Para matar saudades
Por José Nilton Dalcim
26 de março de 2017 às 00:38

Roger Federer e Juan Martin del Potro escreveram deliciosos capítulos do tênis por quatro ou cinco temporadas, com duelos magistrais, disputados, emocionantes. Três anos e meio depois, agora com carreiras reconstruídas, os dois voltarão a duelar ainda na terceira rodada do Masters de Miami.

Quantos jogos incríveis. A final do US Open de 2009 que o então garoto Delpo conseguiu vencer colocou o molho que faltava, mas pouco antes eles já tinham feito uma batalha de arrepiar na semi de Roland Garros. Em 2012 e 2013, pelo menos cinco partidas memoráveis, como a virada espetacular em outra semi de Paris e o 19-17 no set final das Olimpíadas em favor de Federer, os dois títulos de Delpo dentro da Basileia e a suada vitória do suíço no Finals de 2013, que foi o duelo mais recente.

O reencontro de segunda-feira pega os dois em momentos distintos. Federer é o grande destaque do circuito atual, praticando um tênis agressivo de alta qualidade, com backhand afiado como nunca e muito preparo físico. Del Potro iniciou tardiamente a temporada, ainda não embalou, precisou alterar seu plano tático e hoje usa mais slice do que o próprio suíço. O argentino certamente sabe que, se não ousar mais com o backhand batido, terá poucas chances.

Miami é bem diferente de Indian Wells. A umidade sufoca os tenistas e deixa as condições mais lentas. Mas também tem o vento para incomodar e a chuva para esquentar o banco do vestiário. O desafio mental se torna grande. Na parte inferior da chave, onde estão Kei Nishikori e Rafael Nadal, já caíram 10 dos 16 cabeças, entre eles Marin Cilic e Grigor Dimitrov. De nome perigoso mesmo, restou Milos Raonic.

No lado superior da chave, onde estão Federer e Stan Wawrinka, também houve pequenas surpresas, mas o destaque mesmo foi a atuação firme de Borna Coric que tirou a paciência de Dominic Thiem. O croata precisava muito de um resultado de peso para tentar reagir após a cirurgia no joelho e a parada forçada, mas ainda é defensivo demais. Funcionou contra Thiem, que exagerou de novo na força e perdeu a cabeça no final do segundo set.

Além de Federer x Delpo, a terceira rodada promete ainda com Nadal x Philipp Kohlschreiber, Nishikori x Fernando Verdasco e Alexander Zverev x John Isner.

Quadro comparativo
O internauta Lucas Torres Macedo envia um interessante quadro comparativo entre o desempenho dos quatro maiores tenistas do momento e os dois grandes da década de 1990 , que tiveram grandes campanhas em Grand Slam e Masters 1000.

O estudo gera boas reflexões. Segue abaixo:

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Federer não mudou empunhadura
Por José Nilton Dalcim
21 de março de 2017 às 20:10

O backhand de Roger Federer tem intrigado especialistas e fãs desde que começou a temporada 2017. Aquele que sempre foi o ponto mais frágil no jogo do multicampeão suíço de repente se transformou numa poderosa arma, capaz não apenas de se manter firme nas trocas de bola dispensando o slice, mas principalmente como nova força de ataque, abusando de cruzadas bem anguladas ou paralelas fulminantes.

Federer tem falado pouco sobre isso, limitando-se a dizer que o novo modelo de raquete, com cabeça maior e menor quantidade de cordas, permitiu que o golpe ficasse mais calibrado e potente. Há no entanto discussão constante se o técnico Ivan Ljubicic teria convencido o pupilo a alterar a empunhadura do golpe, que sempre foi o ‘eastern’.

Requesitei então a ajuda de dois grandes especialistas brasileiros para me ajudar na questão e a resposta de ambos foi categórica: Federer não mudou a forma de segurar a raquete para executar o backhand.

Reconhecido estudioso em biomecânica, Ludgero Braga Neto ilustra claramente a questão. Vejam a sequência das imagens e explicações:

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O que então contribuiu para essa melhoria tão evidente?

Para a técnica Suzana Silva, sem dúvida a nova raquete foi decisiva, mas também um pequeno ajuste no posicionamento do golpe. “Acredito que o swing está mais solto: ele está conseguindo maior aceleração da raquete por dois fatores: 1. usa melhor seu cotovelo, aproximando-o flexionado mais do tronco no final da preparação para depois afastá-lo do corpo durante o impacto. A terminação fica totalmente estendida. 2. utiliza o punho na fase pré e pós impacto. Pequenos ajustes que fazem uma grande diferença”.

Ela ainda destaca o ponto de impacto: “Pegar as bolas cada vez mais na subida, aproveitando a energia cinética da bola, é outra chave da evolução do Roger. Já vimos isso naquela grande final de Cincinnati contra Novak Djokovic, quando ele respondeu vários saques do sérvio bem de dentro da quadra”, enfatiza.

