Sorte ou azar?
Por José Nilton Dalcim
19 de fevereiro de 2017 às 19:33

É tradicional no tênis você dizer que um jogador ‘deu azar’ no sorteio da chave ao cair diante de um grande favorito. Frente a tantas alternativas, pegar logo os maiores cotados ao título não é a princípio o sonho de um tenista.

Ao mesmo tempo, se existe um momento mais adequado para uma surpresa é justamente a primeira rodada, especialmente se o seu adversário chegar em cima da hora e não tiver tempo de descanso e de adaptação.

Parece exatamente o caso de Thomaz Bellucci e/ou Thiago Monteiro no Rio Open que começa na segunda-feira. A maior chance está justamente com Bellucci, que só tem treinado desde Quito e pegará Kei Nishikori, não apenas o cabeça 1 mas também a grande estrela, vindo de uma semana desgastante em Buenos Aires, onde fez domingo a final. Só na semi de sábado contra Carlos Berlocq, foram quase três horas. Hoje, foi fácil perceber, estava cansado.

Se Bellucci não aproveitar a chance, Thiago Monteiro pode aprontar de novo no Jockey Club, como fez no ano passado diante do top 10 Jo-Wilfried Tsonga. Vamos lembrar que o cearense está radicado no Rio de Janeiro há três anos, onde faz pré-temporada e todos os treinamentos. A desvantagem de Monteiro é que Nishikori teria a quarta-feira para se recuperar, já que a partida contra Bellucci já está marcada para terça à noite.

Enfim, o fato é que a chave foi montada sob medida para os organizadores do ATP 500 carioca. Esses dois jogos já valerão o (salgado) ingresso, mas os deuses do tênis ajudaram ainda mais e teremos Alexandr Dolgopolov x David Ferrer, Fabio Fognini x Tommy Robredo, Dominic Thiem x Janko Tipsarevic e Paolo Lorenzi x Federico Delbonis. Também dá para torcer pelos outros dois brasileiros: Rogerinho Silva pega o convidado Casper Ruud, 18 anos e pouco currículo, e João Souza tem páreo duro contra Pablo Carreño.

‘Dog’ fez sua parte em Buenos Aires. Dentro de seu estilo tão heterodoxo, em que raramente existem meios termos, o ucraniano encerrou jejum de cinco anos e mostrou muito do que se deve fazer contra Nishikori no saibro. Claro que ele abusa da margem de risco, mas joga com notável agressividade e variação, dá muito pouco ritmo e sempre tem um golpe inesperado a dar. Já com 28 anos, é difícil imaginar que conseguirá reviver 2012 e seu top 15. Uma coisa não se discute: é bem divertido ver Dolgopolov jogar.

A outra história do fim de semana coube a David Goffin, que ao contrário de ‘Dog’ não tem nada de especial mas um conjunto muito bom. Justamente num piso rápido, de quique baixo, ele conseguiu encaixar as coisas e quase levou até mesmo o título. Enfim, o belga chegou ao top 10. Também não é mais um garoto. Porém, com 26 anos recém feitos, ainda concorre a algumas aventuras.

Por último, registre-se o título de Ryan Harrison em Memphis. Enfim, o primeiro de ATP, que chega talvez com quatro anos de atraso. Harrison era tido como grande nome da nova geração, com um tênis bem moderno. Nada deu certo para o garoto, que sempre sentiu muita pressão. Ele ganhou seu primeiro jogo de ATP aos 15 anos e, aos 19, já era top 100. Em queda livre, há exatamente 12 meses, batia no fundo de sua queda e era o 168º do ranking. Assim, ainda que em um ATP de pequena expressão, Harrison ao menos recebe os dividendos de jamais ter desistido.

A estrela sobe
Por José Nilton Dalcim
12 de fevereiro de 2017 às 21:49

Alexander Zverev é, cada vez mais, o grande nome da nova geração. Ainda vai completar 20 anos em abril e já ostenta dois troféus de simples e um de duplas de nível ATP. Se pensarmos que sua carreira efetiva começou em 2015, é um salto e tanto.

