Arquivo da tag: Angelique Kerber

Paris fica sem ‘final dos sonhos’
Por José Nilton Dalcim
26 de maio de 2017 às 17:23

Se o Australian Open teve uma final que caiu do céu, Roland Garros não terá a mesma sorte. Rafael Nadal e Novak Djokovic poderiam fazer um duelo histórico pelo título e por incríveis façanhas, mas o sorteio da chave determinou que o possível oitavo confronto entre eles em Paris aconteça numa eventual semifinal. Um tanto frustrante.

Favorito natural ao 10º título após sua grande campanha nas últimas semanas, Nadal ainda se favoreceu na formação da chave e é bem provável que não perca sequer sets nas cinco primeiras partidas diante de Benoit Paire, Robin Haase, Gilles Simon ou Roberto Bautista. Até mesmo as quartas não dão susto, seja Milos Raonic, Grigor Dimitrov ou Pablo Carreño.

Djokovic tem uma trajetória teoricamente mais delicada. Estreia tranquila diante de Marcel Granollers, depois Janko Tipsarevic ou João Sousa e talvez algum trabalho se Diego Schwartzmann avançar. Aí teria Lucas Pouille ou mais provavelmente Albert Ramos, que merece respeito. As quartas no entanto indicam o maior desafio, já que deve ser contra quem passar de Dominic Thiem e David Goffin.

A parte de cima ficou interessante, porque imprevisível. Ninguém aposta nada em Andy Murray, Del Potro e Kei Nishikori não estão 100%. Isso dá margem para Alexander Zverev ou Pablo Cuevas arrancarem para as quartas. O alemão tem estreia perigosa contra Fernando Verdasco e cruzaria com o uruguaio ainda na terceira fase.

Mesmo em momento preguiçoso, Stan Wawrinka poderia levar vantagem nisso tudo. Fabio Fognini está no seu caminho ainda na terceira rodada. Curioso é que os sacadores Marin Cilic, Jo-Wilfried Tsonga e Nick Kyrgios ficaram no mesmo quadrante e concorrem a uma vaga nas quartas. Quem tem o maior potencial para beliscar a final? Stan, é claro.

O Brasil
Os brasileiros não podem se queixar do sorteio. Fugir dos cabeças de chave já é um prêmio. Thiago Monteiro tem grande chance. Pega um convidado inexperiente e depois deve cruzar com Gael Monfils, que joga em casa mas vive temporada sofrível. Rogerinho Silva tem contra si a contusão de Genebra. Em condições normais, dá para tirar Mikhail Youzhny antes de Milos Raonic. Mais duro para Thomaz Bellucci porque Dusan Lajovic é um bom tenista. Se passar, deve pegar Lucas Pouille.

Bia Haddad Maia não perdeu set no qualificatório e novamente é o grande destaque nacional no saibro. Está jogando com confiança, soltando o saque e tendo paciência no fundo de quadra. Jogar enfim o primeiro Grand Slam é um prêmio digno para sua persistência, qualidade e simpatia.

A estreia será contra Elena Vesnina, 15 do ranking mas que tem sofrido derrota atrás de derrota desde Miami. Quem sabe, abra caminho para Bia ir bem longe.

Feminino
Desta vez, a chave feminina promete emoção desde as primeiras rodadas. Vinda de contusão, Angelique Kerber corre risco diante de Ekaterina Makarova na estreia. A atual campeã Garbiñe Muguruza também precisa se cuidar com a experiente Francesca Schiavone. E as duas favoritas estão no lado de cima da chave, o que pode abrir um buraco imenso para Carol Wozniacki, Sveta Kuznetsova, Dominika Cibulkova e até Kiki Mladenovic. Registre-se neste setor a confirmação do retorno de Petra Kvitova.

O outro lado tem muitas incógnitas. Karolina Pliskova é impaciente demais para o saibro, mas deu sorte e jogo duro só mesmo na terceira rodada. Aga Radwanska volta, mas fez um único jogo no saibro. Por isso, Simona Halep seria forte candidata à vaga na final, porém há dúvida sobre seu estado atlético. Fica então a expectativa por Elina Svitolina, que vem embalada pelo título em Roma.

Ataque total
Por José Nilton Dalcim
28 de março de 2017 às 00:11

Roger Federer superou minhas expectativas. Nada conservador, mostrou mais uma habilidade na versão 2017: devoluções agressivas. Isso mesmo diante do saque pesado e profundo de Juan Martin del Potro. Foi a base essencial de uma vitória em dois sets.

A tática se mostrou especialmente inteligente, porque quando você ataca com frequência o segundo saque do adversário acaba interferindo no primeiro serviço dele, que naturalmente diminuiu o grau de risco para não ficar dependente.

O jogo foi melhor do que indica o placar, apesar de termos tido apenas sete pontos com pelo menos nove trocas. Mais ofensivo, Federer anotou quase o dobro de winners (29 a 15) e apenas um erro a mais (19 a 18), números que sustentam a diferença.

