Promissor
Por José Nilton Dalcim
7 de janeiro de 2017 às 21:53

A temporada 2017 promete. A primeira semana de competições, oficiais ou não, mostrou tênis de excepcional qualidade e, acima de tudo, um direcionamento claro dos homens em direção à rede, aos voleios. Ufa!

Vimos Rafa Nadal, Andy Murray, Milos Raonic, Kei Nishikori fazendo saque-voleio, mas também a eles se somou até Tomas Berdych. Aquela tendência, que eu já havia assinalado algum tempo atrás, de que encurtar o tempo de reação do adversário seria o melhor caminho para matar pontos vai ficando mais clara e necessária.

Ao mesmo tempo, o pessoal está batendo muito forte do fundo de quadra. Tivemos até aqui três jogos que valem a pena ser revistos pela qualidade técnica: Djokovic-Murray, Nishikori-Wawrinka e Federer-Zverev. Quem não viu, pode dar uma olhada no YouTube.

Claro que a final de Doha era a partida mais aguardada. E não decepcionou. Não bastassem os lances de tirar o fôlego, sobrou emoção e alternâncias. Gostei de ver Djokovic novamente agressivo, buscando mais paralelas e automaticamente a rede.

Saque e devolução são os pontos que ainda o diferenciam positivamente de Murray. Esperava um forehand um pouco mais efetivo do escocês depois da pré-temporada, ainda que ele tenha soltado alguns ‘foguetes’ neste sábado. O título veio na hora certa para Nole, que escapou por milagre na sexta-feira de uma frustração bem grande.

Nishikori e Wawrinka deram outro espetáculo. O japonês mais perto da base, trocando muito bem a direção da bola, Stan usando a paralela para ir à rede. Nishikori seria um forte candidato ao título em Melbourne se pudéssemos acreditar no seu físico. Vai decidir o título do excelente torneio de Brisbane contra o renascido Grigor Dimitrov.

Nadal me deixou um tanto confuso. O saque foi aprimorado, o backhand pareceu mais batido e ele também explorou a rede. Mas ainda recuou demais quando o jogo contra Milos Raonic ficou duro, e isso abriu os ângulos.

O espanhol e Roger Federer parecem ter aproveitado bem a pré-temporada mais longa e antecipada. Me chamou a atenção a fluidez do backhand de Federer, bem mais profundo. O suíço também optou por um primeiro saque cheio de slice. Apesar da derrota, o jogo contra a juventude de Alexander Zverev foi delicioso, com trocas incríveis da base. O alemão tem personalidade de sobra e muitos recursos. Amadurece a passos largos.

No feminino, decepção tanto de Angelique Kerber como de Serena Williams, porém não serve para parâmetros. Quem está mesmo perigosa é Karolina Pliskova. Saque poderoso, ousadia, força. Quem quiser um palpite de risco para o Australian Open, esse é dos bons.

Rankings
- Mesmo perdendo a final em Doha, Murray aumenta a distância para Djokovic para 780 pontos, mas não pode dormir em berço esplèndido. O escocês precisa chegar na semi do AusOpen para se manter na liderança sem depender de Djokovic.
- Como não defendeu o vice em Brisbane, Federer perderá o 16º lugar para Dimitrov. Com isso, poderemos ter Wawrinka, Nadal e Federer no lado de Djokovic em Melbourne.
- No feminino, não deve ter luta pela ponta. Kerber defende o título mas entrará com quase 1.800 pontos de vantagem sobre Serena, a vice de 2016, e assim basta à alemã chegar na semi para se manter à frente.

A magia está de volta
Por José Nilton Dalcim
2 de janeiro de 2017 às 22:42

Sinceramente, pouco importaram a vitória, o placar, o adversário, o torneio. O que valeu foi rever Roger Federer executar a maestria que leva estádios superlotarem. Seu primeiro jogo desde a semifinal de Wimbledon, seis meses atrás, durou apenas 61 minutos. Mas ainda assim houve tempo de sobra para se ver o saque preciso, o forehand agressivo, voleios e smashes perfeitos, backhand variado.

Federer jogou solto desde o primeiro game contra Daniel Evans, e quando isso acontece é uma delícia admirar seu inesgotável arsenal. Ele usou muito o serviço com slice, forçou paralelas dos dois lados e foi inevitável o ‘ohhhh’ dos 13 mil torcedores quando ousou usar o ‘sabr’. O britânico até que jogou direitinho, mas a distância técnica é grande demais.