Federer quebra outra barreira
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2017 às 21:07

Depois de acabar com espera longa para ganhar mais um Grand Slam, o suíço Roger Federer também recuperou a hegemonia em Indian Wells. Cinco anos depois do tetracampeonato, ele voltou a conquistar o deserto californiano e encerrou também o jejum de 19 meses sem conquistas em nível Masters. De quebra, superou a marca de Andre Agassi e agora é o tenista de maior idade a vencer um evento desse quilate, aos 35 anos e sete meses.

Faltou é verdade um pouco mais de emoção no 24ª duelo diante de Stan Wawrinka. Houve lances de grande qualidade de parte a parte, mas raros games equilibrados ou longas trocas de bola. O saque dos dois foi muito superior à devolução na maior parte do tempo. Federer cumpriu a promessa e entrou muito agressivo, mas encontrou Stan firme com o serviço. Só foi obter a quebra no 10º game. Uma estatística foi especial: enquanto Roger ganhou 83% dos pontos em que precisou do segundo saque, Stan apenas se deu bem em 27%.

O segundo set melhorou muito, principalmente porque Wawrinka se mostrou menos passivo e tentou tomar mais iniciativa, embora quase sempre com forehand. A bola dos dois andou muito o tempo tempo, favorecidos pelo calor de final de tarde perto dos 30 graus. A rigor no entanto Wawrinka jamais conseguiu ameaçar com seriedade o amigo. Acabou cedendo a quebra definitiva no último game. Muito justo, Federer completou com outro voleio o 25º Masters e o 90º troféu da carreira. Faltam apenas quatro para igualar Ivan Lendl.

Obviamente a pergunta que a maioria quer fazer é se Federer já virou candidato a lutar pelo número 1 do ranking. Calma. Ele soma agora 3.045 pontos na temporada, o que é curiosamente a exata soma dos segundo e terceiro colocados, Rafa Nadal (1.635) e Wawrinka (1.410). Mas enquanto qualquer tenista não atingir pelo menos a casa dos 7 mil pontos, não dá para dizer que ele tenha chance de terminar a temporada na liderança. O patamar médio para isso é de 10 mil pontos.

Dor de cotovelo
Incrível. Os dois líderes do ranking estão sofrendo do mesmo problema, contusão no cotovelo, e não disputarão o Masters de Miami, que começa já na quarta-feira. Tremenda perda para o torneio, mas muito pior para Nole. Atual campeão, ele perderá mais mil pontos na classificação e verá Andy Murray se afastar ainda mais, indo a 4 mil de diferença.

Os dois estão fazendo uma temporada apagada. Decidiram Doha na primeira semana do ano, e a vitória do sérvio parecia animar a briga pela ponta. Mas foram decepções maiúsculas em Melbourne. O escocês ainda ganhou aos trancos e barrancos Dubai, enquanto Djokovic foi batido duas vezes por Nick Kyrgios em plena quadra dura.

Embora ainda seja tão começo de calendário, é um tanto chocante ver Murray na 10ª posição do ranking da temporada, atrás até mesmo de David Goffin e Pablo Carreño, mas pior ainda está Djoko, apenas 18º e com quase metade dos pontos do britânico.

A expectativa é que os dois voltem no saibro lento de Monte Carlo, onde Djokovic foi campeão em 2015 mas perdeu na estreia no ano passado. Murray nunca passou da semi e em 2016 caiu diante de Nadal.

Além deles, Miami também não verá o experiente trio francês formado por Monfils, Tsonga e Gasquet. A ótima notícia é que Thiago Monteiro se livrou do qualificatório e entrou direto. O sorteio da chave acontecerá na segunda à noite e os primeiros jogos masculinos, na quarta. Stan será cabeça 1, seguido por Kei Nishikori. Se Milos Raonic desistir, Federer sobe para cabeça 3 e Nadal, 4. Isso evitaria um novo ‘Fedal’ antes de uma possível final.

Vesnina, um exemplo
Repleto de surpresas ao longo de seus 10 dias, Indian Wells também viu uma final feminina entre duas tenistas com mais de 30 anos, embora de currículos muito distintos. Sveta Kuznetsova ganhou dois Grand Slam, o primeiro deles há quase 13 anos, e Elena Vesnina só agora faturou o maior troféu da carreira.

O fato espetacular é que Vesnina sequer passou da primeira rodada do quali de Indian Wells de 2016. Era 86ª do ranking. Persistiu. “Acho que sou um exemplo para as outras tenistas de que tudo é possível”, garantiu.

Com um tênis ofensivo, Vesnina era bem mais conhecida como duplista, com dois troféus de Slam, o título olímpico no Rio e no Finals de 2016. Nesta incrível campanha em Indian Wells, derrotou a futura número 1 Angelique Kerber e na sequência tirou Venus Williams sempre com tênis elegante e muito empenho. Será pela primeira vez a 13ª do mundo e vira mais uma força na temporada.