Delpo teve duas chances preciosas: quatro break-points que poderiam ter equilibrado o primeiro set no 9º game e outro que daria reação no 8º do segundo. E olha que teve segundos serviços de Federer e bola no forehand. Pena. Mas no geral, o suíço mereceu amplamente a vitória por ter sido bem mais consistente. Ganhou 11 dos 17 pontos que tentou junto à rede.

Federer reencontra agora Roberto Bautista, que perdeu todos os 12 sets já disputados em três pisos diferentes. Mas o espanhol tem se mostrado cada vez mais firme na quadra sintética, ainda mais se lenta, e fez um jogo bem divertido e elogiável contra Sam Querrey. Não pode ser menosprezado, apesar da falta de golpes contundentes. Quem passar, deve encarar Tomas Berdych, que enfrenta o incansável canhoto Adrian Mannarino.

Outra grande notícia do dia foi a vitória da nova geração em cima dos super-sacadores, jogos milimetricamente decididos em favor de Nick Kyrgios e Alexander Zverev em cima de Ivo Karlovic e John Isner. Além obviamente da parte técnica, fundamental destacar o controle emocional dos dois diante da sempre irritante frustração que é enfrentar os gigantões, que disparam saques indefensáveis e dão mínimo ritmo. Karlovic fez absurdos com o segundo serviço.

O garoto alemão tem uma tarefa mais difícil nas oitavas: pegar o embalado Stan Wawrinka, mas a seu favor está o histórico, já que derrotou o suíço no sintético coberto de St. Petersburgo em outubro, onde as condições eram mais velozes. Kyrgios pega um adversário radicalmente oposto a Karlovic, o belga David Goffin, que trabalha pouco com o saque e prefere correr lá na base. De uma forma oposta, será outro teste mental para o australiano.

A parte inferior da chave também faz nesta terça-feira seus quatro jogos de oitavas. Rafa Nadal conseguiu grande reação diante de Philipp Kohlschreiber, superando com bravura o ‘pneu’ inicial. Será amplo favorito diante do veterano Nicolas Mahut. Quem vencer pega um americano, Jack Sock ou Jared Donaldson. Difícil Nadal perder para qualquer um deles.

Kei Nishikori se desgastou muito diante de Fernando Verdasco e pega outro canhoto em sequência, o argentino Federico Delbonis, que é perigoso em dias inspirados. Fabio Fognini encara o renovado Donald Young, mais um canhoto, que parece jogar seu melhor nas quadras americanas. O japonês é o candidato natural do quadrante, mas… Alguém aposta?

O torneio feminino já atingiu as quartas de final e tem um misto de jogadoras com bom destaque temporada, como Venus Williams, Carol Wozniacki e Mirjina Lucic, e outras que estão devendo (e muito) e esperando oportunidade, como Angelique Kerber e Simona Halep.

A alemã recuperou o número 1 com uma única semi em 2017 e agora terá de encarar Venus, que de certa forma remete a Federer. A veterana de tantas batalhas está jogando um tênis primoroso, com golpes pesados mas toques sutis, muita perna e enorme coração. O duelo contra Sveta Kuznetsova empolgou.

No entanto também há espaço para surpresas. A canhota e grande duplista Lucie Safarova parece ter reencontrado seu jogo de simples. Karolina Pliskova corre por fora, sem holofotes, sempre perigosa. Tudo aberto.

Big Game
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2017 às 13:04

Pode ser uma conclusão precipitada, mas já me parece que bastou o circuito acelerar um pouco mais a quadra e a bola para que o tênis virasse de cabeça para baixo. O Australian Open chega às quartas de final já sem os dois atuais campeões e os líderes do ranking, mostrando claramente que os estilos ofensivos estão se sobressaindo. Com exceção de Serena Williams – que sempre se deu muito bem em pisos mais velozes -, ficou bem mais difícil apostar em campeões.

Mischa Zverev conseguiu estarrecer o circuito masculino ainda mais do que Denis Istomin havia feito dias atrás. Não apenas porque tirou o número 1 Andy Murray, mas pela aposta num estilo semimorto. Canhoto sem golpes poderosos, fez o tradicional saque-voleio de forma impecável, aquilo que os australianos conhecem como ‘Big Game’ e que imortalizou a maioria dos seus jogadores. Atuar o tempo todo na rede significa mescla atordoante de voleios longos com toques sutis curtos, o que Mischa usou e abusou. E olha que do outro lado estava um dos mais competentes defensores da história do tênis.

Murray é claro teve sua parcela de culpa. Deixou escapar o primeiro set e sinalizou acreditar o tempo todo que poderia dominar a situação com paciência e regularidade. Mischa no entanto ganhou confiança e manteve-se fiel à tática de trocar ritmos e direções, optando muito bem pela paralela para subir à rede como manda qualquer manual decente de tênis. Foram 118 subidas, com 65 pontos de sucesso, quase a metade dos 146 que conseguiu na partida.

E agora vai realizar um outro sonho, segundo suas próprias palavras, porque terá a chance de encarar Roger Federer em plenas quartas de final de um Grand Slam. O suíço também simboliza com dignidade o tênis ofensivo, a ponto de ter disparado 83 winners em cima de Kei Nishikori, mais um representante da geração em que as pernas são o elemento essencial.

