Modo de economia
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2016 às 00:18

Para quem saiu do Rio e de Cincinnati com cara de esgotado, Andy Murray tinha mesmo de levar a sério sua estreia no US Open. Sem brincadeiras, aproveitando as oportunidades de quebra e com um saque bem calibrado, passou com tranquilidade pelo encardido Lukas Rosol, um adversário que gosta de colocar pressão e variar o ritmo.

Faltou ao escocês, a meu ver, a disposição de ir mais à rede e evitar o desgaste de correr tanto atrás da bola nos contra-ataques de fundo de quadra. Ele tentou apenas 12 voleios, ainda que tenha vencido 10 desses pontos. É pouco para sua qualidade. Agora, enfrentará o veterano espanhol Marcel Granollers, que tem um pouco de Rosol no quesito ofensividade e boa mão.

As vitórias de Stan Wawrinka e Juan Martin del Potro também foram em sets diretos, mas nos dois casos achei que ambos poderiam ter sacado bem melhor. Isso facilitaria para definir com maior rapidez os pontos, pouparia o físico e evitaria riscos. De qualquer forma, os dois também entraram no ‘modo econômico’ e jogaram o suficiente. A diferença é que Wawrinka enfrentará um desconhecido Alessandro Giannessi, enquanto Delpo vai encarar o cabeça 19 da casa Steve Johnson.

Dos 64 jogos masculinos de primeira rodada, 18 foram ao quinto set e desses sete marcaram viradas de 2 sets abaixo. A maioria dos analistas acredita que o piso um pouco mais veloz em Flushing Meadows é o responsável por esse maior equilíbrio tão precoce. Gostei.

Destaques
Que estreia diferente de Serena Williams. Há muito tempo não a via tão tranquila, consciente e concentrada numa primeira rodada de Grand Slam. Nada de gritos, exageros na força ou jogadas mirabolantes. Foi é claro agressiva, pressionou nas devoluções e sacou com notável eficiência, porém tudo de forma tão absurdamente natural que não deu espaço para a boa canhota Ekaterina Makarova se aventurar.

A rodada feminina teria sido trivial, com vitórias fáceis de Aga Radwanska, Simona Halep e Karolina Pliskova, não fossem os altos e baixos de Venus Williams, que só foi ganhar no terceiro set. Mas ela tinha seus motivos: nesta terça-feira, passou a ser a profissional com maior número de Grand Slam disputados (72), à frente de Amy Frazier (71) e Fabrice Santoro (70).

E o que dizer da ‘bicicleta’ que Teliana Pereira levou em 46 minutos? Claro que é um resultado frustrante para a brasileira, que vive um momento sem confiança recheado de derrotas fulminantes. Curioso lembrar que no ano passado ela deu sufoco na eventual campeã, Flavia Pennetta. É evidente que terá de repensar calendário agora que o ranking desabou – deve sair do top 150 após o US Open – e remar tudo de novo. Tomara que a velha garra ainda esteja lá.

Drops
– Janko Tipsarevic eliminou Sam Querrey e de certa forma vingou o amigo Novak Djokovic. Não sei se é um recorde, mas Tipsarevic já se retirou 18 vezes em meio a uma partida em sua carreira, sendo seis delas de Grand Slam. Retorna após séria contusões no pé e joelho, tendo entrado com ranking protegido uma vez que ocupa o 250º posto.
– Damir Dzumhur despachou o intragável Bernard Tomic em quatro sets. O bósnio de 24 anos nunca havia vencido no US Open em quatro tentativas (dois qualis e duas chaves principais). Tomic falou barbaridade para um espectador e espera-se punição da ATP.
– Dominic Thiem não está convencendo. Ele machucou o quadril em Toronto e pulou fora de Los Cabos. Parece desanimado e errático. Escapou hoje no quinto set.
– Jared Donaldson não mereceu aposta da USTA, ficou sem convite mas passou o quali e causou a maior surpresa do torneio até agora ao tirar o cabeça 12 David Goffin. O garoto de 19 anos e 1,88m é pouco badalado. O belga, nosso adversário na Copa Davis dentro de 19 dias, nunca brilhou mesmo em Nova York, barrado nas terceiras rodadas dos dois últimos anos.

Djokovic supera a si mesmo
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2016 às 00:11

O polonês Jerzy Janowicz fez aquilo que melhor sabe: bater com a máxima força na bola. No entanto não foi ele o maior adversário do sérvio Novak Djokovic na estreia do US Open, mas sim o próprio Nole. Com desconforto no cotovelo direito, que prejudicou o saque e o forçou a usar muito mais os efeitos e a precisão, o desafio nesta primeira rodada do US Open foi dominar a frustração e a ansiedade.

Assim que fez isso, o jogo ficou fácil. Apesar da potência, Janowicz peca pela falta de apuro tático e pelo exagero. Djokovic esperou as brechas e, mesmo com o saque deficiente, sua poderosa devolução fez a maior parte do serviço necessário. Agora, irá reencontrar o canhoto Jiri Vesely, que fez uma partida bem ruim e só não foi para casa porque o desconhecido indiano Saketh Myneni sentiu cãibras.

De qualquer forma, a preocupação sobre o estado físico de Djokovic é indisfarçável. Ele chegou falando em dúvida quanto ao punho esquerdo, mas na verdade mostrou incerteza com o cotovelo direito, o mesmo que o perturbou no Rio e compromete o saque. Se a história do punho não foi um disfarce, então ele está com dois problemas a resolver, algo nada prazeroso num torneio tão longo e desgastante.

