Como nos velhos tempos
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2017 às 12:32

A expressão facial de Tomas Berdych ao se dirigir para o cumprimento diz mais do que eu possa escrever neste Blog. Sobrancelha erguida e sorriso amarelo, foi um simples e objetivo ‘hoje não tinha jeito’. Exatamente isso. Roger Federer jogou como nos velhos tempos e, quando o faz com tamanha agressividade, soltura e precisão, é praticamente impossível fazer alguma coisa.

A vitória de Federer não me surpreende – havia dito que Berdych não anda jogando tanto assim -, mas admito que não esperava volume tão grande de jogo por parte do suíço, que sufocou o tcheco a maior parte do tempo. Foi cirúrgico nas quebras, extremamente eficiente com o saque a favor, alongou o forehand e novamente mostrou aquela melhoria no backhand que venho alertando desde a Copa Hopman. Foram 40 winners em 18 games, nove deles de backhand. O último game espelhou com perfeição: quatro bolas vencedoras dos mais variados tipos.

Ainda assim, Kei Nishikori é favorito para ir às quartas de final, o que não é de todo ruim para Federer. O japonês é muito mais consistente no fundo de quadra que Berdych e, se o jogo for à noite como é natural que seja, será mais difícil para o suíço atacar e evitar os contragolpes espertos de Nishikori. A maior chance parece residir no segundo saque pouco contundente do japonês.

Quem sobreviver, terá muito provavelmente Andy Murray pela frente. Sem qualquer sinal da torção sofrida no pé direito do jogo anterior, o escocês jogou como autêntico número 1 diante de Sam Querrey, mesclando excepcionais defesas com ataques fulminantes. Fez de tudo um pouco e só mesmo a quebra cedida no terceiro set prejudicou sua performance. Vai encarar agora o estilo agressivo do canhoto Mischa Zverev, que foi 66 vezes à rede contra Malek Jaziri.

Stan Wawrinka levou um susto no primeiro set, depois dominou Viktor Troicki mas voltou a ter perigosos altos e baixos no quarto set. Sacou duas vezes para o jogo e não aproveitou, um tanto ansioso. Repetiu a falha no tiebreak e aí teve de evitar set-point. Mas já nos acostumamos com essas ‘viajadas’ de Stan. Ele pega agora Andreas Seppi, a quem já enfrentou 15 vezes e somou 10 vitórias, porém não se cruzam há quase três anos.

A outra novidade da chave masculina é o britânico Daniel Evans, um tenista de 26 anos que só agora parece ter encontrado um padrão de jogo. Vale lembrar que ‘Evo’ teve match-point para eliminar Stan na terceira rodada do US Open. Sofreu uma contusão no pé que limitou seu fim de temporada, mas começou 2017 com vice em Sydney. Daí se entender a confiança para tirar Marin Cilic e Bernard Tomic na sequência deste AusOpen, com um tênis gostoso de se ver, em que mescla força e jeito e mostra boa mão com o backhand simples.

Se mantiver tal qualidade, deve ser bem divertido o duelo diante de Jo-Wilfried Tsonga. O francês teve mesmo um jogo duro contra Jack Sock, mas continua a se aproveitar bem da nova velocidade do piso-bola. Disparou mais 23 aces e mostrou ótimo preparo físico para aguentar três sets bem exigentes dos quatro que fez.

A rodada feminina foi acima da minha expectativa. Ótimos duelos, principalmente de Anastasia Pavlyuchenkova em cima de Elina Svitolina, mas também a batalha de 3h36 entre Sveta Kuznetsova e Jelena Jankovic. As duas russas se encaram e quem ganhar deve encarar a veteraníssima Venus Williams.

Duelo também intenso marcou a vitória de Coco Vandeweghe em cima de Eugénie Bouchard. A americana tem um ar um tanto arrogante e por isso mesmo pode dar trabalho à campeã Angelique Kerber. Quem enfim teve uma vitória tranquila foi Garbiñe Muguruza, favorita agora diante de Sorana Cirstea e um desafio para Kerber, já que ganhou os quatro últimos confrontos diretos.

Sábado quente
– Istomin tenta manter embalo e tem chances reais diante de Pablo Carreño. O uzbeque não ganha três jogos seguidos em nível ATP desde o título em Notthingham de 2015.
– Zverev busca quarta vitória seguida sobre um top 10 diante de Nadal. Além disso, será apenas a terceira vez na Era Profissional que dois irmãos chegam juntos às oitavas de um Slam (Gene e Sandy Mayer em Wimbledon-1979 e Emílio e Javier Sanchez no US Open-1991 foram os outros)
– E pode haver um terceiro alemão na quarta rodada, caso Kohlschreiber passe por Gael Monfils. Mas o francês tem 12-2 nos duelos, sendo 4 seguidos.
– Ainda com poucos holofotes sobre si, Raonic tenta quarta vitória em cinco jogos diante de Simon.
– Thiem x Paire e Gofin x Karlovic são duelos inéditos no circuito. Já Gasquet tem 5-1 em cima de Dimitrov e Ferrer, 2-0 sobre Bautista.
– Em chave agora tranquila, Serena volta a enfrentar Gibbs, 92ª do mundo, depois de cinco anos e fica de olho em Strycova, que é favorita sobre Garcia com cinco vitórias seguidas, três em 2016. No lado oposto deste setor da chave, Pliskova já deu dois ‘pneus’ e só cedeu quatro games. Enfrenta Ostapenko, de 19 anos e 38ª do ranking.