O maior elogio a Federer talvez resida na forma com que conseguiu superar o início horrível de partida. Elevou o nível, aprumou o saque e a devolução e nem mesmo a queda no tiebreak, onde Nishikori fez um grande trabalho, abateu o suíço. Ao contrário, vimos Federer crescer ao longo da partida e ser exigido em todos os campos pelo adversário, até mesmo no físico. E novamente o backhand apareceu como elemento importante. O cabeça 5 só baixou a guarda mesmo no quinto set, quando o desconforto no quadril ficou mais evidente.

Depois de quase sete meses de inatividade, Federer não deixa de ser a outra surpresa desde Australian Open. Claro que é um jogador de extraordinários recursos e experiência, porém recupera o melhor tênis a cada rodada e não dá sinais de queda física. Voltou a ser aquele Federer do saque milimétrico na hora apertada, dos voleios mágicos, do forehand rasante e mortal. Jogará as quartas de Slam pela 49ª vez ao derrotar um top 10 pela 200ª ocasião.

Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga dão promessa de grande jogo na terça-feira. O suíço tem mais currículo e adora jogar na Austrália, mas o novo piso pode ser aliado importante do francês, que tem explorado ao máximo esse fator. Não esperava que Stan tivesse tanta dificuldade contra Andreas Seppi. Não começou bem o jogo, depois reagiu e poderia ter fechado bem antes tanto o segundo como o terceiro sets. O italiano ainda teve set-point e liderou o tiebreak do terceiro set e aí se deve elogiar o sangue frio de Wawrinka.

Tsonga também sofreu no primeiro set diante do ascendente Daniel Evans, demorou para calibrar as devoluções mas daí em diante pouca chance deu ao britânico. Vem trabalhando bem com o primeiro saque ao longo do torneio e está consistente nos voleios, ainda que eu sempre ache que ele deveria tentar ir mais à rede. Cometeu apenas 29 erros nos quatro sets contra Evans, um índice expressivo para seu estilo.

A derrota precoce de Angelique Kerber também pode ser muito bem creditada às novas condições de Melbourne, que casam muito melhor com a força e o risco que CoCo Vandeweghe adota. Mas o fato é que a alemã veio tropeçando desde a primeira semana do ano sem mostrar sombra do tênis vistoso que vimos ao longo de 2016. Provavelmente, a defesa inédita do título e da liderança tenha pesado ainda mais em Melbourne.

O resultado disso são quartas de final malucas na parte de cima da chave. Coco vai enfrentar Garbine Muguruza em jogo que pode acontecer qualquer coisa e a veteraníssima Venus Williams ganha incrivelmente o direito de sonhar com uma nova final de Grand Slam, o que não acontece desde 2009, ainda que tenha a perigosa e também ofensiva Anastasia Pavlyuchenkova pela frente.

Completando as quartas
– Raonic é agora o mais alto cabeça vivo em Melbourne. Enfrenta Bautista, que só tirou um set dele em quatro duelos. O espanhol nunca passou das oitavas de um Slam em seis tentativas.
– Nadal tem o favoritismo natural contra Monfils, já que o francês só ganhou 2 dos 12 duelos e perdeu quatro seguidas desde 2014, incluindo uma derrota fulminante na Austrália desse ano em que só ganhou seis games. Além do mais, nunca bateu um top 10 em Melbourne.
– Espanhol busca 9ª presença nas quartas da Austrália e a 30º em Slam. Perdeu todos os últimos quatro duelos contra top 10 e não derrota um adversário desse nível em Grand Slam desde a final de Roland Garros de 2014.
– Istomin tenta estender seu sonho de verão contra Dimitrov e assim se tornar apenas o segundo convidado a ir tão longe no torneio desde Tomas Smid, em 1983. Só houve um duelo entre eles, com vitória de Dimitrov em 2014.
– Thiem e Goffin fazem duelo imprevisível. Goffin tem 4-3 nos duelos, mas Thiem leva 3-1 nos mais recentes. No ano passado, belga ganhou na Austrália e austríaco, em Paris. Na quadra dura, 2-1 para Goffin. Vale lembrar que Thiem já andou sentindo dores no ombro direito na última partida.
– Serena é favorita natural contra Strycova, embora as duas não se enfrentem há cinco anos. Será a primeira adversária dentro do top 50 da americana até aqui. Strycova na verdade é 16ª, tendo vitórias sobre Sharapova, Kerber e Muguruza.
– Pliskova e Gavrilova vêm de jogos duros. Australiana tem torcida e muita competência em distribuir a bola. Perdeu fácil os dois duelos já feitos contra tcheca.
– Konta ganhou as três contra Makarova e agora é esperança britânica na Austrália, onde curiosamente nasceu. Lucic e Brady fazem duelo inesperado. A americana veio do quali e é 116º. Lucic, de 34 anos, não ganhava jogo na Austrália desde 1998.