Déjà vu
Por José Nilton Dalcim
18 de maio de 2017 às 19:22

As quartas de final do Masters 1000 de Roma tem um forte clima de ‘já visto isso antes’. Teremos um terceiro duelo consecutivo entre Rafael Nadal e Dominic Thiem no saibro europeu e o reencontro sempre eletrizante de Novak Djokovic com Juan Martin del Potro. Nunca é demais lembrar que, caso justifiquem o favoritismo, o espanhol e o sérvio duelarão outra vez na semifinal de sábado.

Depois de fazer duas finais contra Thiem em Barcelona e Madri, que valeram importantes títulos, o austríaco pode ser coadjuvante de mais um feito de Rafa na temporada. Com a (inaceitável) derrota de Stan Wawrinka para John Isner, Nadal tem a chance de retomar já o terceiro lugar do ranking e colocar ainda mais pimenta no eventual duelo com Nole.

Nos jogos desta quinta-feira, pouca novidade para Rafa, que dominou como quis Jack Sock, e um dia animador para Djokovic, apesar de os dois terem perdido um game de serviço no segundo set. Ainda que tenha cometido alguns erros, o sérvio foi muito firme diante de Roberto Bautista no fundo de quadra e conseguiu ser agressivo no momento certo.

Thiem é quem deu um tremendo susto e precisou evitar três match-points contra Sam Querrey. Parece um tanto desgastado com o esforço das últimas semanas, ainda que Querrey seja um adversário que mereça respeito também no saibro.

Delpo é um problema e uma solução para Djokovic. O argentino jogou muito bem até agora em Roma e já bate muito mais o backhand. Por isso, ganhar de Delpo pode ser a injeção de ânimo que ainda falta a Novak. Embora seja o 18º duelo entre eles, é o primeiro no saibro desde Roland Garros de 2011, ou seja 13 confrontos atrás.

O lado de cima da chave tem todos os olhares em cima de Alexander Zverev, que atropelou um irreconhecível Fabio Fognini e terá pela frente Milos Raonic. A chance de chegar à final é grande para o alemão de 20 anos. O adversário de quem ganhar sai de Isner e Marin Cilic, ou seja, ele só tem grandes sacadores instáveis no fundo de quadra pela frente. Um título em Roma, sonhemos, levaria Zverev ao top 10.

As quartas femininas também chamam a atenção, especialmente porque a veteraníssima Venus Williams continua muito firme no saibro romano e desafia nada menos que a irregularidade de Garbiñe Muguruza. Quem ganhar, pega Katerina Pliskova ou Elina Svitolina.

A oportunidade parece muito boa para Simona Halep reafirmar sua boa fase e ganhar favoritismo para Roland Garros, já que é candidata natural à vitória contra a quali Anett Kontaveit e depois frente Kiki Bertens ou Daria Gavrilova.

Perdas e danos
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2017 às 19:07

Roland Garros perdeu em menos de 24 horas dois campeões e superestrelas. Nem bem o mundo do tênis havia engolido a decisão de Roger Federer de não ir a Paris pelo segundo ano consecutivo e veio o anúncio da Federação Francesa informando que não haveria qualquer tipo de convite para Maria Sharapova.

A maioria dos analistas do tênis parece concordar com Federer. Se o suíço não se preparou adequadamente e se julga sem condições de ganhar o torneio, não deveria mesmo jogar o Aberto francês e saltar diretamente para a grama. Não concordo. Para mim, Roger deveria ter disputado Roma e Paris. Não posso imaginar que um tenista de sua capacidade técnica inigualável tenha alguma dificuldade de adaptação ao saibro. Risco de contusão? Piada.

Claro que respeito a decisão e compreendo o motivo. Me parece que Federer resolveu fazer uma pequena pré-temporada para estar descansado e pronto para o objetivo de ganhar novamente Wimbledon. Ainda assim, não vejo o que um ou dois torneios tão importantes no saibro poderiam interferir nisso. Grama é quase sinônimo de Federer. A menos que ele venha com algum elemento novo que justifique a longa parada e o foco no treinamento, é um tanto estranho que ele precise de tanto tempo para estar totalmente pronto para a grama.

O caso de Sharapova – que de certa forma ficou em segundo plano depois que ela contundiu a perna e se retirou de Roma – só aumenta a polêmica sobre seu retorno. Roland Garros está sendo honesto em relação ao lema do esporte francês de combate ferrenho ao doping. E eu concordo. Para mim, é preciso mostrar ao atleta que não vale mesmo a pena o uso de substâncias proibidas e portanto só autorizaria convites para torneios de nível inferior (challengers ou ITFs) ou no máximo para o qualificatório de ATP e WTA, incluindo os Slam. Náo importa quem seja.

Claro que o maior dano dessas duas ausências recai sobre o público. Pior ainda para o feminino, que já não terá Serena Williams, mas também ruim para o masculino quando vemos a má fase de Andy Murray, a instabilidade de Novak Djokovic e o desinteresse de Stan Wawrinka.