O suíço se deslocou bem, correu atrás de todas as bolas. Dois fatores importantes: não economizou esforço e não houve qualquer sinal de problema com o joelho. Em termos competitivos reais, os testes diante de Alexander Zverev e Richard Gasquet – e tomara uma final contra Nick Kyrgios – serão bem mais importantes. O alemão tem saque e golpes de base muito mais forçados, a Gasquet sobra experiência.

Já Novak Djokovic demorou a entrar em jogo diante do bom alemão Jan-Lennard Struff. Sacou de forma insegura, perdeu os dois primeiros games de serviço e se viu 4/0 e 5/1 atrás. Pouco a pouco, foi se achando. Contou com a falta de determinação do oponente na hora de fechar e a partir do tiebreak já era o Nole que conhecemos.

O número 2 do ranking diz que precisou ajustar mentalmente a situação e que os pés não se mexiam de forma ideal, mas que ele sabia que era uma questão de ter paciência para achar o ritmo certo. Assim como Federer, um jogo é muito pouco para qualquer avaliação mais profunda. O importante acima de tudo foi superar a estreia e seguir em frente.

O sorteio da chave de Doha encaminha a decisão de domingo entre Djokovic e Andy Murray. Há pouca gente no caminho que possa evitar isso, ainda mais do lado do sérvio. Murray estreia nesta quarta-feira contra o experiente mas limitado Jeremy Chardy.

Brasil 2017
O tênis brasileiro já está em quadra nesta primeira semana. Thiago Monteiro nem passou da estreia, Rogerinho Silva tenta se preparar em Chennai. Vivem momentos distintos. O canhoto cearense tem uma temporada de afirmação pela frente. Muitos pontos a defender, adversários e torneios desconhecidos, um nível totalmente novo a encarar. Tomara que consiga ganhar alguns jogos para não afetar a confiança. Rogerinho por seu lado está em clima de bônus e manter-se no top 100 é o bom desafio.

Thomaz Bellucci sempre é a maior esperança. Agora ‘trintão’ e casado, tem planos ousados para 2017. Jogador perigoso quando adquire confiança e embalo, precisará de sorte na formação das chaves até ao menos recuperar o posto entre os top 40. Deveria aproveitar Rio e São Paulo para ter grandes campanhas e arrancar.

O feminino é uma total incógnita. Teliana Pereira tem de remar tudo de novo, Paula Gonçalves começa com muito a defender e Bia Haddad deu incrível azar com acidente caseiro que adia perigosamente seu calendário. Essa menina precisa de uma benzedeira.

O que 2016 indica para o Ano Novo
Por José Nilton Dalcim
30 de dezembro de 2016 às 01:27

A temporada 2017 conseguirá ser melhor que 2016? Pergunta difícil de responder. Porque, consideremos, este ano que está quase no finzinho foi histórico para o tênis em muitos aspectos.

Tudo começou com a expectativa, que já vinha do ano anterior, de vermos Serena alcançar os 22 Grand Slam de Steffi Graf. Para surpresa geral, acabou superada com maestria pela canhota Angelique Kerber em Melbourne e desperdiçou nova chance em Roland Garros, caindo diante da eventual campeã Garbine Muguruza. Por fim, realizou a monstruosa tarefa no seu melhor Slam, Wimbledon. De quebra, se tornou a tenista, homem ou mulhor, com maior quantidade de vitórias de Slam em todos os tempos.

Serena no entanto não segurou a ponta do ranking e deixou escapar outra marca, a de semanas consecutivas na dianteira da lista. O tênis feminino finalmente coroou uma nova líder, curiosamente não tão nova assim: Kerber, com mais um grande troféu, agora no US Open, virou número 1 aos 28 anos. De ‘zebra’, virou estrela.

Depois que Novak Djokovic manteve a hegemonia na Austrália e embolsou tudo novamente nos Masters americanos, os olhos se voltaram para o tão sonhado troféu de Roland Garros. A tarefa era duplamente difícil e espetacular, porque permitiria que o sérvio se tornasse o segundo profissional a deter todos os Slam ao mesmo tempo. E o fez com categoria, com apenas dois sets perdidos – precisou virar os jogos contra Bautista e Murray. Com isso, apenas ele, Laver, Agassi, Federer e Nadal têm ao menos um título em cada Slam desde 1968.

