Mais um estranho no ninho
Por José Nilton Dalcim
21 de agosto de 2016 às 22:40

Marin Cilic conseguiu um grande feito neste domingo em Cincinnati. E não foi apenas encerrar a série de 22 vitórias consecutivas de Andy Murray, mas sim escrever seu nome numa curtíssima lista de tenistas de fora do ‘Big 4′ que conseguiram erguer um troféu de Masters 1000 nos últimos sete anos.

Se voltarmos a março de 2009, quando Murray ganhou seu primeiro torneio 1000 em Miami, vamos ver como esse feito é raro. Apenas sete antes do croata: Nikolay Davydenko (Xangai de 2009), Ivan Ljubicic (Indian Wells de 2010), Andy Roddick (Miami de 2010), Robin Soderling (Paris de 2010), David Ferrer (Paris de 2012), Stan Wawrinka (Mônaco de 2014) e Jo-Wilfried Tsonga (Canadá de 2014) conseguiram furar esse bloqueio.

As armas continuam basicamente as mesmas que levaram Cilic ao título inesperado do US Open de 2014: saque poderoso, forehand pesadíssimo, jogo forçado o tempo todo. Quando dá errado, claro, tende ao desastre. Como quase aconteceu no terceiro set diante de Grigor Dimitrov na madrugada de domingo, apenas 14 horas antes de ele voltar à quadra para encarar um dos jogadores de contra-ataque mais eficiente do circuito.

O título inédito e importante – desde o Slam, ele só havia ganhado um bi em Moscou – chega numa hora incrivelmente adequada, quando Cilic acaba de trocar Goran Ivanisevic por Jonas Bjorkman, que curiosamente trabalhou com Murray antes de ele reatar com Ivan Lendl. O sueco sempre foi adepto de um estilo bem agressivo, a partir do saque ou dos golpes de base, o que se encaixa perfeitamente bem ao que Cilic é capaz de produzir. Não vamos esperar dele uma mudança radical como a que Milos Raonic anda tentando, mas é certo que ele precisa avançar mais e encurtar os pontos, e daí o voleio é o melhor caminho.

Murray jogou mal a final, é bem verdade. Começou com a estratégia correta de baixar bem a bola, mas não insistiu nela. Um pouco porque Cilic estava muito bem no ataque de forehand para forehand, um pouco provavelmente pelo cansaço mental do escocês. Aplicação tática exige paciência e concentração. É notório o desgaste do britânico, que ainda irá voar neste domingo para casa e retornar quinta-feira para Nova York. Que aliás tem novidade e possíveis dores de cabeça, já que uma Arthur Ashe coberta e uma Grandstand completamente nova podem ser totalmente distintas das demais quadras do complexo. Esse no entanto é um tema para mais tarde.

Porque também é preciso ressaltar a importante conquista de Marcelo Melo neste domingo. Sempre muito afinado com Ivan Dodig, apesar de eles por vezes terem seus atritos de relacionamento, os dois títulos consecutivos em Toronto e Cincinnati os colocam como um dos sérios candidatos ao título do US Open, disputado num piso que combina muito melhor com eles do que o saibro de Roland Garros.

No feminino, incrível a final entre Karolina Pliskova e Angelique Kerber. A alemã também pagou um certo preço pelo cansaço do calendário exigente que fez – Montréal, Rio, Cincy -, mas acima de tudo ficou clara a tensão de jogar pelo número 1. E ainda deu o azar de encarar a competente tcheca, que não alivia. Saca muito bem, busca as linhas, força paralelas. Ficou confiante depois de tirar Garbine Muguruza e bastaram alguns games contra Kerber para ver que ela não estava disposta a ser coadjuvante.

A maratona do novo Murray
Por José Nilton Dalcim
18 de agosto de 2016 às 01:08

A ideia foi boa. Conquistado o sempre emocional título de Wimbledon, Andy Murray tratou de descansar. Não jogou a Copa Davis, abriu mão de Montréal e veio ao Jogos do Rio para iniciar a importante preparação para a temporada norte-americana de olho numa possível grande campanha no US Open.

Mas o desgaste nas Olimpíadas foi além do esperado, um tanto por culpa do próprio escocês, que esteve perto da derrota diante de Fabio Fognini e Steve Johnson, além de sofrer demais na grande final diante de Juan Martin del Potro. A medalha de ouro, histórica, poderá assim cobrar seu preço, porque há uma perigosa maratona a sua frente.

Murray fretou um jatinho com Rafa Nadal, voou imediatamente para Cincinnati e já estreou nesta quarta-feira à noite, tendo de pedir massagem no ombro direito por diversas vezes. Se quiser chegar pelo menos à final e reiniciar a ameaça à liderança de Novak Djokovic, terá de jogar todo dia até domingo. A motivação é boa porque, em caso de título, chegará ao US Open apenas 815 pontos atrás de Nole no ranking da temporada.