Há muitos detalhes que apontam para um futuro brilhante. Só os números já dizem muito. De suas 69 vitórias de primeira linha, 37 foram na quadra dura, 21 no saibro e 11 na grama. Tem quatro vitórias sobre top 10, porém a lista de triunfos sobre nomes expressivos é relevante: Roger Federer, Stan Wawrinka, Dominic Thiem, Tomas Berdych, Marin Cilic, David Goffin, Grigor Dimitrov, John Isner e Jack Sock. Já tem quatro finais de ATP, com dois títulos na quadra dura coberta. Quando precisou jogar sets decisivos, venceu 29 e perdeu 20.

De onde vem todo esse sucesso? Zverev foi moldado como o tenista mais moderno possível: saque poderoso, forte jogo de base dos dois lados. Tem defeitos? Claro. A transição à rede ainda é imperfeita e os voleios precisam ser trabalhados. Com 1,98m, pode melhorar a movimentação, embora é claro isso nunca será seu ponto forte. Precisa aprender a dosar a energia em jogos mais longos, que muitas vezes escapam por falta de pernas. A cabeça no entanto chama muito a atenção. Embora ‘reclamão’, não tem medo de ousar, seja quem for do outro lado da rede. O exemplo perfeito foi neste domingo contra o tricampeão Richard Gasquet dentro de Montpellier.

Não menos notável é o fato de ele ter conquistado também o título de duplas neste domingo, ao lado do irmão mais velho Misha. Outra prova de sua versatilidade, embora certamente as duplas estejam num plano muito distante neste momento.

A campanha dará a Zverev o 18º lugar do ranking, seu recorde pessoal, mas ainda com pouca chance de sonhar com o top 15, já que está 520 pontos atrás de Nick Kyrgios. Ele no entanto pode subir novos degraus em Roterdã, a partir de terça-feira.

Não menos animadora foi a atuação de Grigor Dimitrov em Sofia. Diante de seu público pela primeira vez, ele lotou arquibancada a cada rodada. Se isso é um incentivo, também se torna uma pressão. Mas ele repetiu as boas atuações de Brisbane e Melbourne, controlando os nervos e sabendo a hora certa de atacar. Gannou 14 de 15 partidas na temporada, sendo seis sobre top 20 e três em cima de top 10. Agora 12º do ranking, ele não descansa e também segue direto para Roterdã.

Na contramão da juventude, o dominicano Victor Estrella imitou Guga e fez um coração no saibro de Quito para consagrar seu tricampeonato consecutivo. Aos 36 anos e seis meses, ele sobreviveu a jogos duríssimos, com três viradas, sete tiebreaks jogados e quatro match-points evitados, eliminando os cabeças 1, 3 e 4. Seu adversário foi Paolo Lorenzi, que vai fazer 36 em dezembro e vinha da maratona da Copa Davis contra a Argentina. Estão em incrível forma.

Vai entender
Além de fazer um calendário extremamente exigente, mesmo para seus 23 anos, o austriaco Dominic Thiem ainda gosta de complicar as coisas. Acaba de perder na estreia de Sofia, entrou em Roterdã e daí dará um salto para o saibro do Rio, verdadeiro oásis, já que na semana seguinte terá de voltar à quadra dura para Acapulco.

Ou ele se acha bom demais no saibro para disputar um ATP 500 sem qualquer preparação mínima e adequada, ou então virá mesmo só atrás do cachê e da sorte. Não dá para imaginar que ele conseguirá um tênis digno saindo do frio e quadra coberta para o verão carioca.

Alerta
Importante alerta foi dado por Fernando Roese, capitão do time da Fed Cup, que chegou ao cúmulo de disputar neste sábado duelo de rebaixamento do Zonal Americano com a Bolívia. ‘Precisamos formar mais jogadoras’, pede o experiente treinador.

Compromissadas com a carreira individual, Paula Gonçalves e Bia Haddad não foram chamadas. Teliana Pereira tentou, mas perdeu três dos sete jogos que disputou entre simples e duplas. A boa notícia foi a estreia de Luísa Stefani, que entrou em momentos complicados e mostrou competência. Ela está cursando Universidade nos EUA.

Outras
– Juan Martin del Potro esticou ao máximo e retornará ao circuito em Delray Beach, na próxima semana, mesmo torneio aliás em que marcou sua volta no ano passado. Depois, vai a Acapulco e Indian Wells.

– Thomaz Bellucci perdeu pelo terceiro ano seguido para Victor Estrella no saibro alto de Quito. Ele pulou Buenos Aires, onde nunca se deu bem, e preferiu se preparar para Rio e São Paulo. Curiosamente, Thiago Monteiro é quem vai pegar Estrella na Argentina.

