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Sangue azul
Por José Nilton Dalcim
21 de maio de 2017 às 19:00

Alexander Zverev provou de uma vez por todas que tem sangue nobre. Em sua primeira final de Masters e logo diante de Novak Djokovic, que já havia vencido o torneio quatro vezes, o garoto de 20 anos não se intimidou. Muito pelo contrário. Encarou o backhand de Nole sem medo de ser feliz e foi superior ao número 2 do ranking o tempo inteiro. Sacou melhor, se manteve mais agressivo, compensou o ataque ao forehand com bolas profundas e literalmente tirou o adversário do sério.

Até mesmo quando o público ficou claramente do lado de Nole, louco para ver mais tênis, Zverev pareceu frio e calculista. Uma exibição tão segura que não é mais possível deixá-lo de fora da lista de candidatos ao título de Roland Garros, ainda que curiosamente tenha dito no começo da semana que não gosta tanto assim do saibro. Djokovic foi o oitavo top 10 que ele derrotou em 20 tentativas, sendo dois em Roma, três na terra e quatro em 2017.

Mais jovem tenista a ganhar um Masters em exatos 10 anos e primeiro alemão a fazer isso desde 2001, Zverev pegou um atalho e chega ao prestigiado top 10 pelo menos seis meses antes do que se esperava. E olha que a quadra dura é a sua predileta e ele já fez final na grama de Halle no ano passado, ao tirar nada menos que Roger Federer. Este já foi seu terceiro título em 2017, o que coloca o garoto no quarto lugar da temporada, 315 pontos atrás de Dominic Thiem.

A atuação impecável de Zverev foi um amargo presente de aniversário para Djokovic, que vira ‘trintão’ nesta segunda-feira. Para minimizar as notícias negativas do domingo, ele aproveitou para confirmar que Andre Agassi será seu novo treinador. O anúncio estava previsto para a quarta-feira, mas foi estrategicamente antecipado. Dono de oito Grand Slam, incluindo Roland Garros, e o mais velho tenista a reassumir o número 1 do mundo, Agassi nunca treinou qualquer tenista. Parece muito mais um apoio emocional – e vimos Nole hoje falar palavrão e se aborrecer com o vento, a quadra, o adversário e o boleiro – do que técnico neste momento. Se vai funcionar, teremos de esperar.

E não foi só Zverev quem deu ar de renovação ao circuito. A ucraniana Elina Svitolina aproveitou suas chances, conquistou o maior troféu da carreira e chega ao sexto lugar do ranking. Aliás, aos 22 anos e seis meses, é a mais jovem top 10 do momento. A menina faz tudo direitinho e tem a especial qualidade de jogar de forma agressiva, usando bem o saque e as bolas de base. Roland Garros, claro, parece também algo distante. Mas não impossível.

Ranking: briga pelo 2
Quem saiu com considerável lucro após Roma foi, acreditem, Andy Murray. Mesmo que ele sequer passe da estreia em Roland Garros, o número 1 está em suas mãos. Tudo que precisará é manter os títulos de Queen’s e Wimbledon, independente das campanhas de Nole e Nadal em Paris e depois na grama.

A briga no entanto ficará bem interessante entre Djokovic e Nadal pela vice-liderança já no Aberto francês. Descontadas as campanhas do ano passado, a vantagem de Djokovic será de apenas 160 pontos quando o torneio começar. Ou seja, a partir das oitavas, qualquer jogo a mais que Nadal vença em relação ao sérvio lhe dará o segundo posto.

Wawrinka até tem chance de chegar ao número 2, mas teria de ser pelo menos finalista e ainda contar que Djokovic e Nadal parem nas quartas.

Entre os garotos, a situação mais confortável é de Zverev, que defende apenas 90 pontos. Thiem foi semifinalista e precisará repetir 720. Ainda assim, a distância entre eles começará em 365, o que é mais do que quartas de final.

Cabeças e sorteio
Ao que tudo indica, a sorte na formação da chave será essencial neste Roland Garros, porque afinal Djokovic e Nadal podem cair do mesmo lado e ainda um deles cruzar com Thiem, Zverev ou David Goffin nas quartas. E alguém pode se dar muito bem, como Wawrinka, e ficar no setor de Murray, Milos Raonic ou Marin Cilic, Grigor Dimitrov ou Jack Sock.

No feminino, Angeliquer Kerber e Karolina Pliskova encabeçam, mas não convencem. Halep será a cabeça 3 e Garbine Muguruza, cada dia com um problema diferente, tem a pressão de defender o título como 4. Seria um alívio fugir de Elina Svitolina, cabeça 5, e Sveta Kuznetsova, a 8. Ao que tudo indica, a campeã deve sair desse grupo. Qualquer outra coisa será uma tremenda surpresa.

O sorteio está marcado para sexta-feira cedo, em Paris.

Ele voltou?
Por José Nilton Dalcim
20 de maio de 2017 às 16:56

Três adversários de gabarito, três vitórias cheias de golpes perfeitos, concentração, alegria e vibração. Novak Djokovic voltou a seu melhor tênis ainda em tempo hábil para brigar pelo bicampeonato em Roland Garros?