Rafa Nadal, por sua vez, fez um treino de luxo contra Denis Istomin. Sacou bem, empenhou-se no fundo da quadra, apesar de algumas bolas estarem curtas. Agora tem um jogador mais duro, Andreas Seppi, porém com poucas armas. Milos Raonic e Jo-Wilfried Tsonga parecem ter gostado muito do piso, que está rápido.

Destaques
Três chances, e o tênis masculino brasileiro se despediu rapidamente do US Open. Se Rogerinho Silva superou a expectativa e fez dois sets muito decentes diante de Marin Cilic, o mesmo não se aplica a Thomaz Bellucci, com tremendos altos e baixos, um quarto set na mão e um adversário, Andrey Kuznetsov, se arrastando pela quadra. Não houve imagem de Guilherme Clezar, então não dá para dizer algo de sua estreia em Grand Slam.

Importantes nomes da nova geração americana ficaram no ‘quase’. Frances Tiafoe deixou escapar incrível chance de eliminar John Isner – sacou para o jogo com 5/3 no quinto set -, Taylor Fritz reagiu mas também caiu no quinto para Jack Sock e Mackenzie McDonald levou virada de um quali tcheco. Os destaques foram o britânico Kyle Edmund, aproveitando-se do momento de baixa de Richard Gasquet, e o americano de origem mexicana Ernesto Escobedo, que se valeu do abandono de Lukas Lacko.

O primeiro dia de US Open já viu 12 jogos irem ao quinto set – um deles não foi disputado por abandono -, com quatro marcando viradas de 0-2. Curiosamente nenhum deles marcou uma real surpresa. Porém, deve custar caro, já que a tarde registrou temperatura de 33 graus.

Seis cabeças do feminino já deram adeus, mas todas abaixo do número 18, o que não muda muita coisa. Decepção maior para a queda da campeã olímpica Monica Puig, que entrou de cabeça em cima da hora e levou surra. Outra quem ficou devendo foi Garbine Muguruza, muito instável. Não sei se irá muito longe.

Drops
– Devido a um problema na quadra 10, a velha Granstand teve de ser retomada. O charmoso estádio, que virou anexo da Louis Armstrong, foi substituído pela nova Grandstand porque terá de ser demolido em 2017 para que seja feita a cobertura da Armstrong.
– No ano em que se inaugura o teto retrátil de US$ 150 milhões, a previsão de chuva em Nova York é mínima para as duas semanas do US Open. O único dia com mais de 50% de chance é a próxima quinta-feira. Nos demais, mal chega a 30%.
– O New York Times deu extenso perfil de 5 mil palavras com Nick Kyrgios, com destaque para dois trechos. Em um, diz que o australiano é “o jogador mais divertido desde John McEnroe” e, em outro, afirma que é provavelmente o “mais agraciado (de talento) desde Roger Federer”.

US Open à espera da história
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2016 às 22:13

Único Grand Slam a jamais ter deixado de realizar uma edição desde sua primeira disputa, em 1881, o US Open está aberto para feitos históricos em 2016. E não são apenas para Novak Djokovic e Serena Williams, os favoritos naturais aos títulos. Veja a lista:

Masculino
– Djokovic tem uma série de feitos a realizar. Se atingir as quartas, será o terceiro com maiores presenças (36) em Slam; se for à semi, iguala as 31 de Connors no segundo lugar; se estiver na final, serão 21 só atrás de Federer; se ganhar o US Open, terá 13 Slam e ficará bem perto de Nadal e Sampras.
– Depois de superar Lendl em Wimbledon, Djoko deve ultrapassar Agassi na quantidade de vitórias de Slam (224 a 223). Em 2017, tentará chegar no segundo lugar de Connors (233).
– Outra marca curiosa ao alcance do sérvio é o número de vitórias em quadra dura em Slam. Está em quarto lugar com 114, apenas duas atrás de Sampras.
– Murray pode se tornar apenas o quarto profissional a atingir as quatro finais de um Slam na mesma temporada, repetindo Laver (69), Federer (2006, 2007 e 2009) e Djokovic (2015).
– Feliciano López joga o 59º Slam consecutivo e já pode sonhar em atingir os 65 de Federer.
– Desde o início da Era Profissional, nenhum homem ganhou o US Open sem perder ao menos um set.
– Apenas três jogadores não pré-classificados venceram a chave masculina do Aberto até hoje. O último foi Andre Agassi, em 1994.

Feminino
– Serena não pode apenas superar Steffi Graf no número de troféus de Slam em simples, mas também ultrapassar Martina Navratilova como recordista de vitórias de Slam na carreira. Martina tem 306, apenas duas a mais que Serena.
– Quando entrar em quadra na terça-feira, Venus se tornará a recordista absoluta de participações em Slam, com 72. Serena chegará a 65 e terá a quarta maior marca.
– Serena também divide com Chris Evert o recorde de seis títulos no US Open, ambas com um a mais que Graf. Em vitórias no torneio, no entanto, Chris está muito distante (101) de Navratilova (89) e Serena (84).
– Angelique Kerber corre atrás do número 1, mas tem um tabu pela frente. Canhotas ganharam apenas sete dos 112 títulos disputados, sendo quatro com Navratilova e dois com Monica Seles.
– Em toda a história do torneio, 21 diferentes jogadores obtiveram a “tríplice coroa”, ou seja, venceram simultaneamente em simples, duplas e mistas. A última a alcançar tal façanha foi Navratilova, em 1987.
– Primeiro Slam a instituir o tiebreak, a equiparação de prêmios, as rodadas noturnas e o ‘hawk-eye’, o US Open também se diferencia dos outros três grandes por ser o único a ter chave de 128 jogadoras para o quali feminino.