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Nadal mostra credenciais
Por José Nilton Dalcim
21 de janeiro de 2017 às 13:20

Se alguém tinha dúvidas sobre a força das pernas de Rafael Nadal, a exigente vitória desta madrugada em cima do garotão Alexander Zverev deixa claro que o espanhol está na ponta dos cascos. Embora não tenha feito uma exibição perfeita, Rafa mostrou muitas qualidades e avisou aos adversários de que é sim um candidato sério para atingir mais uma final do Australian Open.

Nadal começou um pouco defensivo demais e foi sufocado por Zverev até a metade do primeiro set. Aos poucos, baixou a bola e capitalizou erros. O alemão tem um tremendo arsenal. Saca muito, bate forte dos dois lados e faz boa transição à rede, mas também sente a quebra de ritmo e por vezes mostra perda de energia. Foi especialmente interessante notar que Nadal não jogou tão afastado da linha de base, muitas vezes apenas um passo, e em várias ocasiões vimos Zverev mais longe da base do que o próprio espanhol.

O jogo acabou decidido no quinto game do set final. Após troca de quebras, Zverev encarou game longo, teve quatro chances de confirmar e foi superado no terceiro break-point, vendo Rafa buscar bolas difíceis, sobrando no físico. Com as pernas privilegiadas, continuou em condições de usar o forehand dos mais variados pontos da quadra, o que é essencial no seu plano tático. Foi apenas uma questão de tempo até concluir a tarefa  e acabar com o incômodo jejum de derrotas no quinto set que vinha tendo. Assume então o favoritismo para o duelo contra Gael Monfils, outro atleta excepcional, sobre quem tem 12 a 2 e quatro vitórias seguidas desde 2012.

Quem passar, deve encarar Milos Raonic ou Roberto Bautista. O canadense, que está com média de 20 aces por jogo até agora, teve trabalho com Gilles Simon e precisa respeitar Bautista, uma vez que o espanhol vem melhorando a olhos vistos na quadra dura. Importante observar que Raonic cometeu 34 erros contra Simon quando exigido na base.

No jogo da madrugada local, Grigor Dimitrov atropelou no duelo de backhands simples com Richard Gasquet e chega às oitavas pelo segundo Slam consecutivo. Com bônus, já que vai encarar Denis Istomin, que não deixou a peteca cair e foi ganhar em mais um quinto set. Dominic Thiem avançou mas já pediu atendimento para dores no problemático ombro direito. Repetirá duelo do ano passado contra David Goffin, que corre por fora e foi mais longe do que se esperava. Ainda me parece menos provável que alguém deste setor da chave consiga superar o grupo de Raonic e Nadal.

Exceção ao passeio de Serena Williams e à vitória incrivelmente fácil de Johanna Konta sobre Carol Wozniacki, a rodada feminina foi incrivelmente intensa. Duelo palmo a palmo na bela vitória de Ekaterina Makarova sobre Dominika Cibulkova, reação notável da veterana Mirjana Lucic e sufoco total para Karolina Pliskova, que só sobreviveu a 2/5 no terceiro set por conta da menor experiência da menina Jelena Ostapenko.

Para delírio local, Daria Gavrilova levou a bandeira australiana uma rodada mais longe. Russa de origem e criação, Daria assumiu cidadania australiana depois que passou a namorar com Luke Saville e hoje tem no time uma treinadora de cada país. Aos 22 anos, sobra simpatia e garra, e assim ninguém parece se importar muito com a naturalização.

Rumo às quartas
– Federer tenta atingir a 49ª quartas de Slam de sua espetacular carreira. Isso é mais do que a quantidade de Slam que Murray ou Wawrinka disputaram até hoje.
– Será o sétimo confronto com Nishikori, com 4-2 para o suíço, incluindo os três últimos. Eles não se cruzaram em 2016.
– A distância entre Murray e Mischa Zverev é abismal. Enquanto o escocês tem 179 vitórias de Slam, o alemão chegou agora a 8. No geral da carreira, são 637 contra 85. Sem falar que Mischa só venceu até hoje uma partida no quinto set.
– O duelo entre Wawrinka e Seppi já teve 11 capítulos, com apenas três vitórias do italiano, que nunca passou das oitavas em um Slam. No entanto, não dá para esquecer a notável vitória em cima de Federer em Melbourne-2015.
– Evans enfrenta Tsonga e Grã-Bretanha pode ter dois nomes nas quartas de um Slam pela primeira vez deste Henman e Rusedski em Wimbledon-97.
– A experiência joga ao lado de Kerber, Kuznetsova e Venus. A alemã precisa tomar cuidado com Vandeweghe, saque forte e embalada. Sveta faz duelo russo com Pavlyuchenkova, outra que bate muito na bola e acabou de ganhar da compatriota em Sydney. Já Venus pega a quali Barthel, em jogo que não deve ter trocas de bola. Muguruza enfrenta Cirstea pela primeira vez.

A casa caiu
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2017 às 12:04

Se a derrota de Novak Djokovic para Sam Querrey em Wimbledon foi um susto para o circuito, o que dizer então do fim de sua gigantesca soberania em Melbourne diante de um adversário que nem é top 100, em plena segunda rodada? Difícil até acreditar.