O líder do ranking chegará a Roland Garros, onde defende o vice-campeonato, com apenas quatro vitórias nos quatro torneios preparatórios. Por ironia, a derrota desta terça-feira para um inspiradíssimo Fabio Fognini talvez tenha sido a menos tenebrosa de todas porque ao menos o escocês se mostrou mais competitivo, tentando bater o forehand e sacando melhor. Ainda assim, fez apenas 12 winners contra 31 do italiano, que tripudiou com deixadinhas e paralelas magníficas.

Vamos lembrar que Fognini deu trabalho a Nadal em Madri e, num momento tão estranho do circuito, pode ser uma boa surpresa em Paris caso tenha uma chave propícia, ainda mais agora que garantiu a condição de cabeça de chave. Fognini só fez uma campanha decente em Roland Garros até hoje, as quartas de 2011 quando se contundiu e não enfrentou Djokovic.

Ah, e sabem quem lucrou com a desistência de Federer? Ernests Gulbis. O letão era o primeiro de fora da lista de 104 participantes diretos e agora se livrou do quali. Hoje apenas 207º do ranking, ele fez um Roland Garros magnífico em 2014, tirando Federer, Tomas Berdych e levando Djokovic a quatro sets na semifinal.

A prova definitiva
Por José Nilton Dalcim
14 de maio de 2017 às 21:39

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o retorno triunfal de Rafael Nadal ao saibro – e ao circuito como um todo -, Madri respondeu todas as perguntas. Ainda que seja um torneio ‘fora da curva’ dentro do calendário da terra europeia, o canhoto espanhol fez uma campanha que não pode ser contestada.

Ao contrário de adversários menos gabaritados que havia enfrentado em Monte Carlo e Barcelona, a trajetória na Caja Magica foi a mais exigente possível dentro do que se tem hoje. Lutou três horas contra Fabio Fognini, atropelou Nick Kyrgios, segurou o ímpeto de David Goffin, não tomou conhecimento de Novak Djokovic e encontrou as melhores soluções diante de Dominic Thiem.

Na verdade, se pensarmos que Madri é até mais rápido do que muita quadra asfáltica, ainda mais quando se fecha o teto, Rafa também deixa bem claro que a receita encontrada pode ser suficiente quando o piso sintético chegar no segundo semestre.

Mas o momento é pensar no saibro. Declarou na coletiva oficial que jamais cogitou desistir de Roma e se poupar para Paris. Muito pelo contrário, vai ‘jogar o máximo’ no Fóro. Provavelmente, está na sua mira uma sucessão de conquistas inédita e inigualável: faturar todos os cinco grandes torneios do saibro.

Ele já fez coisas incríveis: em 2013, Barcelona, Madri, Roma e Paris; em 2012, Monte Carlo, Barcelona, Roma e Paris; em 2010, notável, os três Masters e o Slam do saibro; em 2008, Monte Carlo, Barcelona, Hamburgo e Paris; em 2005, 06 e 07, Monte Carlo, Barcelona, Roma e Paris.

Será que veremos o melhor Nadal de todos os tempos quando ele completar 31 anos?

A final deste domingo foi um belo espetáculo, porque felizmente Thiem não decepcionou como em Barcelona. Na verdade, teve suas chances de ganhar ao menos o primeiro set, já que liderou por 3/1 antes de fazer duas grandes bobagens, e depois teve dois pontos para ganhar o tiebreak. Nesses casos, no entanto, o mérito foi todo do espanhol.

Como costuma treinar muito com Thiem, Rafa sabia bem o caminho das pedras. Martelou o backhand, mas não se descuidou das paralelas e aplicou magníficas deixadinhas. O austríaco disparou seus golpes pesadíssimos, fez um voleio de cinema e soube se defender. Inegável que o primeiro saque ajudou demais a manter o equilíbrio. Definitivamente, é um respeitável top 10.

Títulos e número 1
E o domingo reservou dois títulos importantes para o tênis brasileiro.

Bia Haddad lavou a alma no saibro francês e enfim aparecerá no top 100, um lugar que sempre me pareceu reservado para seu jogo, que mistura potência, visão tática e boa mão. Que longa e sofrida trajetória para dar esse primeiro grande passo na carreira, que já vale também vaga direta em Wimbledon.

Dois coisas são essenciais para mantermos o otimismo em cima de maior evolução da canhota. Em primeiro, fará 21 anos dentro de 16 dias já com experiência de sobra, entre elas a de angústia e de perseverança. Depois, nesta caminhada que começou em fevereiro, já vimos título na Austrália e uma exibição digna contra Venus Williams na quadra dura, além da conquista de um WTA de duplas em Bogotá. Então, ufa, não depende apenas do saibro.

Muito importante também o segundo título em três finais de Masters da parceria Marcelo Melo-Lukasz Kubot, que demorou para engrenar mas agora está dando gosto de se ver. Estão sólidos com o saque, muito firmes na rede e a devolução melhorando a cada semana.

‘Girafa’ sobe para o terceiro lugar do ranking individual. E atenção: se ganhar Roma, voltará a ser o número 1 do mundo. Seria espetacular.