seppi, a quem já enfrentou 15 vezes e somou 10 vitórias, porém não se cruzam há quase três anos.

A outra novidade da chave masculina é o britânico Daniel Evans, um tenista de 26 anos que só agora parece ter encontrado um padrão de jogo. Vale lembrar que ‘Evo’ teve match-point para eliminar Stan na terceira rodada do US Open. Sofreu uma contusão no pé que limitou seu fim de temporada, mas começou 2017 com vice em Sydney. Daí se entender a confiança para tirar Marin Cilic e Bernard Tomic na sequência deste AusOpen, com um tênis gostoso de se ver, em que mescla força e jeito e mostra boa mão com o backhand simples.

Se mantiver tal qualidade, deve ser bem divertido o duelo diante de Jo-Wilfried Tsonga. O francês teve mesmo um jogo duro contra Jack Sock, mas continua a se aproveitar bem da nova velocidade do piso-bola. Disparou mais 23 aces e mostrou ótimo preparo físico para aguentar três sets bem exigentes dos quatro que fez.

A rodada feminina foi acima da minha expectativa. Ótimos duelos, principalmente de Anastasia Pavlyuchenkova em cima de Elina Svitolina, mas também a batalha de 3h36 entre Sveta Kuznetsova e Jelena Jankovic. As duas russas se encaram e quem ganhar deve encarar a veteraníssima Venus Williams.

Duelo também intenso marcou a vitória de Coco Vandeweghe em cima de Eugénie Bouchard. A americana tem um ar um tanto arrogante e por isso mesmo pode dar trabalho à campeã Angelique Kerber. Quem enfim teve uma vitória tranquila foi Garbiñe Muguruza, favorita agora diante de Sorana Cirstea e um desafio para Kerber, já que ganhou os quatro últimos confrontos diretos.

Sábado quente
– Istomin tenta manter embalo e tem chances reais diante de Pablo Carreño. O uzbeque não ganha três jogos seguidos em nível ATP desde o título em Notthingham de 2015.
– Zverev busca quarta vitória seguida sobre um top 10 diante de Nadal. Além disso, será apenas a terceira vez na Era Profissional que dois irmãos chegam juntos às oitavas de um Slam (Gene e Sandy Mayer em Wimbledon-1979 e Emílio e Javier Sanchez no US Open-1991 foram os outros)
– E pode haver um terceiro alemão na quarta rodada, caso Kohlschreiber passe por Gael Monfils. Mas o francês tem 12-2 nos duelos, sendo 4 seguidos.
– Ainda com poucos holofotes sobre si, Raonic tenta quarta vitória em cinco jogos diante de Simon.
– Thiem x Paire e Gofin x Karlovic são duelos inéditos no circuito. Já Gasquet tem 5-1 em cima de Dimitrov e Ferrer, 2-0 sobre Bautista.
– Em chave agora tranquila, Serena volta a enfrentar Gibbs, 92ª do mundo, depois de cinco anos e fica de olho em Strycova, que é favorita sobre Garcia com cinco vitórias seguidas, três em 2016. No lado oposto deste setor da chave, Pliskova já deu dois ‘pneus’ e só cedeu quatro games. Enfrenta Ostapenko, de 19 anos e 38ª do ranking.

Sinal de alerta
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2017 às 12:08

Um número 1 machucado? Um supercampeão rebaixado? A campeã desgastada? O futuro jogado no lixo? A rodada desta quarta-feira do Australian Open gera uma série de alertas para agora e para o futuro.

Andy Murray fez uma apresentação irretocável, usando todos seus recursos como sempre gosta de fazer para atordoar os novatos, mas eis que um lance bobo pode tirar seu sono. Ele torceu o pé direito no começo do terceiro set, algo que não o impediu de completar a vitória sobre Andrey Rublev, mas que pode mudar de figura quando o corpo esfriar. Ainda mais que o adversário seguinte, Sam Querrey, é do tipo que exige máxima competência na defesa.

Apesar da vitória em três sets, Roger Federer não teve uma apresentação convincente diante do top 200 Noah Rubin e mostrou certa e natural dificuldade diante de um adversário de base consistente. Agora vem Tomas Berdych, cujas qualidades no saque e nos golpes de fundo são muito superiores do garoto americano. Federer vai ter de jogar melhor e não vacilar no serviço. Se perder, deixará o top 30 pela primeira vez desde outubro de 2000.