A casa caiu
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2017 às 12:04

Se a derrota de Novak Djokovic para Sam Querrey em Wimbledon foi um susto para o circuito, o que dizer então do fim de sua gigantesca soberania em Melbourne diante de um adversário que nem é top 100, em plena segunda rodada? Difícil até acreditar.

Djokovic não perdia tão cedo num Slam desde Wimbledon de 2008 e jamais havia sido superado por um adversário fora do top 100 em Slam. Na Austrália, a sensação de vazio é ainda maior. Nole vinha chegando pelo menos às quartas nos últimos nove anos, tendo ganhado cinco das seis edições mais recentes.

Tudo seria apenas um acidente de percurso tão natural no tênis não fosse a longa sequência de altos e baixos que Nole mostra desde Roland Garros do ano passado. Houve é certo o vice no US Open, no Finals e o título em Toronto, mas também decepções grandes. Isso custou a liderança do ranking, que agora fica bem mais distante. O recente título em Doha em cima de Andy Murray sinalizou a recuperação da confiança, mas é certo que viria pressão em Melbourne.

O que talvez mais me tenha surpreendido nessa derrota para Istomin tenha sido a queda nos dois tiebreaks, momentos em que Djokovic costuma impor sua agressividade e enorme poder mental. Ainda mais o primeiro desempate, em que o sérvio vinha de recuperação no set e chegou a ter 4-1 e depois um set-point fácil. Também é notável que tenha permitido a virada após ter 2 sets a 1. O que teria faltado? Achei que ele ficou passivo demais em alguns pontos importantes.

O uzbeque, acima de tudo, merece todos elogios. O ex-33 do ranking usou bem o saque na quadra veloz, mostrou vigor físico para aguentar as trocas e pareceu confiar o tempo todo, apesar das cinco derrotas que já havia sofrido. Assim, raramente deixou de arriscar, tentou ganhar cada ponto, mesmo sob tensão.

Uma coisa é certa. A queda tão precoce de Djoko anima todo mundo. Principalmente quem estava do seu lado da chave, como Rafa Nadal e Milos Raonic. E também Murray, que amargou tantos dissabores em Melbourne frente a Nole. O canhoto espanhol passeou diante de Marcos Baghdatis, em jogo em que impôs as trocas de bola e mostrou forehand e pernas impecáveis, e Raonic fez o básico em cima de Gilles Muller. Agora vem o tão aguardado reencontro entre Nadal e Alexander Zverev. Aí a coisa deve pegar fogo.

A chave feminina também assistiu uma surpresa das grandes, com a queda de Aga Radwanska para a veterana Mirjana Lucic em dois rápidos sets. A croata não vencia um jogo sequer em Melbourne desde 1998, amargando sete derrotas na estreia. Mas já fez uma semi em Wimbledon, o que mostra sua boa adaptação a pisos mais velozes.

Destaque também para a atuação muito firme de Serena Williams diante da canhota e habilidosa Lucie Safarova, com direito a 15 aces, muita vibração e elogios à tcheca. Interessante está o quadrante que agora reúne Cibulkova x Makarova e Wozniacki x Konta. Em cima, Karolina Pliskova desfilou, mas pode ter sufoco contra Daria Gavrilova nas oitavas.

Para finalizar o dia cheio de surpresas, os campeões Bruno Soares e Jamie Murray se despediram na estreia para a improvável parceria de Sam Querrey e Donald Young. Como André Sá também perdeu ao lado de Leander Paes – em jogo que deveriam ter vencido -, apenas Marcelo Melo, com Lukasz Kubot, e Marcelo Demoliner, ao lado de Marcus Daniell seguem adiante.

A próxima rodada já determina os primeiros classificados para as oitavas de final e traz duas expectativas principais: Murray estará recuperado do tornozelo para encarar Querrey e correr muito atrás da bola? Roger Federer terá pernas e confiança para conter a potência de Tomas Berdych? Também merecem atenção Tsonga-Sock e Wawrinka-Troicki, com favoritismo do francês e do suíço.

No feminino, interessante ver Angelique Kerber contra a outra Pliskova, o duelo de força entre Bouchard-Vandeweghe, as veteranas Kuznetsova-Jankovic. Estou de olho em Elina Svitolina…

Sinal de alerta
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2017 às 12:08

Um número 1 machucado? Um supercampeão rebaixado? A campeã desgastada? O futuro jogado no lixo? A rodada desta quarta-feira do Australian Open gera uma série de alertas para agora e para o futuro.