Acho que o título neste domingo em Roma ainda fará parte importante dessa resposta, embora seja inegável que o Nole que temos visto no Fóro Itálico é completamente diferente de Monte Carlo ou Madri. No entanto, ganhar seu primeiro título importante desde agosto em cima de Alexander Zverev, outro grande nome da temporada e da nova geração, dará o retoque final e essencial.

Djokovic voltou a usar sua magistral devolução para destruir taticamente Juan Martin del Potro e Dominic Thiem. Em pleno saibro, esperou os segundos saques um passo dentro da quadra e tomou rapidamente conta dos pontos. Se precisou entrar numa troca mais longa, usou bolas profundas nas cruzadas e paralelas precisas. Sacou firme, confiante. Sufocou o argentino e seu débil backhand, esmagou Thiem ao impor a mais categórica vitória sobre o austríaco em cinco confrontos.

Todos esses predicados serão importantes contra Zverev, um adversário a quem nunca enfrentou. O alemão terá contra si o compreensível nervosismo de fazer sua primeira final de Masters diante de um oponente que tenta recuperar o recorde de troféus dessa categoria e atingir o 31º.

Zverev tem um arsenal respeitável, desde o saque até as bolas de base. O forehand é um pouco mais vulnerável, assim como a movimentação de seu 1,98m. O garoto no entanto é ousado. Dá curta, vai à rede, arrisca winners. Fez uma partida difícil contra John Isner neste sábado, tirando três serviços do grandalhão. Ou seja, teve paciência para esperar suas chances.

Se conseguir um surpreendente título em Roma, Zverev concretizará muito antes do esperado o primeiro degrau significativo dos grandes, que é atingir o top 10. E já embolsará um troféu de Masters, igualando-se imediatamente a tenistas muito mais experientes que se limitaram a uma isolada conquista desse porte em toda a carreira, como Wawrinka, Ferrer, Berdych, Haas, Soderling e Norman.

O domingo em Roma será especial, de um jeito ou de outro.

A estrela sobe
Por José Nilton Dalcim
19 de maio de 2017 às 18:54

Dominic Thiem deu mais um passo de peso em sua temporada e carreira. Afinal, não é todo dia que alguém derrota Rafael Nadal num Masters sobre o saibro, façanha reservada a um seleto grupo formado por Novak Djokovic (6 vezes), Andy Murray (2), Roger Federer (2), Stan Wawrinka, David Ferrer, Fernando Verdasco e Juan Carlos Ferrero a partir de 2005.

Thiem teve uma atuação surpreendente e espetacular. Começou pela postura diferenciada para esperar o primeiro saque de Rafa, pegando várias vezes a bola na subida e com isso acelerando a devolução. Não vamos esquecer que na véspera ele havia salvado três match-points diante de Sam Querrey.

Depois, Thiem usou muito bem o backhand em diversos contraataques e não se intimidou com os balões constantes em cima do golpe, que geralmente o levam a encurtar a bola. Para ser perfeito, faltou apenas usar melhor o primeiro saque. Permitiu sete break-points, porém salvou a maciça maioria com coragem e precisão.

Nadal não jogou mal, mas teve dificuldade para encontrar soluções adequadas diante das bolas bem profundas e cheias de efeito de Thiem. Talvez não dê para se ver bem na TV, mas o austríaco coloca muito giro em seus golpes, o que costumamos chamar de ‘bola pesada’.

Ele terá de esperar até o começo da tarde (horário local) de sábado para saber se irá reencontrar Novak Djokovic, de quem só tirou um set em quatro duelos, ou fará confronto com Juan Martin del Potro, para quem perdeu duas vezes em 2016. Do jeito que a partida ia antes de a chuva atrapalhar, Nole é o grande candidato. Apesar de games duros, mostrava de novo a excepcional competência nas devoluções e dava pouco espaço para Delpo disparar forehands. Mas como cada dia é um dia no tênis, tudo pode acontecer na retomada.

Se Thiem vai atrás de sua segunda final consecutivas de Masters, o alemão Alexander Zverev faz a primeira da carreira e com chances reais de chegar à decisão de domingo, já que vai enfrentar John Isner. É fato que o gigante americano de 32 anos sacou muito contra Marin Cilic e já levou Nadal a cinco sets em Roland Garros, mas é bem menos consistente no fundo da quadra, com evidente dificuldade de deslocamento e backhand sempre defensivo.

Caso Thiem e Zverev façam uma inesperada final em Roma, teremos a mais jovem decisão de nível Masters desde que Andy Murray derrotou Del Potro em Montréal de 2009. E a primeira sem o Big 4 desde Paris de 2012.

A derrota muda algo para Nadal? Não, ainda que faz três anos seguidos que ele não passa das quartas em Roma e, coincidência ou não, caiu antes da semi em Paris. O bom para o tênis é que Thiem passa de vez a correr por fora, Zverev pode ser um obstáculo para qualquer um e especialmente vemos Nole bem mais animado. Se o sérvio faturar o título, vai ficar perigoso outra vez.

As semifinais femininas também são um certo alívio para Roland Garros. Simona Halep se firma entre as candidatas, Garbine Muguruza dominou os nervos para tirar Venus Williams e Elina Svitolina soube trabalhar em cima do estilo risco total de Karolina Pliskova.

Quem levar Roma, terá um ‘upgrade’ e tanto. Ah, Kiki Bertens, que gosta de mudar o ritmo do jogo e usa boas curtinhas, obviamente pode ser a surpresa.