– Agora 154º do ranking, enfim Ernests Gulbis está de volta. Tentou o quali de Roterdã e a vaga na chave escapou por muito pouco. O letão não jogava desde Toronto por causa do ombro e não vence um jogo de chave principal desde Roland Garros.

Djokovic continua incógnita
Por José Nilton Dalcim
9 de fevereiro de 2017 às 23:28

É problema físico ou desmotivação? Existe mesmo uma crise pessoal ou a influência do ‘guru espanhol’ mais atrapalha do que ajuda?

Há todo tipo de especulação solta por aí e não é apenas entre fãs ou participantes de fóruns. Até mesmo especialistas e experientes jogadores encontram dificuldade para entender o que aconteceu com Novak Djokovic desde junho do ano passado.

Em um momento, ele entrou para o exclusivo rol dos que detinham todos os títulos de Grand Slam simultaneamente. O rei do tênis. Hoje, oito meses depois, só mantém um deles, que terá de defender justamente no saibro de Roland Garros.

Falta de preparação adequada e desleixo na parte física foram apontados pelo ex-treinador Boris Becker como a causa da queda acentuada de produtividade de Nole a partir de Wimbledon. Não se sabe o quanto isso pode ter influenciado seus sucessivos problemas físicos, ora com o punho, ora com as costas.

Depois de cair precocemente no Australian Open, portanto com tempo de sobra para estar voando na Copa Davis e no que viesse a seguir, as dúvidas só aumentaram quando ele pediu ajuda do fisioterapeuta ainda no primeiro set e fez uma atuação sem brilho diante do modesto Daniil Medvedev. Mesmo com tão pouca atividade, não se motivou a mudar o calendário e só reaparecerá em Indian Wells.

A opinião mais comum nos bastidores é que, apesar de ele estar perto dos 30 anos, algo que sempre pesa mais no tênis, o motivo principal de sua queda é o mental. O foco e a determinação que lhe deram tantos feitos espetaculares claramente não está mais lá. Ao contrário, temos visto um Nole reclamão ao melhor estilo Murray, lastimando a bola que tocou na corda, os pontos em cima da linha que o adversário jogou, a marcação do juiz e várias vezes se dirigindo muito irritado para seu próprio box, como se quisesse mais apoio.

Essa ‘linguagem corporal’ é um estímulo para o adversário. E ao somar tantas exibições irregulares e derrotas inesperadas, Djokovic começa a ser visto não mais como o homem a ser batido, mas como um tenista cheio de vulnerabilidades. A pergunta que mais corre solta é: ele vai conseguir reverter rapidamente o quadro?

‘A preocupação é grande na Sérvia’, garante o jornalista Vojin Velickovic à CNN. ‘Novak é uma espécie de Super-Homem aqui e Super-Homem não perde. As pessoas mudam até sua rotina para acompanhar as partidas na TV’. Também entrevistado, o ex-treinador de Roger Federer e Peter Sampras, o norte-americano Paul Annacone, acha que Djokovic teve apenas uma pequena queda e acredita na reação, porém em outro nível. “Seus erros acontecem por milímetros, há uma perda de intensidade. Porém ele ainda é capaz de jogar um grande tênis. No entanto, não imagino que ele voltará a dominar o circuito como fez em 2015 e 2016″.

Becker voltou a dar seu pitaco. ‘A questão é o quanto ele ainda deseja fazer o grande esforço necessário para se manter no topo. As perguntas que devem ser feitas é o quão importante o tênis ainda é para ele e se está disposto aos sacrifícios. Obviamente, ele tem o talento e a competência, mas terá de passar por cima de tudo se quiser ganhar mais um Slam’. Andre Agassi rasgou elogios e se diz esperançoso: ‘Ele é um dos maiores tenistas de todos os tempos e por isso eu lhe dou uma grande chance de se recuperar rapidamente’.

Concordo com Agassi e acho que essa reação precisa começar em Indian Wells e Miami. Nem precisa ganhar novamente os dois Masters, porém ter atuações fortes, convincentes. Menos teatro e mais eficiência. Quedas precoces ou jogos fracos podem lhe causar problemas ainda mais sérios, porque há as quartas de final da Copa Davis justamente antes da temporada de saibro. Pressão e mais pressão. Nole necessita voltar a ser a fortaleza de antes.