Há também evidente pressão em cima de Angelique Kerber, a aniversariante do dia. Nos dois jogos em que tinha todo o favoritismo, a alemã variou demais, perdeu a paciência e precisou correr muito além do necessário. Ainda não dá para dizer que corra riscos reais de derrota, porém a confiança pode diminuir na hora dos jogos realmente importantes.

Quem está definitivamente no sinal amarelo máximo é Nick Kyrgios. Não porque tenha levado uma virada e sido eliminado, mas pelo descontrole emocional inexplicável a partir da quebra sofrida no final do terceiro set. Entrou no buraco e deveria ter perdido muito antes de ter o direito a um match-point, muito bem jogado por Andreas Seppi. Pior ainda, vai para as entrevistas armado de mau humor e respostas afiadas, provocando todo mundo. Admitiu ter feito pré-temporada desleixada e que precisa de um treinador. Cada semana que passa, cada derrota sofrida só aumentam o descrédito.

Os destaques positivos da rodada masculina foram Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga. O campeão de 2014 disparou tiro por todos os lados e tem tudo para superar um Viktor Troicki que já fez 10 sets. Ainda por cima, se livrou de Kyrgios e pode ter Seppi ou Steve Darcis nas oitavas. Tsonga mostrou um tênis exuberante, agressivo, cirúrgico. Gosta mesmo de jogar na Austrália e o piso mais veloz cai como uma luva. Precisa tomar cuidado com Jack Sock. Quem passar terá Bernard Tomic ou o surpreendente Daniel Evans, que virou em cima de Maric Cilic, o primeiro top 10 a se despedir.

No feminino, agora já são nove das 16 cabeças do lado inferior da chave eliminadas ainda na segunda rodada. Kuznetsova, Jankovic e Venus são as veteranas que concorrem a uma semi. A campeã olímpica Puig parou no vigor da qualificada Mona Barthel e Garbine Muguruza ganhou mas confessou não estar com o físico em dia.

Curtas
– Não foi apenas Kyrgios quem levou virada e perdeu match-point. John Isner viveu script idêntico contra Mischa Zverev, em jogo de três tiebreaks e 9/7 no quinto set. O irmão mais velho de Alexander não ia tão longe num Slam desde Wimbledon de 2008.
– Fato curioso, Mischa admitiu depois que nem sabia que era match-point: “Estava 5/4 mas eu pensei que era 4/3″.
– Cilic garante que não conseguiu se preparar bem para 2017 por causa da decisão da Copa Davis, no final de novembro, e assim já coloca em dúvida sua presença no torneio por equipes. Foi exatamente esse motivo que determinou a ausência de Juan Martin del Potro em Melbourne.
– Murray atingiu a 178ª vitória de Slam na carreira e igualou o fenomenal Stefan Edberg. Está em oitavo lugar e terá de remar muito para ser o 7º homem a atingir 200 triunfos na Era Profissional.
– Aos 36 anos e fora do top 100, Victor Estrella pode ter feito seu 12º e último Slam. Daí deixar a quadra em lágrimas. Do alto de seu 1,73m, foi gigante e deu trabalho enorme a Tomic. O dominicano joga com alegria e isso faz falta no circuito.
– Nesta quinta, Djokovic é superfavorito diante de Istomin, 117º do ranking. A única derrota de Nole para um adversário fora do top 100 nos últimos sete anos foi aquela para Delpo no Rio.
– Nadal só perdeu 1 de 9 duelos contra Baghdatis (em 2010).
– Três bons jogos da nova geração marcam a programação: Thiem-Thompson, Zverev-Tiafoe e Dimitrov-Chung.
– Serena ganhou todos os 9 duelos contra Safarova, a rainha das viradas, o mais recente deles na final de Roland Garros de 2015.
– Rogerinho Silva tenta dois feitos inéditos: chegar na terceira fase de um Slam e entrar para o top 80 do ranking. O adversário é o incansável Gilles Simon. Jogo previsto para 23h30.
– É consenso entre os tenistas que o piso está mais rápido e que há grande diferença entre jogar de dia ou de noite neste AusOpen. Felizmente, o calor forte foi embora – na sexta-feira a máxima será de 20 graus – e só deve voltar no domingo.