Nadal reafirma retorno forte
Por José Nilton Dalcim
23 de abril de 2017 às 15:39

Depois de três finais na quadra dura, Rafael Nadal retornou a seu habitat natural e confirmou seu retorno forte ao circuito em 2017. Tenista com maior número de vitórias desde janeiro, o ‘rei do saibro’ escreveu nova página na história do tênis neste domingo em Monte Carlo e se coloca como candidato cada vez maior para Roland Garros.

O 10º troféu em 11 finais na terra batida do Principado é um assombro em si. Atesta não apenas a incrível eficiência do canhoto espanhol mas uma longevidade de se aplaudir de pé. Desde sua estreia, perdeu apenas quatro partidas. Em 2004, ainda juvenil, chegou a eliminar o então 7º do mundo Albert Costa. Aí emendou oito troféus seguidos antes de enfim perder para Novak Djokovic na final de 2013. Ou seja, nove decisões consecutivas. Além de Nole, apenas Guillermo Coria e David Ferrer o derrotaram lá.

Num momento em que Andy Murray não honra o número 1, Djokovic ainda se debate com seus fantasmas e Roger Federer se abstém do saibro, Nadal tem todo o direito de sonhar com seu 10º Roland Garros. Ele já seria sempre um candidato natural às rodadas decisivas, mas agora pode se tornar outra vez o homem a ser batido.

Vale rever a lista de grandes façanhas de Rafa após outro mágico domingo em Monte Carlo:

– Primeiro tenista na Era Profissional a ganhar 10 vezes o mesmo torneio.
– Recordista isolado de títulos no saibro, com 50.
– Atinge o 70º troféu da carreira, quinta maior coleção, atrás das 77 de John McEnroe.
– Soma 29 conquistas em Masters e gruda novamente no recordista Novak Djokovic, que tem 30.
– Chega a 21 troféus de Masters sobre o saibro, marca absoluta.
– Tem incríveis 50 títulos no saibro em 58 finais disputadas.
– Soma agora 14 temporadas consecutivas com ao menos um troféu de nível ATP (desde 2004)
– Contabiliza 370 vitórias e apenas 34 derrotas sobre o saibro ao longo da carreira, aproveitamento que beira os 92%.
– Dessas 34 derrotas, 12 aconteceram antes de ganhar Monte Carlo pela primeira vez, em 2005.
– Jamais perdeu uma decisão de campeonato para outro espanhol em 15 disputas.

Bad call
Por José Nilton Dalcim
22 de abril de 2017 às 17:52

Cédric Mourier estragou tudo. A segunda semifinal de Monte Carlo prometia equilíbrio e emoção, principalmente porque David Goffin mantinha até então o embalo da atuação ousada diante de Novak Djokovic e exigia muito de Rafael Nadal. O erro do árbitro não apenas lhe tirou o 4/2, que viria depois de um game duro, mas também afetou a concentração e em seguida a confiança do belga.

Claro que podemos criticar Goffin por não ter tido o equilíbrio emocional necessário. Ele afinal não é um jogador inexperiente. Porém totalmente compreensível sua frustração. Não sou psicólogo, mas me parece que, se ali estivesse um Fabio Fognini ou um Nick Kyrgios, o estrago seria menor. Goffin não é do tipo que joga a frustração e a raiva para fora, e ficar remoendo a situação consigo mesmo afeta muito mais um tenista do que gritar, xingar o juiz ou quebrar uma raquete.

Mourier deu sinal verde para que a ATP reveja a necessidade de se colocar o ‘desafio eletrônico’ também no saibro. Não se discute normalmente se a bola foi dentro ou fora – a marca é quase sempre bem visível – porém a dúvida eterna é qual foi a marca que o lance deixou na quadra. Já vimos vários desses casos nos últimos tempos.

O caso deste sábado repetiu o problema, com enormes agravantes: foi uma bola sem tanta velocidade, caiu bem longe da linha, o juiz auxiliar gritou fora e o próprio Goffin parou o lance. Mourier tem autoridade para passar por cima de tudo isso, mas não custaria nada consultar o juiz de linha diante da reclamação inconformada de Goffin. “Você fez o mesmo com o Troicki em Roma”, reclamou o belga, lembrando da confusão criada com o sérvio no ano passado. Está na hora de a ATP chamá-lo para uma reciclagem. O aristocrático público vaiou muito.

Nadal, claro, não teve nada a ver com isso. Continuou fazendo seu jogo paciente e regular, alimentando o adversário com erros. Aquelas bolas de maior risco de Goffin sumiram após a confusão. Se a tarefa de equilibrar o jogo com Nadal no saibro já era complicada, mais do que natural que o canhoto espanhol disparasse com a queda do adversário. Dos 11 games seguintes, ganhou 10.