Assim que acabar a missão em Cincinnati, ele voará para casa a fim de rever a família. Será bem curto, porque são apenas sete dias até encarar a busca pelo bi em Nova York, onde obviamente se espera trabalho árduo. Por sorte, será o cabeça 2 e assim pode ter uma chave boa à frente, porém todo mundo sabe que cinco sets, dia sim, dia não, exigem muito, e Murray não tem exatamente o hábito de simplificar as coisas, muitas vezes se complicando em partidas que deveriam ser triviais.

Para encerrar o vendaval de emoções, ele terá um tempo mínimo para se preparar a um novo compromisso importante, porque cinco dias depois do US Open já vem a semifinal da Copa Davis contra a Argentina, marcada para Glasgow, diante de 10 mil pessoas, onde deve reencontrar o amigo pessoal Del Potro.

É inegável que Andy vive a melhor temporada de sua carreira, ainda que tenha aberto mão de uma parte do calendário devido ao nascimento da filha. Pela primeira vez, chegou a todas as finais de Grand Slam até agora; foi incrivelmente bem no saibro, com título em Roma e vice em Paris; colocou novamente a medalha de ouro no pescoço. E ainda retomou a parceria com Ivan Lendl, de onde se espera novo crescimento técnico.

Lendo um artigo do Guardian, nota-se como Andy está mudando como pessoa e isso fatalmente se reflete no seu tênis, já tão genial. A presença no Rio pode ter sido mais um ponto importante nessa direção. Ele não passou um dia sequer no apartamento que alugou para seu time fora da Vila. Preferiu dividir o quarto com o irmão Jamie, algo que não faziam há anos, e divertiu-se demais. “Me senti parte de uma coisa muito maior que apenas o torneio de tênis”, afirmou, alegre por ter “batido papo com os mais variados atletas”.

Ele deixou o que o jornal chama de ‘sua bolha’ e foi assistir às rodadas de golfe, finais da ginástica. Conversava com todo mundo, jamais deixou sua porta fechada. Sabia o que acontecia nas mais diferentes modalidades e se interessava pelo resultado de cada britânico. Claro que ele era reconhecido em todos os lugares, mas se integrou muito bem.

Amigo e integrante do time, Leon Smith está admirado com o ‘novo Murray’. Segundo ele, o bi olímpico era uma meta pessoal enorme para Andy. “Ele já vinha jogando um grande tênis, mas Wimbledon foi o ápice. Acho que vai ficar cada vez mais difícil ganhar dele”.

Chave de ouro
Por José Nilton Dalcim
14 de agosto de 2016 às 22:45

Até Zeus parou tudo lá no Olimpo para apreciar esta final olímpica de tênis. Jogo perfeito para encerrar uma competição empolgante, movida a suor e lágrimas, com campeões inesperados, feitos históricos, torcida intensa e participante, exposição máxima do tênis na mídia mundial.

Andy Murray e Juan Martin del Potro competiram palmo a palmo com o máximo de qualidade e coração que podiam dar, e isso é o que se espera de dois ícones. Usaram ao máximo suas melhores armas, porém não relutaram em adotar outras, menos comuns. O argentino explorou claro o saque e o forehand, mas deu deixadinhas e voleios lindos. Murray se defendeu como um louco, fez espetáculos com o backhand, mas também bateu o forehand e deu slices estonteantes.

O jogo se desenrolou tão intenso que merecia um quinto set e nem sei dizer se merecia um vencedor. Mas o esporte é assim, exige um campeão e o bi olímpico está nas excelentes mãos do versátil escocês. O melhor de tudo no entanto esteve no renascimento completo de Delpo, que se superou até no aspecto físico, mostrando aquela garra que tanto conhecemos e golpes que tanta fazem ao circuito.

O domingo foi excelente nas outras disputas olímpicas. Embora com nível técnico muito inferior e mais emocional, Kei Nishikori tirou o bronze de Rafael Nadal em jogo que aconteceu de tudo. O espanhol entrou lento, teve de mudar o padrão tático e o adversário disparou, com 6/2 e 5/2. Aí começou outra partida, com o Rafa lutador e o Nishikori vacilante. Até por fim uma quebra no terceiro set ter definido a primeira medalha olímpica do tênis japonês em 96 anos. A se lamentar apenas a forma protocolar com que Kei comemorou o feito.

Bem diferente do entusiasmo contagiante das russas Ekaterina Makarova e Elena Vesnina e muito mais ainda de Bethanie Mattek-Sands, que faturou as mistas com Jack Sock. Até Martina Hingis e Timea Bacsinszky estavam emocionadas ao receber a prata para a Suíça.

Tomara que todas essas imagens cativantes atinjam os dirigentes e que eles repensem a bobagem que é a briga de egos que só prejudica o esporte. Os tenistas, que são os que importam, deixaram bem claro o valor de disputar as Olimpíadas, com ou sem pontos. Curtindo a Vila, sem se importar com os patrocinadores pessoais – Bellucci por exemplo trocou Adidas e usou Asics na quadra e Nike no dia a dia -, preocupados apenas em dar espetáculo, lutar pela vitória e buscar a glória.

Zeus hoje dormiu mais feliz.