Djokovic não perdia tão cedo num Slam desde Wimbledon de 2008 e jamais havia sido superado por um adversário fora do top 100 em Slam. Na Austrália, a sensação de vazio é ainda maior. Nole vinha chegando pelo menos às quartas nos últimos nove anos, tendo ganhado cinco das seis edições mais recentes.

Tudo seria apenas um acidente de percurso tão natural no tênis não fosse a longa sequência de altos e baixos que Nole mostra desde Roland Garros do ano passado. Houve é certo o vice no US Open, no Finals e o título em Toronto, mas também decepções grandes. Isso custou a liderança do ranking, que agora fica bem mais distante. O recente título em Doha em cima de Andy Murray sinalizou a recuperação da confiança, mas é certo que viria pressão em Melbourne.

O que talvez mais me tenha surpreendido nessa derrota para Istomin tenha sido a queda nos dois tiebreaks, momentos em que Djokovic costuma impor sua agressividade e enorme poder mental. Ainda mais o primeiro desempate, em que o sérvio vinha de recuperação no set e chegou a ter 4-1 e depois um set-point fácil. Também é notável que tenha permitido a virada após ter 2 sets a 1. O que teria faltado? Achei que ele ficou passivo demais em alguns pontos importantes.

O uzbeque, acima de tudo, merece todos elogios. O ex-33 do ranking usou bem o saque na quadra veloz, mostrou vigor físico para aguentar as trocas e pareceu confiar o tempo todo, apesar das cinco derrotas que já havia sofrido. Assim, raramente deixou de arriscar, tentou ganhar cada ponto, mesmo sob tensão.

Uma coisa é certa. A queda tão precoce de Djoko anima todo mundo. Principalmente quem estava do seu lado da chave, como Rafa Nadal e Milos Raonic. E também Murray, que amargou tantos dissabores em Melbourne frente a Nole. O canhoto espanhol passeou diante de Marcos Baghdatis, em jogo em que impôs as trocas de bola e mostrou forehand e pernas impecáveis, e Raonic fez o básico em cima de Gilles Muller. Agora vem o tão aguardado reencontro entre Nadal e Alexander Zverev. Aí a coisa deve pegar fogo.

A chave feminina também assistiu uma surpresa das grandes, com a queda de Aga Radwanska para a veterana Mirjana Lucic em dois rápidos sets. A croata não vencia um jogo sequer em Melbourne desde 1998, amargando sete derrotas na estreia. Mas já fez uma semi em Wimbledon, o que mostra sua boa adaptação a pisos mais velozes.

Destaque também para a atuação muito firme de Serena Williams diante da canhota e habilidosa Lucie Safarova, com direito a 15 aces, muita vibração e elogios à tcheca. Interessante está o quadrante que agora reúne Cibulkova x Makarova e Wozniacki x Konta. Em cima, Karolina Pliskova desfilou, mas pode ter sufoco contra Daria Gavrilova nas oitavas.

Para finalizar o dia cheio de surpresas, os campeões Bruno Soares e Jamie Murray se despediram na estreia para a improvável parceria de Sam Querrey e Donald Young. Como André Sá também perdeu ao lado de Leander Paes – em jogo que deveriam ter vencido -, apenas Marcelo Melo, com Lukasz Kubot, e Marcelo Demoliner, ao lado de Marcus Daniell seguem adiante.

A próxima rodada já determina os primeiros classificados para as oitavas de final e traz duas expectativas principais: Murray estará recuperado do tornozelo para encarar Querrey e correr muito atrás da bola? Roger Federer terá pernas e confiança para conter a potência de Tomas Berdych? Também merecem atenção Tsonga-Sock e Wawrinka-Troicki, com favoritismo do francês e do suíço.

No feminino, interessante ver Angelique Kerber contra a outra Pliskova, o duelo de força entre Bouchard-Vandeweghe, as veteranas Kuznetsova-Jankovic. Estou de olho em Elina Svitolina…

Caminho aberto
Por José Nilton Dalcim
17 de janeiro de 2017 às 11:10

A estreia contra Fernando Verdasco parecia o maior problema de Novak Djokovic até pelo menos as quartas de final do Australian Open. Nem tanto pelo currículo do canhoto espanhol, mas pelo duelo de dias atrás em Doha. Assim, era fundamental ganhar e vislumbrar o bom horizonte que a chave inferior reservou para o hexacampeão.

Djokovic não jogou seu melhor. Nem de longe. Mas houve muito de culpa do próprio Verdasco, que fez um primeiro set medíocre e até mesmo no seu melhor momento se mostrou incrivelmente irregular. Nole se viu atrás do placar quase todo o segundo set e também no tiebreak, porém a inconsistência e insegurança do canhoto espanhol falaram mais alto. Terminou com 56 erros não forçados, o que equivaleu a 49% dos pontos do sérvio na partida.