Mas o circuito masculino também ganhou um novo Andy Murray. Eficiente no saibro, recuperou o reinado na grama de Wimbledon e obteve no Rio um feito único, o bi olímpico. Daí disparou na quadra dura, em que seu maior pecado foi a derrota nas quartas do US Open, num embalo que o levaria a tirar Nole do número 1, reafirmando depois a liderança numa partida histórica no Finals de Londres. Tal qual Kerber, um inédito líder quase ‘trintão’.

Houve três decepções, das grandes. Roger Federer jogou muito pouco, encerrou o calendário após Wimbledon, e Rafa Nadal viveu aos tropeços, com confuso abandono em Roland Garros e retirada do Finals. Ainda assim, Federer superou as marcas de Ivan Lendl (1.335 jogos e 1.071 vitórias), ficando agora só atrás de Jimmy Connors, e Nadal se tornou o quinto tenista com mais de 100 finais e igualou os 49 troféus no saibro de Guillermo Vilas, sem falar no ouro olímpico de duplas. Por isso, Maria Sharapova foi mesmo a nota totalmente negativa, já que foi suspensa após a Austrália e o máximo que conseguiu foi reduzir a pena para 15 meses.

Dois ‘veteranos’ enriqueceram o circuito. O retorno de Juan Martin del Potro foi além de qualquer expectativa e mostrou o tamanho de seu talento. Conseguiu mudar completamente o backhand e adicionou o jogo de rede. Viveu emoção atrás de emoção, desde a volta em si até as vitórias heróicas no Rio, o título em Estocolmo e o feito da Copa Davis, com direito a ovação inesquecível em Nova York. Perdeu justamente para Stan Wawrinka, que resolveu jogar o que sabe e embolsou seu terceiro Grand Slam, outra vez em cima de Nole.

Delpo e Stan têm de estar na lista dos tenistas capazes de barrar o Big 4 em 2017. Em qualquer torneio, até mesmo os Slam. Mas os candidatos a herói aumentaram e vemos agora um Milos Raonic mais versátil e maduro, um Kei Nishikori sempre perigoso – fez três dos melhores jogos do ano, todos contra Murray -, o potencial inegável de Dominic Thiem e os lampejos de Marin Cilic. Pode-se incluir Nick Kyrgios, Lucas Pouille e Alexander Zverev, de cujo potencial não dá para duvidar. São os três maiores candidatos a renovar o top 10.

O feminino tem bons ingredientes também. Serena, que anunciou ideia de se casar, conseguirá ainda retomar a ponta do ranking e adicionar mais um Slam, quem sabe alcançar os 24 de Margaret Court? Sua maior adversária parece mesmo ser Kerber, já que Vika Azarenka caminha para a maternidade e é difícil imaginar que Sharapova irá retomar o ritmo competitivo rapidamente. Não dá para imaginar Aga Radwanska, Simona Halep ou Garbine Muguruza na briga. Surpresa do ano, Karolina Pliskova é mais diversão do que ameaça. Mas qualquer uma delas pode beslicar uma final ou até mesmo um título de Slam em 2017. Halep é a mais completa; Aga, a lutadora; Pliskova, a imprevisível.

Outros feitos do ano
– Venus igualou a recordista Amy Frazier, com 71 Slam disputados, e assumirá o posto isolado no próximo Australian Open. Aos 36 anos, não tem intenção de parar em 2017.
– David Ferrer se tornou o 9º homem na Era Profissional a superar a casa de 1.000 partidas disputadas. Despencou para 21º do mundo, mas aos 34 anos está disposto a disputar o calendário completo mais uma vez.
– Daniel Nestor foi o primeiro duplista a superar a casa das mil vitórias na carreira (1.035) e foi seguido por Mike Bryan (1.018) e Bob Bryan (1.004).
– Monica Puig deu a primeira medalha de ouro ao esporte de Porto Rico com campanha irretocável no Rio, derrotando três campeãs de Slam (Kerber, Muguruza e Kvitova).

Balanço final
Este é o 201º artigo que publico em 2016, o ano que o Blog do Tênis completou 10 anos de existência.

Dá mais de um post a cada dois dias. Quase metade teve pelo menos 100 comentários e nada menos que 28 superaram a marca de 200. O recorde ficou com os 414 de ‘O Stanimal reaparece’, pouco acima dos 407 de ‘Djokovic pode superar Federer e Nadal pela primeira vez’.

Meu post predileto? O que saiu no dia em que Murray ganhou Wimbledon. ‘Murray já pode pensar no número 1′, mostrando que a distância daquele momento, de 4.845 pontos, poderia ser retirada ‘nas últimas semanas de 2016′.

Feliz Ano Novo a todos. Continuaremos juntos em 2017.