Andy Murray fez uma apresentação irretocável, usando todos seus recursos como sempre gosta de fazer para atordoar os novatos, mas eis que um lance bobo pode tirar seu sono. Ele torceu o pé direito no começo do terceiro set, algo que não o impediu de completar a vitória sobre Andrey Rublev, mas que pode mudar de figura quando o corpo esfriar. Ainda mais que o adversário seguinte, Sam Querrey, é do tipo que exige máxima competência na defesa.

Apesar da vitória em três sets, Roger Federer não teve uma apresentação convincente diante do top 200 Noah Rubin e mostrou certa e natural dificuldade diante de um adversário de base consistente. Agora vem Tomas Berdych, cujas qualidades no saque e nos golpes de fundo são muito superiores do garoto americano. Federer vai ter de jogar melhor e não vacilar no serviço. Se perder, deixará o top 30 pela primeira vez desde outubro de 2000.

Há também evidente pressão em cima de Angelique Kerber, a aniversariante do dia. Nos dois jogos em que tinha todo o favoritismo, a alemã variou demais, perdeu a paciência e precisou correr muito além do necessário. Ainda não dá para dizer que corra riscos reais de derrota, porém a confiança pode diminuir na hora dos jogos realmente importantes.

Quem está definitivamente no sinal amarelo máximo é Nick Kyrgios. Não porque tenha levado uma virada e sido eliminado, mas pelo descontrole emocional inexplicável a partir da quebra sofrida no final do terceiro set. Entrou no buraco e deveria ter perdido muito antes de ter o direito a um match-point, muito bem jogado por Andreas Seppi. Pior ainda, vai para as entrevistas armado de mau humor e respostas afiadas, provocando todo mundo. Admitiu ter feito pré-temporada desleixada e que precisa de um treinador. Cada semana que passa, cada derrota sofrida só aumentam o descrédito.

Os destaques positivos da rodada masculina foram Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga. O campeão de 2014 disparou tiro por todos os lados e tem tudo para superar um Viktor Troicki que já fez 10 sets. Ainda por cima, se livrou de Kyrgios e pode ter Seppi ou Steve Darcis nas oitavas. Tsonga mostrou um tênis exuberante, agressivo, cirúrgico. Gosta mesmo de jogar na Austrália e o piso mais veloz cai como uma luva. Precisa tomar cuidado com Jack Sock. Quem passar terá Bernard Tomic ou o surpreendente Daniel Evans, que virou em cima de Maric Cilic, o primeiro top 10 a se despedir.

No feminino, agora já são nove das 16 cabeças do lado inferior da chave eliminadas ainda na segunda rodada. Kuznetsova, Jankovic e Venus são as veteranas que concorrem a uma semi. A campeã olímpica Puig parou no vigor da qualificada Mona Barthel e Garbine Muguruza ganhou mas confessou não estar com o físico em dia.

Curtas
– Não foi apenas Kyrgios quem levou virada e perdeu match-point. John Isner viveu script idêntico contra Mischa Zverev, em jogo de três tiebreaks e 9/7 no quinto set. O irmão mais velho de Alexander não ia tão longe num Slam desde Wimbledon de 2008.
– Fato curioso, Mischa admitiu depois que nem sabia que era match-point: “Estava 5/4 mas eu pensei que era 4/3″.
– Cilic garante que não conseguiu se preparar bem para 2017 por causa da decisão da Copa Davis, no final de novembro, e assim já coloca em dúvida sua presença no torneio por equipes. Foi exatamente esse motivo que determinou a ausência de Juan Martin del Potro em Melbourne.
– Murray atingiu a 178ª vitória de Slam na carreira e igualou o fenomenal Stefan Edberg. Está em oitavo lugar e terá de remar muito para ser o 7º homem a atingir 200 triunfos na Era Profissional.
– Aos 36 anos e fora do top 100, Victor Estrella pode ter feito seu 12º e último Slam. Daí deixar a quadra em lágrimas. Do alto de seu 1,73m, foi gigante e deu trabalho enorme a Tomic. O dominicano joga com alegria e isso faz falta no circuito.
– Nesta quinta, Djokovic é superfavorito diante de Istomin, 117º do ranking. A única derrota de Nole para um adversário fora do top 100 nos últimos sete anos foi aquela para Delpo no Rio.
– Nadal só perdeu 1 de 9 duelos contra Baghdatis (em 2010).
– Três bons jogos da nova geração marcam a programação: Thiem-Thompson, Zverev-Tiafoe e Dimitrov-Chung.
– Serena ganhou todos os 9 duelos contra Safarova, a rainha das viradas, o mais recente deles na final de Roland Garros de 2015.
– Rogerinho Silva tenta dois feitos inéditos: chegar na terceira fase de um Slam e entrar para o top 80 do ranking. O adversário é o incansável Gilles Simon. Jogo previsto para 23h30.
– É consenso entre os tenistas que o piso está mais rápido e que há grande diferença entre jogar de dia ou de noite neste AusOpen. Felizmente, o calor forte foi embora – na sexta-feira a máxima será de 20 graus – e só deve voltar no domingo.