O importante é que Nole passou a estreia, um momento sempre delicado num Grand Slam, sabendo que poderá evoluir muito a cada rodada. Por isso, o próximo adversário cai como uma luva: Denis Istomin, que certamente ficará lá no fundo de quadra dando o ritmo que Djokovic precisa para ir se soltando. Seu quadrante tem Pablo Carreño ou Kyle Edmund e mais à frente possivelmente Grigor Dimitrov ou Richard Gasquet. Os dois tiraram australianos em jogos que não servem para avaliações.

Para Rafa Nadal, duas boas notícias. A primeira foi sua própria atuação contra o chato Florian Mayer, um tenista que varia demais o ritmo e faz coisas malucas. O espanhol manteve a bola longa e sacou bem até de segundo serviço. Depois, viu Alexander Zverev ficar perto da derrota com intensos altos e baixos diante de Robin Haase. O holandês fez 3/1 no quarto set e cheguei a duvidar que o alemão teria cabeça para reagir, já que vinha ladeira abaixo. Agora, Rafa pega Marcos Baghdatis e Zverev faz jogo de novatos contra Frances Tiafoe.

Nos outros jogos, Milos Raonic e Gael Monfils foram muito bem, Dominic Thiem começou mal mas reagiu e David Goffin quase tropeça na juventude e saque poderoso de Reilly Opelka. Quem não sobreviveu aos erros foi Feliciano López, dominado pelo poder defensivo de Fabio Fognini.

No feminino, Serena Williams poderia ter saído melhor de quadra. Ficou sempre à frente nos sets, mas no primeiro perdeu um serviço e viu empate até 4/4. Daí disparou com o costumeiro estilo vigoroso, porém teve dificuldade inesperada para concluir a partida contra Belinda Bencic. Pode ter sido apenas um natural surto de ansiedade. Enfrentará agora a canhota Lucie Safarova, que perdeu todos os nove duelos. Karolina Pliskova praticamente treinou, Dominika Cibulkova e Johanna Konta venceram mas sem grande brilho.

Grande Rogerinho
E Rogério Silva, a caminho de seus 33 anos, lavou a alma do tênis brasileiro. Depois de ganhar apenas três games nos dois primeiros sets diante de um garotão com maior potência em todos os golpes, ele jamais desistiu. Primeiro, jogou mais perto da linha, pegou bola na subida e encurtou o tempo de Jared Donaldson. Depois, ao sentir que havia abalado a confiança do rapaz, forçou as trocas e usou muito bem as paralelas de backhand. Achou um caminho.

Esta foi apenas sua quarta vitória em Grand Slam e a primeira que não aconteceu no US Open. De qualquer forma, curioso que todas tenha sido na quadra dura. O páreo agora é ainda mais dificil: o experiente Gilles Simon, que adora jogo longo, para quem Rogerinho perdeu em Roland Garros do ano passado. Mesmo tendo caído no ranking, o francês venceu recentemente Sock, Bautista, Benneteau e Garcia-López no sintético. É favorito, mas de Rogerinho podemos esperar tudo, especialmente luta.

Façanhas e recordes
Foi um dia de interessantes façanhas no Australian Open. A maior, claro, pertenceu a Ivo Karlovic. A um mês de chegar ao 38º aniversário, sobreviveu 5h15 e marcou o set mais longo do torneio (22/20) e o recorde de aces no AusOpen (75). Fez dueto com outro ‘dinossauro': Radek Stepanek, de 38, passou à segunda rodada vindo do quali.

Entre as meninas, a canhota Lucie Safarova anotou mais uma incrível virada na carreira e esta foi bem especial, depois de salvar nove match-points. Essa tcheca adora emoções fortes. Aos 34, Mirjana Lucic voltou a ganhar em Melbourne exatos 19 anos depois.

Alívio australiano
A torcida tem bons motivos para comemorar. E não é apenas porque cinco australianos superaram a estreia, mas principalmente porque vários são boas esperanças, como Alex de Minaur, Jordan Thompson e Andrew Whittington, sem falar nos explosivos Nick Kyrgios e Bernard Tomic. No feminino, Jaimee Fourlis avançou com seus 17 anos e se juntou a Ashleigh Barty, de 20, e a ‘importada’ Daria Gavrilova, de 22.

Quarta-feira
Com interessantes duelos de geração, o terceiro dia do Australian Open vê algo diferente: dos 16 jogos masculinos, oito serão inéditos no circuito. Entre eles, Murray-Rublev, Federer-Rubin, Querrey-De Minaur e Sock-Khachanov. Também nunca aconteceram Cilic-Evans e Tsonga-Lajovic.

Nishikori jogará pela sétima vez contra Chardy, tem 4-2 nos duelos e será preciso ver sua recuperação após os cinco sets da estreia. A se observar também o reencontro de Kyrgios-Seppi em Melbourne. Em 2015, o australiano saiu de dois sets abaixo e foi vencer 8-6 no quinto.

A programação feminina é bem menos empolgante, mesmo com Kerber em quadra. Será legal torcer para Bouchard e Vandeweghe vencerem e fazerem duelo para ver quem irá encarar a cabeça 1 em seguida. Kuznetsova encara a juventude de Fourlis. Vale conferir a batalha de golpes agressivos de Puig e Barthel.