Só um desastre irá tirar o histórico 10º troféu de Rafa em Monte Carlo, onde é rei absoluto. Após três vices na temporada, ele enfim deve voltar aos títulos, algo que não acontece há exatos 12 meses. Poderá recuperar o quinto lugar do ranking com a vantagem de já ter também defendido o troféu de Barcelona do ano passado. O que fizer na próxima semana será lucro total.

Albert Ramos, claro, não é um tenista ruim. Aos 29 anos, consegue a maior campanha de sua carreira e entra enfim no top 20. Vive um sonho nesta altura de sua vida profissional. Não tem porém qualquer arma para superar Nadal em condições normais. Na verdade, seu jogo é uma versão simplificada do próprio Rafa, porém com menos pernas.

Goffin enfim sobe um degrau
Por José Nilton Dalcim
21 de abril de 2017 às 17:25

Quando David Goffin chamou a atenção do circuito, ainda em 2014, a aposta é que ele seria um saibrista para incomodar os grandes. Nunca conseguiu. O máximo que fez foram quartas em Roma, em 2014 e 2015, tendo sucesso bem maior nas semis de Indian Wells e Miami do ano passado. Incrivelmente, jamais ganhou de um cabeça de chave sequer em Roland Garros, ainda que tenha chegado uma vez nas quartas.

A vitória sobre Novak Djokovic desta sexta-feira talvez seja a melhor coisa que aconteceu em sua carreira. Nem tanto pelo resultado, mas por sua postura em quadra. Depois do primeiro set sonolento do adversário, viu que não conseguiria mais competir com Nole nas trocas de bola. Dominado até o 0/2 do terceiro set, soltou o braço, arriscou paralelas, pegou bolas na subida, desafiou o backhand do sérvio. Virou outro tenista, compenetrado, agressivo, eficiente.

Esse terceiro set aliás foi tecnicamente um dos melhores da temporada. E isso ameniza, ainda que não conforte, a nova queda inesperada de Djokovic. Ele não jogou mal, manteve-se sereno e lutador o tempo todo, buscou alternativas. O saque salvador o abandonou nas horas mais delicadas. Claro que derrotas não ajudam na confiança, mas Monte Carlo mostrou um Djokovic bem mais leve de cabeça e pernas.

Se mantiver o espírito e a coragem, Goffin tem uma chance contra Rafa Nadal, ainda é claro que o espanhol seja o favorito natural. O eneacampeão mostrou fragilidades quando atacado por Diego Schwartzman, outro que acreditou numa tática ousada e teve momentos espetaculares, mesmo na lentidão do saibro noturno que favorece tanto as defesas do canhoto espanhol. Observe-se que houve 10 quebras em 20 games disputados e que Schwartzman ganhou 65% das trocas mais longas.

Livre de Djokovic, Rafa vislumbra outro momento histórico na carreira. Melhor ainda, pode encostar em Roger Federer no ranking da temporada e também terá direito a sonhar com uma volta ao número 1 lá no fim do calendário. Ainda mais com os dois líderes de hoje tão irregulares.

Renovando o saibro
A outra semifinal é totalmente inédita em torneios desse quilate: Lucas Pouille, 17º do ranking aos 23 anos, e o canhoto Albert Ramos, 24º da lista e seis anos mais velho. Claro que os dois aproveitam o buraco deixado por Andy Murray, Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga, porém não é nada ruim para o circuito ver rostos novos em alto nível logo na abertura da temporada de saibro.

Ramos merece especiais elogios. Sem um tênis vistoso ou golpes espetaculares, faz o feijão com arroz e se empenha ao máximo. Conseguiu duas reações seguidas, a primeira aquela incrível virada em cima de Murray saindo de 0/4 no terceiro set, a outra em cima do experiente Marin Cilic, que fez 2/0 no set decisivo desta sexta-feira.

Por muito pouco, não teríamos a repetição da final do Brasil Open em plena semi de Monte Carlo. O ‘trintão’ Pablo Cuevas teve a vitória nas mãos, mas aí parece ter duvidado de si mesmo quando teve saque e 5/4. Não ganhou mais games, desperdiçando ainda um break-point bobo no 5/5.

Tenista com grande capacidade técnica e por isso mesmo muita variação, Pouille precisa pagar uns três meses de curso intensivo com Rafa para desenvolver o que mais lhe falta: a melhor escolha de golpes. Daí tenho certeza de que dará outro salto grande na carreira.
Aliás, uma eventual presença na final o deixará a 220 pontos do top 10, que provisoriamente volta a ser ocupado pelo próprio Goffin.

P.S.: Neste momento, cinco dos 10 primeiros colocados no ranking da temporada têm no máximo 26 anos. E olha que nessa lista não estão Pouille, Nick Kyrgios e Alexander Zverev. Será que 2017 marcará uma virada no tênis masculino?